Poderá a Amazônia nos salvar?
Rafael Loyola
Diretor Científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Poderá a Amazônia nos salvar?

Rafael Loyola
terça-feira, 27 agosto 2019 12:31
Reserva Biológica do Rio Trombetas, em Oriximiná, PA. Foto: Marcio Isensee e Sá.

O desmatamento e incêndios que vêm ocorrendo na Amazônia brasileira são um desastre ambiental. Muito já foi dito sobre a importância da floresta e sobre os efeitos danosos de incêndios cada vez mais frequentes devido ao aumento do desmatamento ilegal e às mudanças climáticas.

Com a floresta cada vez mais perto de um ponto de virada sem volta – onde o clima e a vegetação entrariam em uma dança de Xiva que conduziria a uma mudança inexorável – é imperativo que a sociedade se mobilize pela conservação da Amazônia.

E é aí que percebi algo interessante nesses dias de noticiário sobre os incêndios. Parece que algo, finalmente, é consenso entre os brasileiros: a importância da floresta amazônica. Em um país dividido política e socialmente, onde todos têm opinião pronta (ou formada pelas redes sociais) e onde não há mais espaço para debates saudáveis e construtivos, surpreendentemente, ninguém parece ser favorável à destruição da floresta.

Claro, sempre há radicais. Obviamente, há também um gradiente entre os que acham que tudo é um exagero e outros que são bastante alarmistas. No meio desse gradiente, parece estar a maior parte dos brasileiros que se preocupam com a Amazônia por inúmeros motivos. Seja por medo de perda de soberania sobre o território, por receio de boicotes econômicos, pela importância do serviço de regulação de chuvas e controle climático, pelas riquezas naturais infindáveis da floresta, pela riqueza econômica que gera a bioeconomia da região ou por sua importância para os povos indígenas e comunidades tradicionais, as pessoas se conectam de alguma maneira com esse bioma.

Entre tantos fatos e notícias (muitas delas falsas) que correm pela internet, vale sempre prestar atenção no diz a Ciência. Os cientistas brasileiros deixam claro que as queimadas vistas ultimamente estão associadas ao desmatamento e outras atividades ilegais; negar isso é, no mínimo, tentar minimizar o problema.

“Com a floresta cada vez mais perto de um ponto de virada sem volta – onde o clima e a vegetação entrariam em uma dança de Xiva que conduziria a uma mudança inexorável – é imperativo que a sociedade se mobilize pela conservação da Amazônia.”

A ciência brasileira tem desenvolvido ao longo das últimas décadas diversos estudos sobre os impactos do fogo. Esses estudos avaliam e discutem alternativas de manejo em biomas nos quais o fogo faz parte da dinâmica natural e geram cenários que preveem onde o fogo pode ocorrer e para onde ele pode se alastrar, o que auxilia muito nos processos de prevenção e controle de incêndios.

Do ponto de vista político, a Amazônia é um ativo que concede um poder enorme ao Brasil. Sua proteção é um assunto de interesse global, vide a enorme repercussão internacional dos incêndios ocorridos nas últimas semanas. A ajuda internacional para combate aos incêndios (embora sempre acompanhada de interesses político-econômicos) mostra como os países desenvolvidos entendem a importância da floresta para a manutenção de uma estabilidade global – e não digo apenas climática.

O pior negócio para o governo brasileiro é queimar, literalmente, esse ativo. Ao contrário, o país deve aproveitar os mecanismos financeiros associados às convenções de biodiversidade, mudança do clima e objetivos do desenvolvimento sustentável para captar recursos que permitam um desenvolvimento realmente sustentável na região.

Uma política ambiental clara, rígida e aplicável é imprescindível para acabar com o desmatamento, incêndios e outros absurdos que destroem a floresta. Criticar a ciência e enfraquecer instituições públicas não vai ajudar. Ignorar o apelo da população tampouco. O governo precisa retomar as rédeas da política de meio ambiente e garantir, mesmo que por motivos alheios à conservação da biodiversidade per se, que a Amazônia ficará de pé. E se aceitar uma sugestão humilde, deveria fazer isso já e para todos os biomas brasileiros.

Floresta desmatada em Altamira, no Pará. Imagem tirada em agosto de 2019. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace.

Acima mencionei a dança de Xiva (ou Shiva). Na tradição hindu, essa divindade simboliza a destruição e está intimamente associado ao fogo. Mas Xiva, assim como o fogo, também representa a transformação. Quem sabe os lamentáveis incêndios na Amazônia possam nos conduzir a essa transformação? Quem sabe a comoção social das últimas semanas ajude o país a ver que, independente da posição política de cada um, ainda somos uma nação?

Temos interesses em comum, temos valores comuns moldados por séculos de cultura, temos um capital natural que pertence a todos nós. É hora de cuidarmos da Amazônia. Quem sabe ao salvarmos a Amazônia do fogo, o fogo da Amazônia nos salvará?

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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1 comentário em “Poderá a Amazônia nos salvar?”

  1. Olá Rafael, acabei de ler essa publicação e achei brilhante!
    Participo da organização de um evento acadêmico, o qual está em sua decima primeira edição, é gerido pelos alunos do curso de Engenharia Ambiental da UTFPR – Londrina, se chama Semana de Tecnologia e Meio Ambiente, é composto por minicursos, palestras, mesas redonda e visitas técnicas. Gostaria então, de te fazer um convite para ministrar uma palestra com esse mesmo tema abordado na publicação, seria enriquecedor para o nosso evento! Caso tenha interesse, o email para contato é stma.contato@gmail.com, desde já agradeço!!

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