Pedro da Cunha e Menezes
Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

A farra dos felinos invasores

Pedro da Cunha e Menezes
quarta-feira, 10 agosto 2005 17:25

Recente reportagem em O Eco sobre o tratamento dado aos gatos de rua gerou imensa polêmica entre leitores. Polêmica que aliás não é restrita ao bairro carioca onde fica o Jockey Club. Com efeito, desde que os portugueses desbravaram o mar tenebroso, há mais de quinhentos anos, que os bichanos têm estado no olho de um furacão chamado extinção de espécies endêmicas.

Biólogos e pesquisadores da área ambiental consideram que o fenômeno da rápida multiplicação das espécies exóticas invasoras é hoje a segunda maior ameaça à diversidade biológica do Planeta, perdendo apenas, em termos de gravidade, para a redução dos habitats. Um pesquisador chegou mesmo a dizer que, se não agirmos logo, ficaremos reduzidos no mundo inteiro a meio milhar de espécies padrão. O pombo, o burro, o cachorro, a lantana, o eucalipto, a maria-sem-vergonha e o gato estarão entre elas. Como se sabe, espécies invasoras são aquelas que, uma vez introduzidas em um determinado ecossistema onde não existiam antes, se adaptam tão bem que passam a ser as dominantes no pedaço.

É também o caso do capim-colonião que, originário da África, aportou no Brasil a bordo dos navios negreiros de tão triste história. Aqui chegado, adaptou-se muito bem. Sem seus inimigos naturais dos ecossistemas angolanos, ocupou espaço. Não precisou enfrentar a voracidade das infinitas manadas de antílopes, zebras, hipopótamos e elefantes do continente de Agostinho Neto e Mia Couto e grassou no Brasil. Para cada hectare abatido de Mata Atlântica, se nada for feito, ganha-se o equivalente a um campo de futebol coberto de colonião. Viceja rápido e faz sombra impedindo o nascimento das especíes nativas do nosso (outrora) rico ecossistema matatlântico.

Com o gato, a fábula é parecida. Predador de eficiência incontestável, o bichano virou praga em todos os cantos onde foi introduzido. Na Nova Zelândia, onde a avifauna, sem predadores naturais, construía seu ninho no chão, Garfield e companhia fizeram um “strike”. Gato de botas, passarinhos descalços. Pura covardia. Estima-se que desde sua introdução, os lindos felinos domésticos foram responsáveis pela extinção de 26% das espécies de pássaros do arquipélago neo-zelandês. Em Maurício, Gato Félix ajudou a eliminar os dodos para sempre da face da Terra; em Reunião, seu impacto é igualmente devastador.

No Brasil, assim como em toda parte, a situação também é grave e vem piorando. À medida que as áreas de conservação ambiental vão se transformando em ilhas e suas zonas de amortecimento perdem as matas originais para dar lugar aos sítios de veraneio, pastagens ou plantações, os gatos vão entrando cada vez mais em contato com a fauna nativa.

História similar é a dos cachorros. No Parque Nacional de Brasília, matilhas de cachorros ferais têm sido responsáveis pela predação de diversos animais da fauna do Cerrado, com sérias conseqüências para a população de veados-campeiros daquela área protegida. Dá-se o nome de feral a todo animal doméstico, que, abandonado, volta ao estado selvagem. (ainda sobre o impacto de espécies invasoras no meio ambiente, vale a pena ler a matéria “Chumbo neles”)

Não há pesquisa confiável que mostre qual a dimensão do dano que sua predação causa à fauna brasileira. Mas o bom senso e a observação de técnicos do Parque Nacional da Tijuca mostram que os gatos-caçadores causam mais impacto do que a caça, o desmatamento e o fogo feitos pela mão do homem. Quem caminha pela Floresta da Tijuca ao entardecer vai encontrar diversos bichanos saindo para caçar. Em todas as manhãs é comum ver restos de pássaros nativos jogados pelas trilhas em um feio emaranhado de penas e sangue.

Para fins de comparação, pesquisa feita pela Mammal Society da Inglaterra em 1997 com mil gatos domésticos concluiu que, em suas saídas noturnas, cada um deles era responsável em média pelo abate anual de 37 animais da fauna nativa, aí incluídos mamíferos, pássaros, répteis e anfíbios.

Outros países também já reconheceram o dano e adotaram medidas para saná-lo. Na cidade australiana de Melbourne, os moradores dos subúrbios que circundam o Parque Nacional dos Dandenongs estão legalmente proibidos de possuir gatos em casa. A medida visa proteger a fauna do Parque.

Em outros lugares, é exigido que os donos de gatos pendurem um sininho no pescoço de seus bichanos. Trata-se de uma forma de alertar a vítima, antes que seja tarde demais. Qualquer gato apreendido sem o sininho é levado para os gatis municipais e sacrificado. Sacrifício que, aliás, é medida amplamente utilizada para controlar populações de gatos de rua na Austrália, Inglaterra e nos Estados Unidos.

Mas se gatos domésticos, ou de rua, já causam todo esse dano, pior ainda é quando viram ferais. Somente nos Estados Unidos, estima-se existirem 60 milhões deles. Afetam principalmente as áreas de conservação urbana, para onde migram, saídos das ruas e casas das cidades que lhes são adjacentes. Ademais da já citada Floresta da Tijuca, no Parque Nacional de Brasília, na Serra da Cantareira em São Paulo e no Parque de Utinga em Belém, o bicho pega. Além da predação, estes animais também trazem para as florestas, doenças como raiva e toxoplasmose, com efeitos devastadores sobre várias espécies da fauna brasileira como o quati e o gambá. Há alguns anos, doença transmitida pela gataria da Pista Claudio Coutinho devastou a população de micos do complexo Morro da Urca e Pão de Açúcar.

Segundo estudos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, gatos abandonados nas ruas demoram em média 3 anos para se transformarem em ferais. No caso do Rio de Janeiro, com as ruas da Zona Sul às portas do Parque Lage, do Jardim Botânico e do próprio Parque Nacional da Tijuca, o convite à reversão ao estado selvagem é explícito.

A decisão de não controlar a população de gatos de rua é com certeza humana e nos tira o peso na consciência de eliminar um mamífero que tem acompanhado a espécie humana como animal doméstico por alguns milhares de anos. É uma opção de manejo. Por outro lado, não fazer nada é deixar a fauna nativa vulnerável a um predador eficiente que não pertence aos ecossistemas brasileiros. O que fazer? Deixar que os exóticos eliminem os nativos, ou controlar os invasores para salvar a fauna da Mata Atlântica?

A decisão será tomada por outra espécie exótica, invasora e muito nociva ao meio ambiente: o homem brasileiro, que nascido do cruzamento dos homens europeu, asiático e africano, há muito grilou as terras e habitats do homem nativo de Pindorama. Nestes termos, ao que tudo indica, a festa dos felinos caçadores vai continuar impune.

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