Marc Dourojeanni
Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento e fundador da ProNaturaleza.

Ambientalismo: Como ser otimista perante os fatos?

Marc Dourojeanni
terça-feira, 16 setembro 2014 20:05

A batalha contra a Estrada do Colono parecia vencida com estabelecimento do Parque Nacional do Iguaçu. A ameaça ao Parque ressurge com tentativas de reabertura da via. Foto:
A batalha contra a Estrada do Colono parecia vencida com estabelecimento do Parque Nacional do Iguaçu. A ameaça ao Parque ressurge com tentativas de reabertura da via. Foto:

Um colega e amigo recentemente reagiu assim ante as críticas que ambientalistas faziam de um projeto de instalar uma linha de transmissão de energia atravessando mais de 600 km de mata virgem: “antes de lançar granadas vamos analisar” e agregava “de outra maneira estaremos alimentando mais a visão de que estamos contra tudo o que se relaciona ao desenvolvimento”. Recentemente, o jornalista Jeremy Hance descreveu bem o problema do pessimismo dos ambientalistas no nível mundial num artigo cujo título é “Why the conservationists need a little hope? Saving themselves from becoming the most depressing scientists in the planet” (“Por que os conservacionistas/ambientalistas necessitam um pouco de esperança? Salvando-os de serem os cientistas mais depressivos do planeta”). Esses dois exemplos são apenas uma amostra do que acontece com a imensa maioria dos que dedicam sua vida a conservar o patrimônio natural da humanidade e, obviamente, os que são brasileiros não fogem desta realidade, embora pertençam a um povo otimista pela própria natureza.

Para quem se dedica ao tema do meio ambiente é óbvia uma evolução pessoal que passa da juvenil euforia, entusiasmo e confiança no sucesso dos primeiros trabalhos para conservar a natureza para uma visão bem mais mesurada e cética do que se pode fazer e que, já na maturidade, olhando para trás, se converte em contundente pessimismo. Essa evolução que cada um sente pessoalmente é óbvia quando jovem, nos colegas e professores mais velhos e respeitados. Acontece que com o passar dos anos fica evidente que os logros do passado se perdem com fatos novos, ou seja, que embora se triunfe em grandes batalhas se perde a guerra. Um exemplo apenas, como o do Parque Nacional do Iguaçu, explica esse fato. Nesse lugar foram ganhas inúmeras batalhas desde as necessárias para o seu estabelecimento, para a evacuação de invasores e também para o fechamento da “estrada do colono”. Mas, o parque continua cada dia mais ameaçado pela mesma estrada e já está asfixiado pelo desenvolvimento e atropelado por inúmeras violações à legislação que deveria protegê-lo. Quem leva já meio século na mesma luta tem todo o direito de ficar sem ilusões sobre uma sociedade que parece não entender nada e que geração após geração volta à tona a questão.

Pessimismo maduro

“Segundo ele, a extinção em massa que virá será tão devastadora quanto a extinção dos dinossauros, a menos que os humanos compartilhem o mundo com as outras dez milhões de espécies de uma forma mais igualitária.”

Há alguns meses o famoso cientista Edward O. Wilson surpreendeu o mundo dizendo que é preciso “devolver a natureza” à metade do planeta para prevenir a “extinção em massa de espécies”. Segundo ele, a extinção em massa que virá será tão devastadora quanto a extinção dos dinossauros, a menos que os humanos compartilhem o mundo com as outras dez milhões de espécies de uma forma mais igualitária. Ele tem 85 anos e, para quem o conheceu há poucas décadas ele não era tão radical, não mesmo. O cientista brasileiro Antônio Nobre, que não é velho, anunciou há poucas semanas o grave risco que o desmatamento e a degradação das florestas da Amazônia implicam para o desenvolvimento da economia agropecuária da América do Sul. Ele recomendou não cortar uma árvore a mais e replantar os milhões de hectares já desmatados. Ambas as recomendações parecem coisa de malucos. Parecem totalmente impossíveis de ser sequer parcialmente realizáveis. Não obstante essas recomendações não são muito diferentes das que oferece o Painel Internacional para as Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas. Muitos outros cientistas com idade avançada que a gente conheceu por décadas tiveram essa mesma evolução do otimismo juvenil ao pessimismo senil. Senil ou sábio? Estamos falando de gente que, apesar da idade, tem todas as suas qualidades cerebrais não tão só perfeitas senão que estão tremendamente enriquecidas pela longa experiência e por um volumoso aprovisionamento e catalogação de informações.

