Rafael Loyola
Diretor Científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Um gigante que o tempo inexorável abateu? 

Rafael Loyola 
sexta-feira, 11 setembro 2020 15:59
Serra do Roncador. Foto: Wikipédia.

“Antes de voltar para o acampamento, procuramos o ponto mais alto dos morros, e de lá tivemos uma vista bastante ampla da região que estamos percorrendo. Os cerrados se estendem para a frente até onde a vista alcança, cobrindo chapadas, espigões e elevações maiores. Para todos os lados, colunas de fumaça isoladas e grandes queimadas.” 

Esse texto foi escrito em 12 de julho de 1945, quando os irmãos Villas Bôas chegaram à Serra do Roncador, no sudeste de Mato Grosso. Era o início da expedição Roncador-Xingu e o relato mostra o assombro do sertanistas com o uso do fogo pelos índios Xavante, que dominavam a região. Mais adiante os irmãos escrevem: “A verdade é que, para qualquer lado que se olhe e até onde a vista alcança, uns cem quilômetros ou mais ao redor, há rolos de fumo subindo para o céu”.

O fogo é um velho companheiro do Cerrado e os povos ancestrais sempre o usaram a seu favor. Hoje em dia, a situação é outra. Em grande parte, os incêndios que temos visto na Amazônia, no Pantanal e no Cerrado são consequências do desmatamento ilegal e dos efeitos acumulados da crise climática, que tem aumentado o período e a intensidade de secas nesses biomas.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Cerrado vêm perdendo aproximadamente 1 milhão de hectares por ano para o desmatamento. No ano passado, o bioma perdeu o equivalente à área da cidade de São Paulo a cada três meses.

Também no ano passado, a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos publicou um relatório que apontou os principais fatores que causam perda de biodiversidade e degradação ambiental no Brasil. Para o Cerrado, queimadas são importantes vetores de perda. Pior ainda, o impacto do fogo descontrolado é alto e tem uma tendência de aumento para os próximos anos, justamente porque vêm acompanhado de dois outros fatores. Um deles é a mudança no uso da terra (entenda-se retirada da vegetação nativa para estabelecimento de atividades agropecuárias) e as mudanças climáticas. O aumento no número e no impacto de espécies invasoras integram esse quarteto nada fantástico.

O Dia Nacional do Cerrado, 11 de setembro, foi criado para que possamos refletir sobre a importância desse bioma para o país. Dois números simples revelam essa importância: o bioma é responsável por 14% de toda produção de água superficial do país e, para além de sua estonteante diversidade biológica, o Cerrado tem uma gigante sociobiodiversidade representada por comunidades de indígenas, quilombolas, ribeirinhos, vazanteiros, entre outras.

Só por isso, sempre haverá o que celebrar. Mas o Cerrado dos irmãos Villas Bôas não é mais o mesmo. Em outro momento de seu relato, eles falam de maneira poética e grandiosa sobre a Serra do Roncador: “… quem poderá negar que estivemos sobre o dorso de um gigante que o tempo inexorável abateu?”.

Especialmente no Dia do Cerrado, espero que esse trecho não se torne uma lamentável profecia, onde o tempo será substituído pelo Homem.

 

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