Maria Tereza Jorge Pádua
Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN.

A morte de Lobinha na Serra da Canastra não pode ter sido em vão

Maria Tereza Jorge Pádua
terça-feira, 23 janeiro 2018 23:33
Foto: Rogério Cunha de Paula.

As coincidências da vida nos surpreendem e algumas vezes nos fazem sofrer. Fomos fazer um passeio que é sempre nosso predileto: visitar um parque nacional. O escolhido desta vez foi o da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Éramos três engenheiros florestais e dois agrônomos.

Ficamos por lá apreciando e desfrutando das maravilhas do Cerrado. A visita foi um pouco frustrante, pois não vimos o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).

Desta visita surgiram duas colunas publicadas aqui no ((o))eco. Ambas advertiam sobre os impactos do uso indiscriminado das poderosas motocicletas dentro ou nos arredores do parque nacional. Alguns dias após a publicação das mesmas, surgia a notícia sobre o mesmo parque nacional e seus entorno com o título: A despedida de Lobinha, de autoria de Vandré Fonseca, com uma foto bem bonita da loba, morta no dia 14 de janeiro. E adivinha como? atropelada por uma motocicleta. Me deu uma indignação no momento.

Rastros deixados por motoqueiros que não respeitam a beleza do lugar. Foto: Marc Dourojeanni.

A Lobinha fora reintroduzida na Serra da Canastra após muitas pesquisas e com o colar que daria informações sobre seus hábitos e comportamento. Detalhe: ela havia sido libertada em 2 de dezembro. Não completou seis semanas em liberdade.

Falar que pena, que tristeza, que azar, não interessa. Não vai trazer de volta a esperança dos pesquisadores e dos amantes do parque nacional em ter mais lobos que vem desaparecendo em todo Cerrado e muitas vezes, eu diria a maioria das vezes, por atropelamento.

Pensamos até no pior quando a notícia chegou: que foi proposital. Após a biopsia, tudo indica que se trata de um acidente, ocorrido às 04h30 da manhã.

Quanto se gastou de dinheiro e, principalmente, do esforço dos cientistas para realizar a façanha de reintroduzir lobos-guarás? quanto se torturou as emoções dos que faziam a pesquisa e agora a perderam por uma moto?

Quanto chorou a filhinha de Rogério Cunha de Paula, responsável pela pesquisa, a mesma criança que narrou dois vídeos sobre o projeto? Recomendo fortemente que os vejam. São maravilhosos.

A mensagem que passa sobre a importância do lobo para salvar o Cerrado é única. Um animal silvestre pode motivar governantes a salvar pedaços do Cerrado? Difícil. Mas a campanha conseguiu melhor ainda, que crianças entendam que cuidar do lobo é bom para a humanidade.

Frequentadores de parques nacionais, tanto aqui como em outros países, odeiam em geral as regras restritas de visitação. Por exemplo, meu marido e eu nos rebelamos com os “guias” . Muitas vezes queremos visitar áreas protegidas sem precisar contratar um, mas as regras são para todos.

Para contribuir para a conservação da natureza é melhor deixar o comodismo de lado ou as motocicletas, no caso do exemplo aqui citado. As regras baseadas em pesquisas científicas de manejo têm de ser obedecidas.

Todo mundo pode andar de moto nas estradas, pode se banhar em algumas cachoeiras, pode fazer trilhas, ou birdwatching dentro ou nos arredores do parque nacional que protege, além do lobo-guará, as nascentes do rio São Francisco. Façam proveito onde é permitido pelo plano de manejo, mas respeitem as regras onde diz que não pode.

Tomara que a morte da Lobinha não tenha sido em vão. Que alguns se comovam e ajudem Rogério, sua filha, o diretor do parque e todos nós a serem OBSTINADOS NA SALVAÇÃO DO CERRADO.

 

Leia Também

Quero ser defensora pública dos bichos

As espetaculares e mal cuidadas paisagens da Serra da Canastra

A despedida da Lobinha

 

 

 

10 comentários em “A morte de Lobinha na Serra da Canastra não pode ter sido em vão”

  1. A imagem da fotografia retirada pelo Marc Dourojeanni mostra, inclusive, efeitos erosivos causados pelo motociclismo na área. É um absurdo não haver um zoneamento que restrinja esse tipo de prática próximo do Parque e em seu entorno.

    Responder
  2. Tenho moto e amo natureza, todo cuidado é pouco, tentemos praticar nossos esportes sem ferir a natureza que já bem danificada está, cada cosa em seu lugar.

    Responder
  3. Sou motocicleta…. estou programando visitar a serra da canastra agora em fevereiro.. inclusive adentrar e percorrer alguns trechos de moto….mas já estou pensando… será que devo!!!!
    Parabéns às pessoas que tomam a iniciativa pesquisas para salvar os animais.

    Responder
  4. A foto mostra rastros deixadas por motos de trilha, o ocorrido não foi em uma trilha, foi em uma estrada rural. As 4:30hs não há trilheiros rodando e muito menos no local do atropelamento.
    É muito provável que tenha sido atropelada por alguém que mora na zona rural do que alguém que faça trilha.

    Responder
    • Foi exatamente o que pensei Sidney, logo quando foi se mostrado a hora do incidente, realmente é uma pena o ocorrido, nós que gostamos do off road, também gostamos de natureza ao contrário do que muitos pensam! Sou motocilista, sou defensor da fauna e flora! Agora obviamente existem os maus exemplos e também pode até ser exatamente o que vc disse alguém nada ver relacionado causou tal incidente, mas é fácil pra alguns encontrar culpados generalizando, forte abraço e vamos cuidar da natureza sim, pois sem ela não existe off road. Sdd American Roia

      Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.