Pedro da Cunha e Menezes
Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

Planejar para quê?

Pedro da Cunha e Menezes
quarta-feira, 26 julho 2006 14:52

Plano Maravilha. Assim se chamava o estudo que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contratou em 1998 para orientar a estratégia de sua política de turismo. Na época, o Plano, elaborado por uma firma espanhola que ganhara projeção internacional com as olimpíadas de Barcelona, foi saudado pela imprensa e pelos especialistas da área como um marco gerencial na história da cidade. Com efeito, era bem escrito e de fácil implementação.

Sua linha mestra consistia em identificar os produtos existentes na Cidade e os que precisavam ser desenvolvidos de acordo com a demanda doméstica e mundial. No grupo dos que já haviam, foram listados 40 produtos considerados topo de linha. Aqueles em que a administração pública deveria centrar suas prioridades, pois eram a âncora da cidade.

Entre essa quarentena, dez por cento, ou quatro lugares, estavam localizados na jurisdição do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Entre eles, o Cristo Redentor era a estrela maior. Símbolo inconteste não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil inteiro.

Mais recentemente, em princípios deste ano, o jornal O Globo promoveu uma eleição entre seus leitores para escolher qual era o cartão-postal que melhor simbolizava o Rio de Janeiro. Não houve sequer segundo turno. O Cristo levou com mais de 50% dos votos dos cariocas. O sufrágio, contudo, ultrapassa os limites do Município. O Cristo é unânime também no exterior. Em votação também finalizada este ano, o local foi escolhido por internautas dos quatro cantos do planeta como uma das 7 maravilhas do mundo moderno.

Paralelamente, (de novo) O Globo conduziu uma enquete para apurar quais seriam as sete maravilhas do Rio de Janeiro. Ouviu 50 personalidades de relevo, que incluiram o autor de novelas Manoel Carlos, o jornalista Renato Machado, a cantora Leila Pinheiro e o maestro Isaac Karabtchevsky. Mais uma vez, o Cristo levou de lavada, com 36 votos (74% dos eleitores).

Pois é, dia 12 de outubro, o Cristo completará 75 anos de sua inauguração como unanimidade entre locais e forasteiros. Era para ser a menina dos olhos das administrações federal, estadual e municipal. Não é. No último sábado, dia 22 de julho, o turista de São Paulo Aparecido Edivaldo Rodrigues foi assassinado no Mirante Dona Marta em plena luz do dia, na frente de sua mulher e filhos pequenos. O Mirante, de vista privilegiada, fica a meio caminho entre a cidade e o Corcovado e dentro do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Nas barbas do Cristo, deveria ter centro de visitantes, restaurante e trilhas interpretativas. Não tem sequer policiamento.

Não parece ser por falta de órgãos para pensar o tema às custas do erário. No plano federal, temos a Embratur que adora imprimir o Cristo em sua folhetaria, no Estado, a Turisrio vende a estátua como atrativo âncora, no Município a própria Riotur foi a contratante do Plano Maravilha.

Só o poder público parece não entender o óbvio. Será que as autoridades municipais pagaram mas não leram o Plano Maravilha? Será que desconhecem as estatísticas de visitantes do bondinho, que apontam para 600 mil visitantes por ano? Será que não navegaram na internet? Não assistem o Jornal Nacional?

Na esfera estadual, o relações públicas da PM, major Oderley dos Santos, avisou que a Polícia não vai modificar o patrulhamento da região, cujo planejamento alegou estar adequado. Segundo ele, após o crime foi feita uma verificação de como está o patrulhamento da área e a conclusão foi de que está correto. Será que o Major Oderley já se perguntou a razão de o Batalhão de Turismo da PM Fluminense ter no seu brasão o Cristo como símbolo máximo? Será que ele sabe explicar porque o Batalhão Florestal está aquartelado em São Gonçalo enquanto visitantes morrem no Parque Nacional mais importante do Brasil? Será que ele considera o assassinato de um turista em plena luz do dia em uma das sete maravilhas do mundo um incidente fortuito?

Não há inocentes nessa história. A inoperância federal também é marcante. Em 1999, foi assinado um Convênio entre entre a Prefeitura e a União Federal para a Gestão Compartilhada do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Botaram seu autógrafo nele o então Ministro do Turismo, Rafael Grecca, e a Ministra Claudia Costin, àquela época responsável pelo Serviço de Patrimônio da União. Prometeram resolver em seis meses a questão do Hotel das Paineiras, bem como passar para o Parque, via IBAMA, a totalidade da renda advinda do bondinho do Corcovado. Sete anos depois, nada disso aconteceu.

E o IBAMA, dono da casa onde reside o Cristo Redentor? O que faz? Em 2000 foram licitadas guaritas em todas as entradas rodoviárias do Parque, incluindo a estrada das Paineiras que dá acesso ao Cristo Redentor e a estrada Dona Castorina que leva à Vista Chinesa (outro dos 40 pontos do Plano Maravilha que sofre com o flagelo de assaltos constantes). As guaritas chegaram a ter sua construção iniciada, mas não foram concluídas. Seu orçamento foi desviado e virou uma “Casa do Pesquisador”, que por sinal não está sequer sendo utilizada na atividade fim.

É difícil aceitar tamanho descalabro em situação relativamente fácil de consertar. Todos sabem a importância do Cristo e de seus acessos para a imagem do Rio de Janeiro e do Brasil. Todos sabem que só há dois caminhos rodoviários para o Cristo e três pontos de grande freqüência- o Mirante Dona Marta, as Paineiras e a própria estátua. Há um Grupamento Ambiental e um de Turismo na Guarda Municipal, um Batalhão Florestal e outro de Turismo na PM, uma delegacia de polícia civil e outra federal com atribuições de meio ambiente e ainda há os agentes do IBAMA. Já, os problemas são sempre iguais, acontecem nos mesmos lugares e se repetem. Entretanto, nada é feito. Às vezes dá vontade de desistir de ser carioca.

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