Paulo Barreto
Sonha com um mundo sustentável e trabalha para que este desejo se torne realidade na Amazônia. É pesquisador Sênior do Imazon e mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale (EUA).

O fim da narrativa do herói desmatador

Paulo Barreto
domingo, 6 maio 2018 22:12
Madeira extraída ilegalmente da Terra Indígena Pirititi, em Roraima. Foto: Ibama.

“Não entendo essa crítica ao desmatamento. O desmatamento é que permite aumentar a produção. Todo mundo desmatava, produzia e progredia. Agora estão criticando o desmatamento. Como vai progredir sem desmatar?” Não ouvi esse lamento de um ruralista manipulador. O lamento e pergunta veio de uma tia sexagenária que me visitava e viu pela televisão uma reportagem sobre desmatamento. Ela sabe que estudo o desmatamento na Amazônia e advogo que é preciso parar de desmatar. Minha tia, como o resto da minha família, é de origem rural, embora uma boa parte tenha migrado para cidades há várias décadas. Antes de dizer o que respondi a ela, um resumo da saga familiar.

Meus parentes cresceram produzindo cacau, fumo, farinha, gado, inhame e outros produtos no interior baiano. Entre as décadas de 1960-70 muitos deles migraram para São Paulo. Mas em 1968 (um mês depois que nasci na Bahia) meus pais, avós maternos e muitos tios resolveram buscar novas terras na Amazônia, seguindo a Belém-Brasília até a divisa do Pará com o Maranhão. Outros parentes seguiram depois pela Transamazônica.

O sonho era conseguir terras para pecuária. Para obter o título da terra, teriam que desmatar pelo menos 50% da área. Porém, pouco depois de se embrenhar na mata, meu pai teve malária. Enquanto se tratava na vila do Itinga no Maranhão, conseguiu um emprego que depois o levou a outro em Castanhal, no Pará, cerca de 400 km ao norte. Mesmo morando em Castanhal, meus pais continuaram tentando investir na pecuária do Maranhão. Enquanto crescia e estudava em Castanhal, visitava meus avós que continuaram no Maranhão.

“A degradação que vi e depois como estudante e profissional de engenharia florestal ocorreu em vastas áreas da Amazônia e foi vista pelo mundo por meio dos olhos dos satélites. Cerca de 20% da floresta foi derrubada e uma área equivalente são florestas degradadas.”

Ao longo de 17 anos, vi como a paisagem mudou ao longo de 400 km entre Castanhal e o Itinga e nos 20 km entre o Itinga e a fazenda dos meus avós. No início, muito pequeno, eu viajava esse último trecho por uma trilha na floresta na garupa de muares. Os cantos de pássaros e cigarras me impressionavam. A penumbra da floresta e o vulto de animais que apareciam de repente evocavam mistério. À medida que crescia e voltava à fazenda nas férias, eu acompanhava meu avô na lida com o gado: prender os bezerros no curral no final da tarde, tirar leite das vacas na madrugada seguinte, curar feridas no umbigo ou chifre de um boi, buscar um novilho que ficou pra trás.

Houve algum progresso na região como minha tia esperaria. Mas, ao longo dos anos, não pude deixar de perceber os problemas da expansão dos pastos que ocuparam a maior parte das áreas no entorno das estradas: erosão e assoreamento de rios com suas margens desmatadas, enormes pastos com baixa produção e florestas degradadas por causa da extração de madeira e fogo. O fracasso econômico não era raro. Meu pai desistiu da fazenda alguns anos depois. Meu avô continuou até os pastos ficarem degradados, e sofreu com a perda de gado depois de alguns anos muitos secos (na época eu não sabia o que era o fenômeno El Niño que leva à redução de chuvas na Amazônia).

A degradação que vi e depois como estudante e profissional de engenharia florestal ocorreu em vastas áreas da Amazônia e foi vista pelo mundo por meio dos olhos dos satélites. Cerca de 20% da floresta foi derrubada e uma área equivalente são florestas degradadas. Nos últimos trinta anos, muitas mudanças levaram à contestação do desmatamento. Quem desmata não é mais visto como herói por um número significativo de pessoas.

“Desmatar ainda gera ganhos e é validado por crenças equivocadas, como a da minha tia, de que cortar árvores significa progresso.”

Primeiro, porque boa parte do desmatamento recente é ilegal. Segundo, é desnecessário desmatar para produzir. Já existe uma enorme área desmatada onde seria possível aumentar a produção. Em 2014, segundo dados do governo brasileiro (Inpe e Embrapa), havia cerca de 10 milhões de hectares de pastos degradados na Amazônia (quase um quarto da área desmatada) e mais de 50 milhões de hectares no Brasil – isso equivale a quase o território de Minas Gerais ou o território da Espanha.

Terceiro, o desmatamento, seguido da queimada para limpar o solo, adoece e mata. A queima da vegetação é a principal fonte de poluição do país. Isso mesmo, queimar florestas no Brasil polui mais do que os automóveis e a indústria. Essa poluição afeta pessoas na região, no restante do país e no continente Sul Americano. Os poluentes seguem pela atmosfera e atingem grandes cidades como São Paulo. Reduzir o desmatamento salva vidas. Dados de 2001 a 2012 revelam que a queda do desmatamento reduziu cerca de 1.700 mortes prematuras por doenças respiratórias por ano. Além disso, a redução do desmatamento diminuiu o número de crianças que nasceram prematuramente e abaixo do peso em municípios da região.

