Marc Dourojeanni
Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento e fundador da ProNaturaleza.

Aleluia! A Amazônia está a salvo!

Marc Dourojeanni
segunda-feira, 19 outubro 2015 17:42
Floresta Amazônica, vista do alto.  Foto: lubasi/FLickr

O título deste artigo é o que diz a maravilhosa e inesperada notícia que traz a revista Veja na sua edição do dia 21 de outubro deste ano. Assim, pelo menos, indica o título da longa reportagem  “Como a Amazônia foi salva”, que atribui o mérito desse milagre a um cientista americano que é qualificado, na carta ao leitor, como “O pai da biodiversidade”. Trata-se de Dr. Thomas Lovejoy, por certo, um antigo amigo nosso. A tradicional modéstia do Lovejoy deve ter sofrido um duro golpe com os títulos da revista.

Na verdade, como diz o próprio autor no seu artigo incluído na Veja – que é baseado em outro publicado no National Geographic -, naqueles dias dos anos 1965 e 1969 em que ele passou algum tempo nos estados de Pará e Amazonas, a Amazônia em geral e a brasileira em particular era quase intocada e o desmatamento mínimo. Hoje, alcança provavelmente mais de 20% e a degradação das florestas que subsistem é enorme. Ou seja, uma parte da tão badalada diversidade biológica da região já se perdeu e muito dos serviços ambientais que se esperam dela estão comprometidos, como tantos cientistas têm demonstrado. O otimismo sobre a situação das selvas amazônicas parece derivar em especial da afirmação de que atualmente 51% da Amazônia estariam protegidos em terras indígenas e unidades de conservação.

Não cabe negar que os esforços de conservação da biota amazônica têm dado frutos muito importantes e que, em certa medida, foram respostas aos dedicados a acessá-la mediante estradas e ferrovias e a explorá-la, especialmente para expansão agropecuária, madeira, mineração e geração de energia. O detalhe é que deixando de lado o espaço que parece favorecer a conservação (51%) versus 49% para seu aproveitamento não há muito que comemorar nem sustentar tanto otimismo. O desmatamento já realizado e o mau uso dos recursos, inclusive seu desperdício, são mais que suficientes para desestabilizar o funcionamento do bioma todo, como evidências científicas e empíricas apontam.  Pior ainda, a tendência é muito mais desmatamento e destruição sem necessidade e os problemas ambientais cada vez maiores, como as secas e inundações extremas, a falta de água em outras regiões que dependem da transpiração das florestas, a emissão crescente de carbono na atmosfera, o incremento de todas as formas de contaminação, perda da biodiversidade, etc.

E, sempre para acalmar o entusiasmo, é fundamental lembrar que desses 51% “protegidos” mais da metade é terra indígena que pode ser explorada em certa medida por eles mesmos e; que mais da metade do restante são unidades de conservação de “uso sustentável”, ou seja que nelas se pode explorar os recursos naturais e inclusive desmatar, que incluem, dentre outras, as Áreas de Proteção Ambiental (APAs), a maior parte das quais não protege nada. Ou seja, apenas 10% ou pouco mais da Amazônia estão realmente protegidos da atividade e da cobiça humana. Ainda assim, estão muito ameaçadas por toda classe de reivindicações e por falta de manejo efetivo.

“(…) não se pode exagerar tanto e, menos ainda, dar a falsa ilusão de que já passou o perigo para a Amazônia e que o futuro será só felicidade de agora em diante”.

Lovejoy sabe bem tudo isso. Ele é um otimista e isso é bom. A sociedade e os políticos gostam. Mas, não se pode exagerar tanto e, menos ainda, dar a falsa ilusão de que já passou o perigo para a Amazônia e que o futuro será só felicidade de agora em diante. Sem renegar os progressos duramente obtidos, não se pode baixar a guarda. A luta por um futuro melhor deve continuar e mais vale, nesses casos, ser precavido e pessimista do que otimista.

