Pedro da Cunha e Menezes
Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

Bicicleta no mato

Pedro da Cunha e Menezes
sexta-feira, 8 abril 2005 17:02

Recentemente, o leitor Gustavo Janer enviou uma carta à seção Seu Eco reclamando do fechamento das trilhas do Rio de Janeiro para os praticantes do ciclismo de todo terreno – “mountain biking” para os amantes da língua inglesa. Trata-se de um assunto complexo que merece muita reflexão.

À primeira vista soa como uma violência cercear a prática deste esporte não poluente em uma unidade de conservação cujas atribuições incluem oferecer oportunidades de lazer à população, como é o caso do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Com efeito, durante anos, os ciclistas cariocas tiveram o privilégio de desfrutar do pedal em meio aos caminhos graciosamente projetados nos tempos do Coronel Escragnolle. Eu mesmo, ao assumir a direção do parque em 1999, era um adepto da atividade.

Ao começar a recuperação dos caminhos da Floresta da Tijuca, cuja manutenção não era feita há mais de 20 anos, contudo, minha equipe verificou que a drenagem das trilhas mais íngremes estava sendo seriamente comprometida pela prática do ciclismo. Se no terreno plano a silenciosa e não atritante bicicleta praticamente não causa impacto algum, nas decidas a história é outra. Nos chamados “down hills” os “bikers” tendem a frear a roda traseira, sendo que os menos experientes muitas vezes descem a trilha toda com o pneu traseiro bloqueado. Impedido de girar, ele cava um sulco no meio da trilha. Após alguns meses, ele se torna tão profundo que vira um o conduto natural do escoamento da chuva, impossibilitando os canais de drenagem a retirarem o excesso da água do leito da trilha.

A repetição do processo a cada nova chuvarada acelera a erosão e, mais cedo ou mais tarde, provoca o completo desfiguramento do caminho. Para agravar o problema, diferentemente do ecologicamente correto Gustavo Janer, muitos dos praticantes do esporte não estão atrás de simplesmente pedalar no mato. Seu prazer advém da adrenalina dos “down hills”. Pouco lhes é estimulante o traçado plano ou de descida em zigue-zague da maioria das trilhas, pois sendo tecnicamente fácil não proporciona grande dose de adrenalina. Para resolver o “inconveniente”, muitos trilheiros começaram então a abrir atalhos mais radicais cortando o zigue-zague ao meio, com evidentes impactos sobre a vegetação e o solo.

Devido à gravidade aparente dos impactos ambientais, pedi à UFRJ que fizesse um laudo sobre o estado da trilha da Vista Chinesa. Os resultados foram assustadores. Após algumas semanas de pesquisa, a equipe do Laboratório de Geo-Hidroecologia da universidade concluiu que a erosão provocada pela prática do “mountain bike”, aliada à falta de manutenção estava ocasionando a perda do equivalente a um caminhão de terra a cada duas semanas, com conseqüente problemas de drenagem e degradação do solo.

Como praticante do esporte e consciente da missão do parque em oferecer opções de lazer a todos os segmentos da população — desde que compatíveis com a preservação ambiental — antes de proibir o ciclismo nas trilhas, empreendi uma viagem de um mês aos Estados Unidos com o objetivo único de estudar o assunto. Visitei as trilhas de “mountain bike” da Pisgah National Forest, de Lake Tahoe e de Boulder, no Colorado. Conversei com os responsáveis pelo programa “Rails for Trails”, com a Associação de “Mountain Bikers” dos Estados Unidos e com dirigentes do Serviço de Parques Nacionais norte-americano. Todos foram unânimes em concordar com o fato de que a prática do esporte é altamente impactante, o que faz com que a vasta maioria dos parques nacionais americanos a proíbam. Contudo, em alguns lugares (marcadamente Lake Tahoe) a militância dos ciclistas possibilitou uma solução de compromisso: a cada fim de semana, dezenas deles equipam-se de enxadas, pás e carrinhos de mão e doam ao parque sua mão-de-obra, consertando os estragos que eles mesmos fizeram nas trilhas.

A iniciativa em Lake Tahoe já se espalhou por diversos outros lugares, gerando batalhões de voluntários especializados na manutenção de trilhas especialmente dedicadas ao uso das bicicletas de todo terreno. Numa reunião com a associação de “Mountain Bikers”, tive acesso a mais de mil páginas de especificações técnicas referentes à construção e manutenção de trilhas para a prática de ciclismo.

Ao voltar ao Brasil estive reunido com o então presidente da Associação de Mountain Bikers da Floresta da Tijuca e, posteriormente, com donos de lojas dedicadas ao esporte. Após diversos encontros concordou-se que, se dentro de dois meses os ciclistas aportassem ao parque uma equipe para manutenção de trilhas que mitigasse o impacto causado pelas bicicletas, a prática não seria proibida. Essa equipe poderia ser composta por voluntários, como por operários contratados pelos usuários e colocados à disposição do parque para esse fim. Nesse meio tempo, os ciclistas comprometeram-se a somente pedalar nas trilhas planas abstendo-se de fazer os “down hills”.

Infelizmente, os “bikers” da Floresta da Tijuca não tiveram capacidade associativa suficiente para cumprir o acordo. Não providenciaram a equipe de manutenção e, pior, continuaram a descer os “down hills”, obrigando o parque a vedar a entrada de bicicletas nas trilhas — recorde-se que a missão primeira de um parque nacional é preservar o meio ambiente.

Estados Unidos, Nova Zelandia, Canadá e Austrália — onde experiências iniciais estão sendo realizadas no Parque Nacional Royal — permitem o uso de “mountain bikes” em algumas de suas unidades de conservação em comum acordo com os usuários somente quando são capazes de evitar a erosão excessivamente impactante do solo.

No Rio de Janeiro também há soluções, mas para que elas sejam implementáveis é necessário maior engajamento dos próprios “mountain bikers”.

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