Se o desmatamento é tão ruim, por que ainda não parou?

Desmatar ainda gera ganhos e é validado por crenças equivocadas, como a da minha tia, de que cortar árvores significa progresso. Por exemplo, mesmo sendo ilegal, grileiros de terras públicas desmatam para demonstrar que ocuparam a área e depois cobrar por seu aluguel ou venda. Outros se aproveitam da impunidade e desmatam ilegalmente para aumentar seus ganhos agropecuários. Há ainda fazendeiros que desmatam para aumentar a produção em novas áreas ou por não saberem ou por não terem dinheiro para investir no aumento de produção na área desmatada. Portanto, o desmatamento que gera efeitos negativos não acabará espontaneamente.

“Para zerar o desmatamento será necessário punir quem desmata ilegalmente e apoiar quem precisa aprender a produzir mais nas terras já desmatadas. Essas mudanças serão mais fáceis quanto mais pessoas abandonarem a crença antiquada de que quem desmata é um herói gerador de progresso.”

Para zerar o desmatamento será necessário punir quem desmata ilegalmente e apoiar quem precisa aprender a produzir mais nas terras já desmatadas. Essas mudanças serão mais fáceis quanto mais pessoas abandonarem a crença antiquada de que quem desmata é um herói gerador de progresso. Quem quer continuar a ganhar com o desmatamento, mesmo sabendo que é ilegal e prejudicial, tem tentado reforçar a narrativa do desmatador herói. Recentemente, fizeram isso com sucesso para ganhar legitimidade e fazer o Congresso aprovar leis que facilitaram mais ocupação de terras públicas e perdoaram parte do desmatamento ilegal.

Para contrapor essa narrativa, é preciso lembrar fatos. Zerar o desmatamento da Amazônia reduziria apenas 0,013% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Essa perda seria facilmente compensada aumentando a cada ano a produtividade da pecuária em cerca de 390 mil hectares– ou seja, em menos de 1% do pasto existente em 2016. A pressão que ajudou a reduzir cerca de 80% da taxa do desmatamento entre 2005 e 2012 estimulou fazendeiros e agricultores a usarem melhor as áreas já desmatadas. Isso demonstra que os agricultores que usam bem as terras já desmatadas podem fazer melhor pelo Brasil do que os desmatadores.

 

 

Leia Também 

Como reverter o novo surto de desmatamento na Amazônia

Como manter floresta em pé salva vidas

Vídeo: Por que diminuir o desmatamento na Amazônia, por Paulo Barreto

 

6 comentários em “O fim da narrativa do herói desmatador”

  1. Excelente matéria, Paulo, obrigada. Como temos que mudar o antigo modo de pensar e de agir! Você presenciou tudo isso pessoalmente. Ficou um relato super interessante.
    Os tempos são outros, mas muita gente bem mais joven que sua tia ainda acredita que desmatar é heroico apesar de todo o estrago que sobra, conforme vc descreveu. Terra seca e improdutiva, rios secos, assoreados… É impressionante o estrago que o ser humano foi capaz de fazer no mundo inteiro nos últimos 50 anos apenas. E estamos na "véspera" de pisar em Marte…

    Responder
  2. Parabéns, de verdade. Você fez uma extraordinariamente boa e ilustradora síntese da visão sobre a Amazônia e o desmatamento que ainda predomina na sociedade, tanto os ricos como os pobres, no Brasil como em toda a região. E sua conclusão é correta. Lamentavelmente, para cambiar essa atitude não tão só é necessário que o governo termine de eliminar leis e disposições que ainda estimulam o desmatamento, ou que bons programas educativos como o Globo Rural proliferem. É indispensável sancionar mais severamente aos que violam a lei, ricos e pobres… sem exceção. Como manda a lei. E a autoridade deve brindar muito mais assistencia tecnica, de qualidade.

    Responder
  3. Esta mentalidade deve mudar quando os brasileiros enfrentarem diretamente as conseqüências negativas deste "progresso", como a desertificação do nordeste e a escassez de água no sudeste. Só que aí perceberão que não contam com os recursos financeiros necessários para reverter o colapso. Aliás, o livro "Colapso", do Jared Diamond, descreve várias sociedades que, no passado, foram extintas porque não souberam adequar-se à capacidade de sustentação de seu meio.

    Responder
  4. Ótimo artigo Paulo! Como alguém que acompanha seu trabalho no Imazon fiquei muito surpreso e me identifiquei ainda mais por saber que veio da Bahia para a amazônia em Itinga, além do texto trazer um tom nostálgico pra mim. Meu pai e sua família também vieram da Bahia (Região de Itamaraju) e chegaram em Itinga com o mesmo propósito. Nasci em Itinga do Maranhão e tive muitas destas experiencias na nossa já quase extinta amazônia maranhense, como atravessar quilômetros de floresta fechada a cavalo levando gado. Essa realidade também me influenciou a escolher a carreira de engenheiro florestal. Também acompanhei a evolução do desmatamento da região com suas muitas madeireiras e crescimento da pecuária. O que vemos hoje é uma estagnação econômica no município devido ao fim da floresta, declínio das madeireiras e a falta de investimento nas terras já desmatadas, ou seja o tão prometido progresso não veio com o desmatamento. Não existe assistência aos assentados da região e algum poucos grandes produtores hoje migram da pecuária que degradou o solo para o plantio de floretas de eucalipto e plantio de grãos, mas essas mudanças pouco tem influencia na qualidade de vida da população local.

    Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.