Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

Santo de casa não tem patrocínio

Marcos Sá Corrêa
terça-feira, 30 março 2010 12:25
 

A cena tem uma virtude rara em registros de armadilhas fotográficas: uma composição completa, em vez de um enquadramento aleatório. Comprime numa fração de segundo uma história inteira, dirigindo o olhar para o destino da capivara, que à direita, em primeiro plano, mas de costas, quse desfeita pelo movimento de fuga, virou borrão de rabiscos marrons, como já estivesse se desfazendo.

No canto esquerdo vê-se a onça parda, de frente, nítida até nos fios dos bigodes, com as patas dianteiras no ar e o focinho manso dos predadores que, ao caçar, substituem a ferocidade pela atenção. Os bichos estão frente a frente numa trilha de várzea, com chão de folhas secas, em mato ralo. Ao lado da onça, desponta do colo, como um cogumelo, um tubo amarelo e vermelho. Logo atrás dela, um caibro fino ostenta uma placa, pequena, mas perfeitamente legível. O letreiro diz: PM-19, Petrobras. Isso mesmo. O flagrante ocorreu em fevereiro, junto a Posto de Monitoramento 19 da Replan, a maior refinaria do país. Fica na Região Metropolitana de Campinas, cuja população cresce mais que a do município de São Paulo.

A seu redor, venerandas propriedades rurais viram da noite para o dia condomínios residenciais. Na hora do licenciamento ambiental, tufos de mata nativa se encaixam nos projetos imobiliários. Depois, quando um bicho espremido pela expansão industrial e urbana se transfere para esses refúgios, os mesmos moradores que queriam se mudar para perto da natureza reclamam que foram invadidos.

A Replan confina com as terras da secular Usina Ester, que mantém entre seus canaviais 18 mil hectares de reserva florestal. Na refinaria, cresce um eucaliptal, cultivando à sua sombra um ensaio de capoeira. Nele, um censo preliminar da população silvestre acusou a presença de 40% de veados, 38% de capivaras e 11% de tatus.

Tudo isso é comida de onça. E presa de caçadores. Uma sussuarana caiu recentemente numa armadilha clandestina de caçador. E ele, pelo sim, pelo não, matou-a com seis tiros de revólver. Uma das câmeras que espionam a bicharada da Replan flagrou dois homens armados com espingarda de caça. Um deles trajava o uniforme de uma firma terceirizada que atua na Replan.

A região tem onças pardas renitentes que, escoladas por quase quatro séculos de ocupação humana, aprenderam a viver onde podem. Muitas passam por lá em trânsito. Outras se estabelecem. Quatro sussuaranas figuram nas estatísticas dos últimos 12 meses. Uma apareceu num condomínio em Vinhedo. Outra, numa a área residencial de Rio das Pedras, junto à Unicamp. A terceira foi atropelada na rodovia Anhangüera e convalesce de um reimplante dentário. E um macho de 6 anos e 50 quilos entrou há poucas semanas para o rol dos felinos monitorados por colar noite e dia.

Tudo isso no fundo do quintal de grandes empresas, como a Replan. Mas só quem parece interessada no eucapital da refinaria é o Centro de Nacional de Predadores, do Meio Ambiente. Em nome do Cenap, a bióloga Márcia Rodrigues, com cinco anos de experiência na Amazônia e outros tantos de trabalho Mata Atlântica, oferece há meses à Petrobras o programa, bancando os rádio-colares para seguir os passos dos animais lá dentro.

Neca. E não é por falta de verba, porque acaba de lançar o edital de sua nova rodada patrocínios. Acena, para isso, com 110 milhões de reais.

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