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((o))eco faz 15 anos pronto para mais 15

A única ferramenta de evitar ou ao menos frear o risco absolutista é a educação e a informação. Daí, a renovada importância do ((o))eco

25 de agosto de 2019 · 5 anos atrás
  • Marc Dourojeanni

    Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interam...

Arte: Julia Lima.

((o))eco chegou aos 15 anos de idade, iniciados em agosto de 2004. Não é muito para uma moça e menos ainda para uma revista online dedicada ao jornalismo ambiental. Também não é pouco. Como acontece com as moças e moços de nosso tempo, nessa idade ((o))eco já acumulou experiência e viveu coisas boas e outras nem tanto. Mas, ao completar uma década e meia, diferente de tantos jovens de hoje, ((o))eco pode se sentir satisfeito pelas suas conquistas e por não decepcionar seus visionários fundadores. Fez muito e, sem dúvida, contribuiu para informar a sociedade e para educá-la na crítica e no debate dos grandes problemas ambientais brasileiros e mundiais.

É boa ocasião para lembrar o começo, pois neste mundo de mudanças tão drásticas quanto rápidas, somos propensos a esquecer, em particular aqueles a quem mais devemos. A ideia de um jornal virtual dedicado à Natureza surgiu na mente de Miguel Milano, engenheiro florestal, um grande profissional brasileiro que sempre buscou levar à imprensa a problemática da conservação ambiental. No caminho, conheceu um dos maiores jornalistas deste país, Marcos Sá Corrêa, historiador dotado de grande espírito crítico e de uma capacidade fora de série para expressar suas ideias. Marcos e Miguel se uniram para criar ((o))eco e, para isso, convocaram mais jornalistas famosos, Kiko Brito e Sérgio Abranches, e também ambientalistas destacados, como Maria Tereza Jorge Pádua e Fernando Fernandez. Criaram a ONG Associação O Eco, procuraram apoios e, nos primeiros anos, desfrutaram da generosidade de Abranches, em cuja casa ((o))eco deu os seus primeiros passos.

Foi difícil. Bem mais do que seus criadores imaginaram. Como busca independência e não lucros, ((o))eco agrada totalmente a ninguém. Pensou-se que os empresários ajudariam. Eles foram generosos nos conselhos e com o cafezinho… Assim, Milano teve que sair por aí buscando dinheiro. E achou. Mas não foi no Brasil e sim na Suíça, onde o empresário Stephan Schmidheiny havia criado a Fundação Avina.  Tal apoio foi seminal. A partir de então, ((o))eco recebeu outros apoios, em geral discretos, exceto um que foi tão ou mais generoso que o da Avina, advindo do Grupo Boticário. Schmidheiny e Miguel Krigsner, este do Boticário, demostraram o porquê são tão admirados e respeitados no mundo. Para eles, dinheiro é para cumprir metas superiores.  Hoje, ((o))eco também desfruta de apoio importante da Fundação Gordon e Betty Moore e da Norwegian Agency for Development Cooperation (Norad), e da honrosa parceira com a ONG de pesquisa Imazon, uma das mais sérias organizações da Amazônia.

“Foi difícil. Bem mais do que seus criadores imaginaram.”

Nos primeiros anos do ((o))eco foi mister coletar e difundir material de boa qualidade técnica, ponderado, pluralista e atraente. Parece fácil, mas não é. Gostamos em geral de falar, mas nem tanto de escrever. E os melhores, os que têm muito a dizer, sempre andam ocupados embora, com frequência, foram os que mais e melhor responderam as demandas do jornal. Assim, os jornalistas e ambientalistas do ((o))eco amealharam um grupo de bons e fiéis divulgadores da problemática ambiental brasileira, uns como jornalistas e redatores e, outros, como colunistas. E assim foi. ((o))ecos publica uma variedade de opiniões, mesmo que sejam incômodas. Porém, sempre apresentadas com seriedade, honestidade e a inequívoca finalidade de que a natureza brasileira seja bem cuidada.