Os que levam muitas décadas alertando para os riscos do desenvolvimento desenfreado que é alimentado pelo crescimento bombástico da população mundial já foram ridiculizados e vilipendiados, como no caso das predições um tanto prematuras, ou melhor, perfeitamente oportunas do Clube de Roma. Elas deram lugar à famosa Comissão Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Comissão Brüntland) que, contrariamente a sua predecessora, teve grande sucesso, pois destilou otimismo inventando a palavra mágica que salvaria o mundo da debacle, ou seja, “desenvolvimento sustentável“. De nada serviu que grandes filósofos e cientistas demonstrassem que o tal conceito maravilhoso era utópico, por não dizer honestamente que era um absurdo. O otimismo derrotou o pessimismo e assim sendo a humanidade está muito pior hoje que antes quanto ao seu futuro.

A ficção científica explica claramente para onde vai a humanidade. Assim como o Jules Verne mostrou com inacreditável precisão que as viagens no espaço e os submarinos nucleares eram possíveis, muitos outros visionários mostraram que o futuro mais provável da humanidade é de morar num planeta onde a natureza se limitará aos seres humanos. Obviamente, acompanhados das suas réplicas eletrônicas e de máquinas e, evidentemente, dos seus associados inevitáveis: ratos, baratas e outros parasitas, dentre eles cachorros e gatos. Toda outra espécie, se sobreviver, servirá de comida, devidamente transgênica, fertilizada e homogeneizada. Os demais seres vivos comsorte estarão presos em zoológicos e em jardins botânicos. E, para chegar a isso, a humanidade passará previamente por intermináveis guerras cruéis e quiçá pelo seu quase extermínio, na luta por água e outros recursos que a mesma sociedade destruiu. Passada a crise, que sem dúvida será terrível, é possível que se estabeleça um novo equilíbrio, com uma forma de vida muito artificial. Otimistamente cabe supor que nesse momento a vida humana não será pior que agora. Ninguém sabe!

Existem hoje dezenas de milhares de rinocerontes brancos, uma vitória para uma espécie cuja população chegou a ter apenas cerca de 50 indivíduos. Este sucesso de conservação, no entanto, está ameaçado pelo enorme aumento da caça ilegal. Foto:
Existem hoje dezenas de milhares de rinocerontes brancos, uma vitória para uma espécie cuja população chegou a ter apenas cerca de 50 indivíduos. Este sucesso de conservação, no entanto, está ameaçado pelo enorme aumento da caça ilegal. Foto:

Futuro?

“Cientistas, falando deste assunto, lembram que não se podem ignorar as más notícias. Elas são fatos, são reais e seria um desserviço à sociedade “dourar a pílula”.”

Ficção científica? Nem tanto! O bem conhecido biólogo francês Jean-François Bouvet explica que “Pela primeira vez em sua história, a modificação de seu meio ambiente pelo homem é o principal fator de sua evolução, superando a seleção natural. Não é uma evolução no sentido de Darwin, mas uma retro evolução“. Em seu último livro, “Mutants, à quoi ressemblerons-nous demain?” (“Mutantes, como seremos amanhã?”), ele explora a multiplicidade das mudanças e transformações, por vezes radicais, que afetam os seres humanos em diversos âmbitos há décadas e a sua conclusão é que a separação da humanidade da natureza que lhe deu origem é rápida e certeira. É um contexto decorrente de não resolver o tema do equilíbrio entre população e recursos naturais, quebrado não faz tanto tempo e que, quiçá ainda haja tempo de reverter.

