Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

Visão do Paraíso, modelo 2006

Marcos Sá Corrêa
quarta-feira, 26 julho 2006 14:39

“Para quem não se contenta com pouco”, vai logo avisando o anúncio, que oferece terrenos na região serrana do Rio de Janeiro. A página colorida promete tudo o que ultimamente se considera indispensável a uma casa de campo: heliponto, segurança particular, centro hípico com piquete, banheira de ofurô e “playground ecológico”, seja isso o que for. O loteamento tem um castelo em miniatura para crianças e outro, mais ou menos em tamanho natural, para adultos, incluindo fachada com janelas góticas e torre com ameias nos fundos, garantindo o “lazer ilimitado” dos condôminos. É a sede de um clube privado e seu nome não poderia ser mais típico, com raízes solidamente fincadas nas melhores tradições da toponímia imobiliária. Chama-se Highland.

Com tantos atributos artificiais, o lugar não precisaria dizer mais nada. Mas uma fotografia panorâmica pegou em flagrante o modelo da tal família que não faz por menos. Do alto da página, ela avalia o que um dia será seu. Está de costas para o leitor, de frente para a vista ampla e ensolarada. Homem, mulher e menina se abraçam, num gesto de contemplação maravilhada, banhados numa luz que vem de todos os lados, como num afresco de Lorenzetti. Sob um impecável céu azul, flocos de nuvens brancas roçam a crista das montanhas. “Foto no local”, diz a legenda, para calar as perguntas dos incrédulos que, embora acostumados pela vida a não se contentar com pouco, podem achar que assim também já é demais.

A Ferro e Fogo

De um lado a outro da fotografia, até onde a vista alcança, contam-se nos dedos as casas esparsas. O resto é natureza. Ou seja, um vasto mar de morros descascados, onde os tufos de capoeira se penduram como favelas vegetais. Elas também parecem meio clandestinas nesse ambiente reservado aos pastos de capim ralo, marcados em curvas de nível pelas patas de bois que há muito tempo já foram desta para melhor. O barro avermelhado lanha as encostas, sinalizando o caminho das estradas rurais que serpenteiam entre voçorocas, riscando pontos de exclamação na terra exausta que a agricultura desertou.

É, sem tirar nem pôr, o cenário “ferido pelo trabalho humano” que o americano Warren Dean descreve nos primeiros parágrafos de “A Ferro e Fogo”, a história de como o brasileiro se deixou deserdar pela Mata Atlântica. Com uma diferença. Para Dean, a erosão era a cicatriz indelével da feiúra, criada por “séculos de mineração, agricultura e pecuária imprevidentes”. Para o anúncio, ela faz parte de um patrimônio natural que, não podendo mais ser de todo brasileiro, continua pelo menos ao alcance de quem sabe o que é bom.

Ou melhor, habituou-se à perda. Afinal, trata-se de uma paisagem que está aí não é de hoje. No interior do Rio de Janeiro, começou a ser construída lá vão quase 200 anos, quando o país trocou às pressas florestas milenares por cafezais e barões efêmeros. Deixou para trás magníficas sedes de fazendas arruinadas, que poderiam ser visitadas didaticamente como monumentos à voracidade de escravocratas falidos, mas só figuram nos guias turísticos como museus do fausto senhorial. Tem tanta história que não deixa de ser genuinamente brasileira, como dizia o sociólogo Gilberto Freyre dos engenhos nordestinos. É o campo de batalha onde ocorreu a derrota “da vegetação virgem e da vida nativa”. Mas acabou “tão nossa”que mal dá para imaginar o Brasil sem ela.

Além da “vista privilegiada”, o loteamento oferece “o 3º melhor clima do mundo”. O Brasil, diga-se de passagem, deve ser campeão mundial em clima. Atibaia, em São Paulo, promove o 2º clima do mundo. Mendes, no Rio de Janeiro, o 4º. Campos do Jordão, tem o 1º, desbancando Davos, na Suíça, em índices pluviométricos, nebulosidade, ozônio e outros quesitos. Em geral, esses títulos são atribuídos à Unesco. Mas quem a consulta descobre que ultimamente ela anda muito mais preocupada com a mudança climática do que organizar torneios aéreos. O aquecimento global abalou a crença de que as coisas lá em cima não têm nada a ver com o que fazemos aqui embaixo. Mas por aqui ainda não arranhou o costume de se contentar com pouco.

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