Marcos Sá Corrêa
Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de ((o)) eco.

Notícias da loba-guará

Marcos Sá Corrêa
sexta-feira, 23 setembro 2005 21:04

A loba Tibagi ocupava um canto da primeira página na Gazeta do Povo de sexta-feira. Mas, como a crise do governo Lula se instalou no noticiário com jeito de quem veio para ficar e anda difícil encontrar em primeira página de jornal qualquer coisa diferente, com aquele canto a repórter Érica Busnardo merece estrear o prêmio de mudança de assunto no jornalismo brasileiro. Ele não existe? Então está na hora de criá-lo, para estimular nas redações o gosto por novidades.

Como o deputado Severino Cavalcanti, Tibagi foi devolvida esta semana a seu habitat natural. Se é que se pode chamar natural o espaço que sobrou para um lobo-guará no mar de soja dos Campos Gerais paranaenses. Mais natural é a reação de Tibagi, que se fez de desentendida, para ver se a deixavam ficar onde estava, solta – quer dizer, presa – num cercado com um quarto de hectare.

Seis meses atrás, ela apareceu em petição de miséria no quintal de uma casa. Estava no município de Tibagi, de onde trouxe o nome. Tinha cerca de um ano. E pesava 10 quilos. Parecia um caso terminal de desnutrição. Mas foi levada ao Criadouro Científico de Animais Silvestres da Klabin em Telêmaco Borba, para um tratamento à base de soro, vermífugo e ração balanceada. E lá dobrou de peso. Agora, com 20 quilos, recebeu dos anfitriões o aviso de despejo, para Tibagi voltar ao mato.

Ela deixou claro que tinha outros planos.“Do lado de fora, foram colocadas algumas bananas e butiás para atrair a loba”, conta a repórter, “mas ela ignorou as iscas que tentavam fisgá-la para a liberdade”. Agitada, andava de um lado para o outro no cativeiro. Até que os funcionários fizeram um cerco, para “forçá-la em direção ao portão”. Tibagi, pelo visto, sabia o que a esperava do lado de lá, porque levou meia hora para atravessar o buraco que foi aberto para ela na cera, diante da “platéia que assistia à sua volta à natureza”.

Que natureza? Segundo o biólogo Vlamir José Rocha, que cuidou de Tibagi, a vida ao relento anda tão dura para um lobo-guará, que é provável ela ficar por ali mesmo, rondando o cativeiro na fazenda Monte Alegre onde, além do criadouro e de um parque aberto ao público e recomendado nos guias da cidade, a Klabin tem uma fábrica. A empresa é a maior produtora de papel no país, mas hospeda antas, gatos do mato, capivaras, emas, caititus, mutuns e outros bichos – ao todo, 18 espécies da fauna brasileira.

Na Monte Alegre, sobraram 85 mil hectares de matas nativas, ligadas por corredores ecológicos através das plantações de árvores usadas para fazer papel. Em 25 anos de observação sistemática,a Klabin encontrou lá dentro 559 espécies de animais. Delas, 14 estão na fila oficial da extinção, inclusive tamanduás, jaguatiribas, sussuaranas, veados mateiros e lobos-guarás. Homologado pelo Ibama, o criadouro da empresa tem programas para reintroduzir na região bichos que desapareceram ou estão desaparecendo. Por isso, soltá-los faz parte da hospitalidade.

A loba saiu da reserva levando no pescoço um radiotransmissor. Até que a bateria acabe ou o colar se solte, o que deve acontecer em um ano, Rocha vai acompanhar pelos sinais os passos de Tibagi no labirinto da sobrevivência. Sem esses cuidados, a readaptação é loteria. No Brasil, “100% dos pássaros que são apreendidos, por exemplo, morrem depois de soltos na natureza”, ele disse à reporter. As chances de Severino voltar ao Congresso numa eleição devem ser muito maiores.

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