O artigo e os títulos da Veja também chamam a atenção sobre outro aspecto. Pelo visto, uma vez mais, a Amazônia foi salva por um estrangeiro. Méritos sobram ao Lovejoy e ele é inquestionavelmente um bom amigo da Amazônia e do Brasil. Mas, lendo o artigo, não consegui uma vez mais evitar sentir pena e raiva pelo esquecimento constante, reiterado e onipresente de milhares de brasileiros e cidadãos dos países amazônicos, que não escrevem nem falam em inglês, mas que no dia a dia e por esses mesmos 50 anos fizeram, com os seus intelectos e por suas mãos, essas obras que permitem todo o entusiasmo. Onde está o reconhecimento aos que com lutas intermináveis e riscos enormes conseguiram estabelecer territórios indígenas e unidades de conservação?  Onde ficam os incansáveis funcionários que ano a ano lutam para criar essas áreas protegidas e para obter e usar magros orçamentos para cuidar delas? Por que, finalmente, nós mesmos parecemos achar bom propalar que as iniciativas para conservar a Amazônia sempre nasceram nos EUA ou em outro canto do mundo desenvolvido? Até quando seremos os depreciadores dos nossos próprios méritos?

 

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13 comentários em “Aleluia! A Amazônia está a salvo!”

  1. Só sei que, se os nossos órgãos ambientais (federais, estaduais e municipais), ou o governo como um todo, tivessem a mesma qualidade do INPA e do Emílio Goeldi…a Amazônia tava bem melhor!

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  2. A Veja é a mesma revista que publicou uma materia dizendo que haveria "excesso" de onças no Pantanal. Volta e meia publica umas barbaridades assim. Não tem nehuma credibilidade na área de meio ambiente – é apenas porta-voz de uma ideologia ultrapassada de direita. Quer nos convencer que os "ecologistas" exageram em todas as frentes, das espécies ameaçadas ao aquecimento global.

    Já o Tom Lovejoy… deixa pra lá. : -)

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  3. Texto bastante oportuno e pertinente, que procura desmascarar as mentiras e meias verdades publicadas por uma revista, que, como todos sabemos, não merece nenhuma credibilidade em qualquer assunto que trate. Está aí a serviço dos grandes grupos econômicos e políticos, enfim, não tem compromisso com a Nação. Apenas uma correção, já que o autor falou em valorizar os brasileiros que lutaram e lutam pela preservação do meio ambiente, seria bom que valorizasse nossa língua, escrevendo desperdício em vez de desperdiço (3o. parágrafo), palavra que não existe na nossa Língua Pátria! Mas isso não tira o brilho da matéria!

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    • Caro Edvard, o erro foi dos editores, que deixaram passar a palavra. O autor escreve muito bem em português, mas foi alfabetizado em outra língua e é normal deixar passar uma e outra grafia. Obrigada pelo olhar atento, já foi corrigido.

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  4. O razoável controle sobre o desmatamento e a proteção da biodiversidade na Amazônia não foi trabalho de uma única pessoa, mas sim de vários estrangeiros bem intencionados que viveram e ainda trabalham na Amazônia, mas principalmente trabalho e luta dos Amazônidas, técnicos, pesquisadores, funcionários públicos nos diversos níveis de governo e sem dúvida alguma devemos muito aos povos das florestas (ribeirinhos, índios, quilombolas, etc.).

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    • "O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas!" (Samuel Johnson, séc. XVIII). Já a patriotada, o ufanismo, o sectarismo e a eterna tentativa de categorizar e compartimentar a sociedade é a principal característica da "cumpanheirada"!

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  5. Chamar o George "de esquerda" ou "de direita" me fez rir. Rafael, quem conhece o "quem" sabe que se trata de uma pessoa com mais de 10 anos de luta por um parque na Amazônia. Ah…!!, e que pediu demissão do Banco Mundial em Washington, onde foi colega do Lovejoy e ganhava gordo salário, para retornar ao Brasil e DE FATO dedicar-se à conservação da floresta Amazônica. O que alguém desinformado faz por aqui?

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