E o tempo passou. Por razões diferentes, Marcos Sá Corrêa e demais fundadores tiveram que dividir seu tempo entre outras empreitadas. Fazia-se necessário encontrar alguém que pudesse levar o bastão adiante, enfrentando a tremenda responsabilidade editorial e administrativa. Assim, apareceram dois personagens memoráveis que assumiram a função, um deles até a atualidade. Falo, obviamente, de Eduardo Pegurier, que durante um bom tempo foi ajudado por Gustavo Faleiros. Hoje, Pegurier tem como companheira outra grande jornalista, Daniele Bragança, que como outros, foi cria do ((o))eco.  Na parte de design do site e administração, desde o início, ((o))eco conta com a competência de Paulo André Vieira e Nádia Santos. Hoje, são tantos os colaboradores que vamos esperar outro aniversário para falar deles.

Ao longo desses 15 anos e intensos anos, ((o))eco publicou no total 28 mil reportagens, notícias, colunas, ensaios fotográficos e vídeos. Em 2017, ingressou com força no audiovisual ao produzir o documentário “Sob a pata do boi”, exibido por festivais de filmes ambientais pelo mundo e ganhador de dois prêmios, um na França e outro no Brasil. ((o))eco também gerou filhos, como o site Wikiparques, dedicado a unidades de conservação, e ((o))eco Amazônia, que mais tarde deu origem ao InfoAmazônia.

Não, ((o))eco não perdeu tempo nem oportunidade para trabalhar em benefício do país e da sua natureza.

Reportar a mudança no uso do solo e seus impactos faz parte de uma das missões de ((o))eco. Acima, fazenda em Vista Alegre do Cupim, no Pará. Foto: Marcio Isensee e Sá.

O mundo e o Brasil mudaram terrivelmente nesses 15 anos de amadurecimento do ((o))eco. A evidência da degradação ambiental, em especial da mudança climática, já não deixa lugar a dúvidas sobre o que espera a humanidade, com ilhas já sob a água e ameaças de inundação de longas costas marítimas urbanizadas. A destruição da Amazônia foi anunciada para acontecer a médio prazo, mas ainda não se conhecia bem a realidade dos “rios voadores”, sua relação com o fato demonstrado de que já se perdeu 20% das matas originais dessa região e que mais da metade do resto está degradada. Típico do Brasil, o bioma Cerrado assim como a mata atlântica está no seu último grau possível de degradação. O nível da contaminação ambiental tem assumido características dramáticas, com milhões de hectares de oceanos cobertos de plástico, destruição de recifes de coral e aniquilação das abelhas; e assim mesmo, grande parte da alimentação humana e animal está comprometida por químicos indesejáveis. E o que falar da perda galopante e irremediável da biodiversidade, que afeta de insetos a elefantes e não poupa nem as espécies comerciais, como se vê no esgotamento universal da pesca e da madeira tropical

O aumento da densidade da população humana e a influência dos que tiram proveito disso converte mulheres e homens em seres insensíveis a tudo o que não seja sua satisfação pessoal imediata. Para piorar, essa é uma época da história onde não faltam líderes que se convertem nos grandes demônios cíclicos da humanidade. Exploram as democracias fracas e as transformam em campos férteis para propagar o ódio e a discriminação. Alguns dos países mais influentes do mundo já foram envolvidos por esse tipo de liderança, que explora o medo e ignorância dos seus povos. No Brasil, as atitudes destemperadas de vários dos líderes do novo governo fazem pensar que o país pode se somar a esse grupo.

A única ferramenta de evitar ou ao menos frear o risco absolutista é a educação e a informação. Daí, a renovada importância do ((o))eco. Como esperavam seus fundadores, ele se converteu num veículo de informação especializada e importante. Forma não apenas os jovens e oferece informação ousada e atualizada, mas, em especial, estimula o diálogo, o debate e o questionamento. Demanda que seja mantida a cortesia e a verdade, reconhecendo que ela tem múltiplas perspectivas. Nada educa mais do que uma boa discussão.

Neste aniversário vale a ênfase nas intenções dos fundadores encarnadas nas seguintes frases de Marcos Sá Corrêa: Nossa razão de ser é a conservação da natureza; Queremos dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los. Eles apenas aplicaram o fato incontestável de que sem os demais seres vivos o ser humano não existiria.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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Comentários 4

  1. Maria Tereza diz:

  2. João diz:

    Parabéns O Eco!! Que venham mais muitos anos de vida.


  3. Neco diz:

    "Risco absolutista" Que preguiça…


  4. Fabio diz:

    Parabéns ao O Eco e toda a equipe!