Maria Tereza Jorge Pádua
Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN.

Marcas de um mundo extinto

Maria Tereza Pádua
quinta-feira, 7 outubro 2004 18:58

Como o Dr. Paulo Nogueira Neto disse, em cerimônia pública, que ele e eu somos dois celacantos (verdadeiros dinossauros vivos), sinto-me no direito de escrever sobre um assunto que normalmente não seria minha praia (estou com total assessoria do grande paleontólogo brasileiro Ibsen de Gusmão Câmara).

Os celacantos viveram desde o início do Paleozóico, 400 milhões de anos atrás, até o final do Mesozóico, 65 milhões de anos atrás, inclusive no Brasil. Embora se imaginasse que estivessem extintos desde aquela data, um foi pescado em 1938 no Oceano Índico e muito recentemente descobriram outra espécie na Indonésia.

Bem, segundo Paulo, que é doutor em biologia, no Brasil existem dois. Portanto, quem sou eu para contrariá-lo?

Mas o que realmente existe no Brasil de hoje é a mais completa floresta fossilizada do mundo: o Monumento Natural das Árvores Fossilizadas, situado no município de Filadélfia, no Estado do Tocantins. Esta floresta fossilizada viveu no Período Permiano da Era Paleozóica, que se situa entre 250 e 295 milhões de anos atrás. No final deste período, nosso planeta assistiu à maior extinção em massa da fauna e flora (mais da fauna) jamais ocorrida. Desapareceram algo como 90% das espécies marinhas e talvez 70% das terrestres. Embora as causas da extinção não sejam bem conhecidas, motivando muitas teorias e discussões científicas, pensa-se que possa ser atribuída a um episódio de intenso vulcanismo ou ao impacto de um meteorito.

A flora Permiana do Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins era muito distinta da atual, com predominância de pteridófitas (samambaias), coníferas e cicadáceas (cicas). Não existiam plantas com flores, que só apareceriam muitos milhões de anos depois. Há uma outra importante floresta petrificada no Brasil, no Estado do Rio Grande do Sul, mas esta é mais recente, pois tem só (brincadeira) 203 a 250 milhões de anos. Assim, a de Tocantins é muito mais importante e especial por ser mais antiga e por conter uma flora variada, tendo, portanto, um imenso valor científico e cultural.

O governo de Tocantins tomou um passo significativo e pioneiro para proteger tamanha riqueza. Criou, pela MP nº 370 de 11 de setembro de 2000, o Monumento Natural das Árvores Fossilizadas, com mais de 32 mil hectares. Muito mais precisa ser feito para proteger este patrimônio, que é único no mundo. A população que lá vive precisa ser beneficiada com a implementação deste Monumento Natural, através do turismo sustentável. Assim, necessita-se de um plano de manejo, da implementação do mesmo com um Centro de Visitantes ou Museu, trilhas interpretativas, infra-estrutura para a visitação, fiscalização e adequado manejo, entre outras necessidades de uma unidade de conservação.

O comércio de fósseis é comum no país, não obstante ser ilegal. O Decreto-lei nº 4.146 de 04/03/42 estabelece que os depósitos fossilíferos são propriedade da Nação e como tal a extração de fósseis depende de prévia autorização e fiscalização do Departamento Nacional de Produção Mineral, exceto por parte de museus nacionais e estaduais, e em todos os casos com o conhecimento desse órgão. Todos nós conhecemos algum lugar onde se compra fósseis ou amigos que os possuem como enfeites em casas.

O Brasil, no nível federal, não conseguiu até hoje estabelecer um Monumento Natural, categoria prevista na legislação que rege o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (lei 9.985 de julho de 2000). Tocantins deu o primeiro passo de um movimento que deveria ser ampliado, seja para proteger outras florestas petrificadas seja para proteger fósseis existentes em outras regiões como, por exemplo, no estado do Ceará.

Por que me meti com fósseis? Porque é muito difícil que a coletividade ou o poder público percebam a importância e urgência de sua proteção. O testemunho raro de um mundo extinto no Tocantins é seguramente o mais necessitado de manejo adequado para uso eminentemente da ciência, mas existem outras áreas clamando por um olhar atento e pelo reconhecimento de sua importância científica e cultural. Onde estão as ONGs que não se mancomunam com os paleontólogos e arqueólogos para conseguir recursos e o saber necessários à proteção dos fósseis, bem como o suporte às comunidades que vivem nas regiões onde existem?

Tocantins já se notabiliza até no exterior pelo artesanato do capim dourado, que não é um capim… é uma sempre viva, uma eriocaulácea, para os cientistas. O capim dourado é explorado nas redondezas do Parque Estadual do Jalapão, no município de Mateiros, que é, ainda, muito procurado pelos adeptos de esportes radicais.

Quantos já ouviram falar dos fósseis (exceto os comerciantes ilegais) de 280 milhões de anos do Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins, no município de Filadélfia?

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