Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

Enfim, em paz com o parque do Iguaçu

((o))eco
quinta-feira, 15 janeiro 2009 18:08

No dia em que ficou setentão, o Parque Nacional do Iguaçu nem parecia o mesmo que, aos sessenta e tantos anos, continuava sob o ataque de prefeitos paranaenses, em campanha para trespassá-lo com a Estrada do Colono, de guaranis, que vinham do Paraguai para invadi-lo, e de caçadores clandestinos, que nunca deixaram de vê-lo como reserva privativa para obter carnes exóticas.

Seu aniversário foi uma dessas festas que o país raramente faz, e deveria fazer sempre, para selar o armistício dos brasileiros com o que ainda lhes resta de original em seu território. Pelo menos na manhã do sábado passado (10), em Foz do Iguaçu, políticos e empresários se revezaram ao microfone para homenageá-lo, tratando-o como um parceiro comercial que, em vez de atravancar negócios, como se espera que façam os parques nacionais, engorda a economia local.

Fator de progresso

Pudera. A cidade só começou a virar o que é – ou seja, grande, com mais de 300 mil habitantes, talvez até demais para seu próprio conforto – depois que ele se instalou a seu lado, em 1939, como lembrou de passagem o chefe Jorge Pegoraro. Conservar as cataratas foi o maior negócio que já se consumou no oeste paranaense. E o único que partiu do projeto de deixar as coisas por lá mais ou menos como estavam, quando, em meados do século passado, empresas colonizadoras e madeireiras apertaram o cerco sobre as florestas do sertão paranaense. Antes do parque, o futuro de Foz do Iguaçu parecia entregue às serrarias e às hidreléticas.

Ele saiu do papel na segunda leva de parques nacionais decretados no governo Getúlio Vargas. Mas foi o primeiro em aspectos cruciais. Constou de uma proposta visionária, feita pelo engenheiro André Rebouças em 1876, quando o mundo mal começava a se perguntar o que vinha a ser essa invenção do governo norte-americano, inaugurada no Yellowstone, quatro anos antes. 

Foi também o primeiro no Brasil a se livrar de seus entraves fundiários, reassentando pacificamente, mas sem os salamaleques instituídos de 21 anos para cá, as 700 famílias que viviam lá dentro. Enfim, a se tornar lucrativo, privatizando os serviços turísticos.

Festa cívica

Ele acaba agora de estrear outra novidade. Transformou em festa coletiva, até cívica, o que seria uma solenidade oficial, tradicionalmente celebrada em ambiente fechado, graças à campanha que, desde 2007, recolhe fotografias e histórias de moradores da região. Saídos dos álbuns e armários, onde amareleciam há gerações, mais de quatro mil instantâneos antigos voltaram à luz, revelando, sem qualquer truque retórico, que o parque está entranhado nas melhores lembranças de famílias inteiras de pioneiros em Foz do Iguaçu.

Faltava, mesmo, essa reconciliação. Sem a Mata Atlântica, conservada como relíquia em suas bordas, depois de desertar todo o oeste de Paraná, aquelas cachoeiras não seriam o que são, e sim o avesso o avesso do parque nacional. Essa idéia revolucionária só ocorreu aos Estados Unidos em meados do século 19, porque o país precisava reagir às críticas do francês Alexis de Tocqueville – o mesmo que consagrou internacionalmente a jovem democracia americana – ao fiasco das cataratas do Niagara, reduzidas em 1831 a um mafuá da livre iniciativa. Pode soar estranho que os parques nacionais existam para provar que, ao contrário do que diziam os europeus, a América era o berço de uma civilização. Mas as quedas d’água às vezes servem para iluminar cabeças.

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