Cientistas, falando deste assunto, lembram que não se podem ignorar as más notícias. Elas são fatos, são reais e seria um desserviço à sociedade “dourar a pílula”. Não obstante, diz um deles, deve se levar em conta que o cérebro humano tem tendência a se esforçar mais quando existe motivo para acreditar que o esforço pode resolver o problema ou fazer as coisas melhor. O mesmo cientista adiciona “A cultura do negativismo em conservação da natureza corre risco de atrair unicamente personalidades excessivamente pessimistas, no lugar de uma mistura de pragmatismo e esperança“. E, é verdade que são inúmeras as histórias de sucesso em proteger a natureza e melhorar o manejo dos recursos naturais. O caso mais espetacular de sucesso é o crescimento do número e área das unidades de conservação pelo mundo todo e, certamente, algumas espécies emblemáticas foram salvas e hoje estão melhor que algum tempo antes, as baleias, por exemplo. Mas, visto no contexto, o caso das áreas protegidas é mais uma grande derrota. Quando meio século atrás no mundo existia menos de dez por cento da superfície protegida que existe hoje, a natureza estava umas cem vezes menos destruída que na atualidade e subsistiam pontes naturais entre elas. Ou seja, apesar do tremendo esforço feito, hoje estamos muito pior que antes e, isso, sem mencionar que mais da metade das áreas protegidas não protegem quase nada porque têm gente dentro e porque não estão bem cuidadas. Mas, isso é apenas outro exemplo.

Os clamores desesperados de cientistas como o Wilson ou o Nobre, dentre tantos outros, lembram quase que exatamente os filmes de ficção científica catastróficos, em que o herói solitário trata desesperadamente e sem sucesso de prevenir o mundo contra o desastre anunciado até que realmente acontece. O problema da realidade é que os desastres como o do efeito estufa ou a disfunção do ciclo hidrológico e a perda da diversidade biológica não são violentos. São, pelo contrário, relativamente lentos e por isso a sociedade prefere ignora-los, assumindo que o problema é de outros ou quiçá acreditando que se resolverão sós. E, para complicar ainda mais as coisas, não existem líderes capazes de enfrentar esse problema.

Pessimismo inevitável

“O problema da realidade é que os desastres como o do efeito estufa ou a disfunção do ciclo hidrológico e a perda da diversidade biológica não são violentos.”

Perguntado Marvin Minky, um dos maiores pensadores dos tempos modernos, sobre o futuro possível para a humanidade ele respondeu “É uma situação estranha. Todo mundo sabe que o sistema é instável e que o porvir está em risco, mas, ninguém faz nada para arruma-lo. Ninguém está no comando do planeta. Não se pode culpar a ninguém. Nem sequer existe um superpoder com quem se enfadar. Todos nós somos responsáveis“.

Em conclusão, os fatos não apontam para o otimismo entre os que trabalham com a temática ambiental. O dano acumulado feito pela nossa espécie ao planeta já é muito grande e tudo indica que é dificilmente reversível, mais ainda considerando a realidade social e econômica dominante. Na primeira o elemento principal é a ignorância que conduz à indiferença. Nisso, a maioria da população mundial parece-se muito ao gado ou aos frangos que esperam sem preocupação na longa fila para o matadouro. E quanto à realidade econômica predomina a cobiça e a soberba dos que já são ricos e poderosos superando qualquer prudência. Eles acreditam que a mesma ciência que despreciam quando não convém a seus interesses, resolverá todos os problemas. Mas, se esse for o caso, será para poucos, eles mesmos, claro.

Então? É muito injusto pedir aos ambientalistas que sejam otimistas e, pior, se eles não revelam os fatos ou os encobrem estariam descumprindo seu dever. Mas, concordando com os que se debruçaram no tema, sempre é bom apontar as janelas de oportunidades subsistentes. O autor desta nota fez muito recentemente uma avaliação de um de tantos projetos para salvar o gorila da extinção nas florestas da bacia do rio Congo. Sua conclusão foi que o projeto fracassou e que após mais de dez anos de esforço, a situação do gorila e do seu ecossistema está muito pior que antes, mas, reconheceu que estaria ainda pior sem o projeto. Assim sendo, a sua recomendação foi renovar o projeto. Lutar por um ideal é viver. Por isso os ambientalistas continuam lutando. O que não deixa de ter um fundo de otimismo.

 

 

Leia Também
Urupema: benefícios de parque eólico não compensam má localização
Os riscos climáticos e econômicos da destruição das florestas amazônicas
Áreas protegidas vítimas da crise energética

 

 

 

2 comentários em “Ambientalismo: Como ser otimista perante os fatos?”

  1. Efectivamente, ver cómo acaban cayéndose los grandes logros a costa de entregar uno su vida a la causa de la conservación, es devastador para el ánimo, al punto que, sin asumirlo conscientemente, de hecho uno se va volviendo cada vez más misántropo. Entonces, cómo se puede sentir uno, sino devastado, cuando se derrumban las dos causas que alentaron tu vida: el humanismo y la conservación?

    Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.