Paulo Barreto
Sonha com um mundo sustentável e trabalha para que este desejo se torne realidade na Amazônia. É pesquisador Sênior do Imazon e mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale (EUA).

Uma chance para os ex-financiadores de campanha provarem seu amor pelo Brasil

Paulo Barreto
quarta-feira, 12 outubro 2016 15:28
Dossel_Amazonia
Dossel formado por árvores amazônicas. Foto: Torrenegra/Flickr

Empresas investiram quase R$ 5bilhões na campanha eleitoral de 2014. Quando perguntados porque fizeram isso, os empresários geralmente dão resposta padrão: fortalecer a democracia, participar do processo. Ou seja, se eles foram sinceros, trata-se de uma verdadeira prova de amor pelo Brasil. Mas a maioria da população duvida disso e considera que eles estavam comprando favores dos políticos.

Agora que o financiamento empresarial de campanha está proibido, as empresas têm a chance de provar que investiam desinteressadamente nas eleições. Uma prova seria investir os R$ 5 bilhões em outros benefícios coletivos que não poderão mais ser gastos, a cada quatro anos, em campanhas eleitorais, o que se equivale a R$ 1,25 bilhão por ano. Por exemplo, as empresas poderiam provar o amor ao Brasil doando recursos para o plantio de árvores.

Justifico. O Brasil desmatou demais e em lugares errados e proibidos e está sofrendo por causa disso. O desmatamento no entorno dos rios agrava o efeito das estiagens e faz rios secarem, prejudicando o abastecimento para consumo humano, o uso para agricultura e a geração de energia por meio de hidrelétricas.

Por outro lado, na época das chuvas muitos rios transbordam e alagam cidades. Isso ocorre porque sem a proteção da floresta parte do solo é levado para o leito do rio, deixando-o mais raso. E a água da chuva corre mais rapidamente para os rios quando o solo está nu. Com as árvores, a água escorreria mais lentamente e uma parte se infiltraria no solo em vez de escorrer pela superfície.

Nos morros das cidades, a falta de floresta leva a deslizamentos de terras que matam e desalojam pessoas; geralmente as mais pobres que moram em lugares proibidos ou inadequados.

Em suma, a população do campo e das cidades se beneficiaria com o reflorestamento.

Estímulo

” Considerando R$ 1,25 bilhão por ano, seria possível custear um terço do custo total anual estimado para o Brasil atingir a meta de reflorestar 12 milhões de hectares até 2030″

Infelizmente, o plantio espontâneo ou obrigatório de árvores tem ficado muito aquém do que o necessário e pode continuar assim se depender dos políticos financiados pelos empresários no passado recente.

Parte do reflorestamento que deveria ocorrer em áreas desmatadas ilegalmente deixou de ser obrigatório, pois os políticos anistiaram parte destes crimes ao mudarem o Código Florestal em 2012. Além disso, o prazo para o início do reflorestamento de áreas desmatadas ilegalmente tem sido adiado pelos mesmos políticos – em específico, eles têm adiado o prazo para o Cadastro Ambiental Rural, que é o primeiro passo para a regularização ambiental. Acresça-se, nem o Congresso e nem o Executivo destinaram recursos do orçamento para apoiar os pequenos proprietários a reflorestarem suas áreas, conforme autoriza o Código Florestal.

Quanto seria possível plantar com o recurso que deixará de ser investido pelas empresas em financiamento de campanhas eleitorais? Considerando R$ 1,25 bilhão por ano, seria possível custear um terço do custo total anual estimado para o Brasil atingir a meta de reflorestar 12 milhões de hectares até 2030*. Mesmo supondo que as empresas só estivessem dispostas a investir metade do que investiram na última eleição (equivalente a R$ 625 milhões por ano), ainda seria um volume expressivo e suficiente para consolidar uma indústria do reflorestamento de espécies nativas que será necessária para o reflorestamento em larga escala no país. Essa indústria envolve desde a coleta de sementes, preparação de mudas, plantio e manutenção das áreas plantadas.

Investir em reflorestamento também beneficiaria diretamente os setores de algumas das empresas que financiaram eleições. Por exemplo, a JBS, a maior empresa de processamento de carne do mundo foi a maior financiadora de campanha em 2014 (R$ 350 milhões). Este valor anualizado seria suficiente para reflorestar quase 20 mil hectares por ano nas fazendas que são suas fornecedoras.

Finalmente, o financiamento do plantio de árvores resultaria em um ganho de reputação para as empresas muito maior do que financiar políticos.

Quais empresas estão dispostas a provar o seu amor pelo Brasil?

 

* Essa meta foi estabelecida pelo Brasil como parte do plano de reduzir as emissões de gases que causam o aquecimento global. O Instituto Escolhas estimou que seriam necessários R$ 3,7 bilhões por ano para custear o reflorestamento de 12 milhões de hectares até 2030.

 

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4 comentários em “Uma chance para os ex-financiadores de campanha provarem seu amor pelo Brasil”

  1. Desculpem, mas investir em reflorestamento é o uso mais ineficiente de recursos possível num pais que ainda está desmatando adoidado.

    Pensem bem no que daria para fazer com R$ 1,25 bilhōes por ano! Por ano! Regularizar fundiariamente as UCs. Acabar com o desmatamento ilegal (e assim salvar centenas de vezes mais árvores já crescidas). Despoluir o Tiete, o Doce, a Guanabara (se o PMDB carioca não roubar tudo)…

    Existe uma verdadeira máfia do reflorestamento neste pais, movida a cobiça por créditos de carbono e outras "compensaçōes" inócuas, e apoiada por muita gente bem intencionada e mal informada. A avassaladora maioria dos projetos de reflorestamento no Brasil nos últimos 20 anos fracassou. Muito melhor investir em prevenção.

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  2. Concordo com George, com este recurso poderia-se investir nas UC – aportando recursos inclusive em APAs na construção de corredores de biodiversidade e não somente na tese de reflorestamento per se. Regularização fundiária,dotar as UC de instrumentos, implementação e quiçás um bom programa de inserção da comunidade com contratação de locais para varias funções.

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  3. Penso que uma ação não exclui a outra. Quando se fala em reflorestamento defendo que tem sim que acontecer, inclusive que seja financiado pelo governo e/ou por empresas a título não reembolsável, mesmo porque no passado o próprio Estado incentivou o desmatamento e dissecação dos alagados. Do mesmo lado defendo que a proteção e prevenção são essenciais pois garantem aquela biodiversidade local que talvez jamais seja recuperada. Deve sim, fortalecer as instituições com com recursos humanos, instrumentos legais e equipamentos para que fato aconteça tanto a prevenção quanto a recuperação.

    Excluir não apenas, mas banir, a mafia, a corrupção que assola todos os setores inclusive aqueles voltados para o meio ambiente.

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  4. Entendo que o processo tem de ser por etapas. 1º – Tem que proteger as áreas de APP e a total recuperação de nascentes. 2º – Logo em seguida, vem a recuperação da Reserva Legal. 3º A criação dos Corredores Ecológicos. Assim, como acontece em Extrema/MG, entendo que os Pequenos e Médios Produtores, recebam dinheiro para manter as pequenas Reservas em sua propriedades. Já que se tornaram também Produtores de água, nada mais justo do que pagar por estes serviços ambientais.

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