Reuber Brandão
Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

A greve dos bichos, uma fábula política

Reuber Brandão
segunda-feira, 20 outubro 2014 22:03

As abelhas iniciaram a greve e adesão de bichos e plantas foi geral. Foto:
As abelhas iniciaram a greve e adesão de bichos e plantas foi geral. Foto:

Começou de forma prosaica. Em algum lugar, muito pequeno e isolado para ser digno de lembrança, as abelhas resolveram não sair da colmeia. Cruzaram os braços, em protesto contra a superlotação da colmeia, contra os constantes saques de suas poupanças e ao parco rendimento de seus estoques de mel.

Todos imaginaram que o movimento duraria pouco, que as rainhas ligadas aos sindicatos convenceriam o enxame a aceitarem o acordo e que, afinal de contas, as condições de vida e de trabalho eram bem melhores que das jataís e mamangavas, que a cada dia pediam mais espaço de moradia.

No entanto, o movimento cresceu. Outros setores perceberam que também eram explorados há muito tempo e resolveram protestar contra milênios de falta de respeito. As sementes resolveram não vingar, os morcegos decidiram em uma assembleia soturna não devorarem mariposas e traças. Além disso, em apoio às companheiras himenópteras, também cessariam seu trabalho de polinização. As árvores, cansadas de tanto ferro e fogo, instruíram suas bases a não reterem o solo…

Em pouco tempo os sistemas começaram a entrar em colapso. O governo bem que tentou diminuir a gravidade da situação com uma linda campanha na tevê e discursos duros nos jornais, mas, com a adesão da categoria dos decompositores ao movimento, a coisa degringolou de vez.

“Cadáveres de todo tipo e tamanho continuavam espalhados, fétidos, putrefatos, mas nem as larvas de moscas, urubus ou besouros carniceiros apareceram para fazer o seu papel”

A matéria orgânica simplesmente deixou de ser incorporada ao solo. Cadáveres de todo tipo e tamanho continuavam espalhados, fétidos, putrefatos, mas nem as larvas de moscas, urubus ou besouros carniceiros apareceram para fazer o seu papel. A água começou a ficar com cheiro e gosto estranhos…

Os governantes chiaram, protestaram, xingaram e nada. Apelaram para os tribunais julgarem as greves ilegais, mas os doutos juízes eram incapazes de localizar, em toda a jurisprudência, quaisquer brechas que obrigassem os grevistas a retornarem aos seus postos de trabalho…

Medidas emergenciais foram tomadas… Grandes piscinas de ácidos corrosivos iriam dar cabo dos cadáveres. Militantes do partido iriam pincelar as flores com pólen, para tentar garantir a produção de frutos. Milhares de dragas foram acionadas para sugar o sedimento do fundo dos reservatórios hidroelétricos, teimosamente depositados pela erosão que as raízes grevistas negaram impedir. Mais produtos químicos eram gastos para tornar a água potável e para tentar garantir a fertilidade do solo, mas a plantas teimavam em não crescer ou produzir frutos…

O preço dos alimentos começou a subir no mesmo ritmo em que sua oferta e diversidade diminuíam. O clima começou a ficar estranho, com madrugadas gélidas e dias tórridos. Alguém disse que era culpa de plantas que se negavam a realizar a evapotranspiração. Tiveram que racionar energia elétrica, como outros governos haviam feito antes. Apesar das dificuldades, os grevistas permaneciam firmes e o movimento se espalhava… Até os animais domésticos ameaçaram aderir…

“Decidiram aprovar uma lei que enquadrava como terrorista todo organismo que se negasse a executar seu serviço ambiental, tendo a imediata prisão como punição. Os peixes desdenharam.”

Temerosos com as eleições próximas, os políticos resolveram criar leis emergenciais para enquadrar o movimento. Um senador católico sugeriu que o Papa poderia excomungar as plantas e os animais. Um deputado evangélico lembrou que tais coisas não possuíam alma, não iam para o paraíso e, por isso, não poderiam ser repreendidas nem por ele, pastor ungido, nem pela concorrência. A bancada ruralista sugeriu a institucionalização do trabalho escravo (já executado por alguns eles) e o uso da força para defender o agronegócio contra esses bichos ambientais. As reuniões das comissões eram encerradas com discussões de temas relevantes, como saber se os sapos tinham ou não alma ou se era possível tirar mel da terra…

Decidiram aprovar uma lei que enquadrava como terrorista todo organismo que se negasse a executar seu serviço ambiental, tendo a imediata prisão como punição. Os peixes desdenharam. Uma penitenciária parecia piada para quem já estava acostumado a redes e a barragens limitando seu direito de ir e vir… Pássaros e outras aves também desdenharam das gaiolas, enquanto bloqueavam a dispersão de sementes e a predação de pragas, agora aliadas na greve… Nem a tortura, a completa revogação dos direitos civis ou a morte demoveram os grevistas, já acostumados a esse tipo de tratamento por parte dos governantes. Era a hora do basta, era a hora de serem percebidos.

Alguns humanos decidiram apoiar o movimento. Alguns foram presos por usarem camisetas com imagens de grevistas, por portarem diplomas suspeitos ou por repetirem slogans subversivos. Mas a coisa ficou feia mesmo para o governo quando o presidente de um importante país importador ligou, temendo o crescimento do movimento, especialmente porque, em sua terra, as coisas contra os bichos, as plantas e suas moradias, não eram muito melhores que no Brasil. Aliás, em lugar nenhum do mundo as coisas eram melhores…

“Que se danem todos. Vamos isolar os grevistas. Vamos mostrar a eles o seu lugar e quem é que manda! Se preciso for, vamos todos morar em um gigantesco shopping, tomar água de urina reciclada, respirar gases produzidos em um reator e comer ração.”

Alguns senadores ruralistas arrancavam os cabelos, enquanto outros desfaziam o penteado e borravam a maquiagem quando suas vacas deixaram de comer capim e quando suas sementes permaneciam imóveis no solo…Mesmo aquelas sementes esmeradamente e geneticamente modificadas… Mas, como o movimento não era nem de esquerda, nem de direita, era difícil culpar alguém…

Buscaram interlocutores… Burocratas dos órgãos ambientais foram imediatamente convocados, assim como muitos espertalhões não governamentais. Na audiência, enquanto um professor universitário dormia, um outro mentia e um terceiro costurava uma consultoria, alguém levantou uma questão básica. Ninguém havia perguntado aos grevistas o que eles queriam, que direitos eles reivindicavam, que mudança de postura esperavam dos líderes.

Foi quando uma das senhoras presentes, vestida com um longo vestido verde-dólar, o rosto repleto de profundas rugas e o dedo em riste, ostentando uma grande aliança dourada, decretou: – Que se danem todos. Vamos isolar os grevistas. Vamos mostrar a eles o seu lugar e quem é que manda! Se preciso for, vamos todos morar em um gigantesco shopping, tomar água de urina reciclada, respirar gases produzidos em um reator e comer ração. Somos humanos! Somos os senhores da terra! Temos o mandato divino para isso! Temos a tecnologia e vamos construir o nosso mundo, livres da biodiversidade desalmada.

E os donos da triste festa, aplaudiram…

*Texto em homenagem ao velho Xupé, onde o gato-palheiro fez sua primeira e rara apresentação para uma plateia pequena e inócua…

 

 

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