Reserva Nor Yauyos, um espetáculo desconhecido e em perigo
Maria Tereza Jorge Pádua
Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN.

Reserva Nor Yauyos, um espetáculo desconhecido e em perigo

Maria Tereza Jorge Pádua
segunda-feira, 9 dezembro 2013 21:38

Se há um país que posso dizer que conheço bem, é o Peru, pois adoro seus inúmeros biomas, cordilheiras, suas fauna e flora nativas, desertos e selvas, e toda sua imensa riqueza cultural, além da magnífica comida. Ou melhor, achava que conhecia, como ficou demonstrado quando vi o que nunca havia visto em nosso planeta, mesmo sofrendo com tonturas a 4.800 metros de altitude. E pertinho de Lima, a la vueltita no más, como dizem os peruanos.

O lugar a que me refiro é uma das nascentes do rio Cañete, que corre sobre um derrame calcário em grande extensão, com cascatas, piscinas naturais e lagos inacreditavelmente translúcidos, rodeados de montanhas quase verticais das quais se penduram inacreditáveis terraços pré-hispânicos.

Trata-se da Reserva Paisagística Nor Yauyos, situada na bacia alta e média do rio Cañete e na bacia do Cocha Pachacayo. Estabelecida em maio de 2001, a área tem cerca de 221 mil hectares, situados em altitudes que variam de 2.500 e 5.700 metros.

Falta apoio local. Embora a Reserva Nor Yauyos esteja rodeada de cidades repletas de infraestrutura turística como Lunahana, na parte baixa, ou Huancayo, na parte alta. Os povoados como Vitis, Laraos, Alis e Huancaya não oferecem infraestrutura adequada, ou sequer comida razoável. É uma viagem mais para aventuras ou trabalho. Porém, vale a pena!

É relativamente perto de Lima, mas o acesso é tão difícil que leva umas oito horas para ver este espetáculo pouco conhecido até por peruanos. As estradas, embora asfaltadas, são estreitas e em região de grandes precipícios, vales e furnas apertados.

A viagem pode ser feita, como no nosso caso, utilizando a densamente transitada Rodovia Central (que atinge 4.830 metros de altura) até La Oroya e Huancayo e, a partir daí, subindo outra vez a cordilheira, passando por extensas punas e logo descendo ao lado de nevados e pequenas lagoas até os estreitos vales dos afluentes formadores do rio Cañete. Neste setor, tem-se a contínua impressão de que a rodovia termina em uma parede, mas, sempre há uma passagem apenas para a torrente e a estradinha. Passa-se por cidadezinhas, bonitas e bem cuidadas, incrustradas entre paredes verticais, ou se chega a outras em locais mais abertos onde existem milhares de hectares de terraços (andenes) construídos pela milenar cultura Yauyos, famosa por ter resistido bravamente às tropas incaicas. A rota pode ser feita também a partir da Estrada Pan-americana, subindo a partir de Cañete e Lunahuaná. Em ambos os casos a visita pede mais de um dia. Assim é mister apetrechos e provisões, pois, como dito, as facilidades atuais na própria reserva são exíguas.

São muitos os destaques, que incluem cavernas e cachoeiras, ou sítios arqueológicos e pinturas rupestres. Mas, o ponto mais espetacular do percurso é o vale do Huancaya, onde está a cidadezinha do mesmo nome. Este lugar é, em certa medida, uma réplica andina do famoso sítio mundial e Parque Natural de Pamukkale, na Turquia. O substrato calcário não somente gera uma água límpida e de cores extraordinárias, mas forma uma sequência de prateleiras ou terraços sobre os quais a água corre. Lagoas multicores complementam o cenário que pode ser recorrido por uma trilha ou desde o ponto alto da estrada por alguns quilômetros. Uma ponte colonial complementa o conjunto.

De outra parte, a Reserva Nor Yauyos pode ajudar a vencer um dos grandes desafios atuais para a conservação da “puna“, antes de sua completa destruição. A atividade econômica mais comum das comunidades locais é a pecuária bovina e ovina, que, por falta de manejo, compacta os solos e destrói a sua vegetação. Nas partes mais baixas, o gado vacuno destrói os magníficos “andenes” (terraços) pré e incaicos. A erosão provocada nos terraços pelo gado é visível e não deixa dúvidas: é preciso tirá-lo de lá.

O maior problema é convencer as comunidades locais que a melhor solução para a garantia da conservação da puna é a simples substituição da criação de gado pela de lhamas e alpacas e pelo manejo da vicunha. Estes são animais nativos, muito mais adaptados às condições locais e muito mais rentáveis no futuro. O desafio é criar os incentivos necessários para mudar o modo de vida e a tradição das comunidades locais já acostumadas com o gado bovino e ovino.

O projeto Adaptação em Ecossistemas de Montanha, que uniu o governo peruano, o UNDP, o PNUMA e a UICN, está estudando e monitorando a situação da região no contexto das mudanças climáticas. O projeto gera propostas que poderiam aliviar os impactos esperados se as coisas seguirem o rumo atual.

É óbvio que mostrar de maneira adequada este tesouro único através do turismo é uma excelente alternativa, embora difícil devido a falta de estrutura para isso. Entre suas atrações, a região oferece toda classe de oportunidades para ecoturistas, de trekking, a montanhismo, pesca esportiva, kayaking e rafting, ciclismo e espeleologia.

Minha esperança é a mesma que a dos técnicos envolvidos nos projetos de desenvolvimento sem destruição: que chegue logo o dia em que as comunidades locais, com apoio efetivo do governo, aceitem mudanças no seu estilo de vida que lhes garanta um futuro melhor, mais próspero e com conservação.

 

 

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