Marc Dourojeanni
Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento e fundador da ProNaturaleza.

Robert Goodland: o homem que esverdeou o Banco Mundial

Marc Dourojeanni
segunda-feira, 7 abril 2014 20:58
Goodland trouxe a preocupação ambiental para dentro do Banco Mundial. Foto: arquivo.
Goodland trouxe a preocupação ambiental para dentro do Banco Mundial. Foto: arquivo.

Nos últimos dias do ano passado faleceu Robert Goodland, aos 74 anos de idade. Quando jovem ainda no Brasil e mais tarde, principalmente através do seu desempenho no Banco Mundial, teve muito a ver com o avanço do Brasil e de outros países da América Latina na questão ambiental. Foi um campeão do ambientalismo que lutou bravamente pelos seus ideais no centro do poder do desenvolvimentismo.

Deixei passar alguns meses antes de me animar a escrever uma nota sobre ele. São tantos os grandes ambientalistas e amigos que trabalharam na região que faleceram nos últimos anos que escrever sobre eles me deprime. Mas eu o faço porque eles merecem, porque o que eles fizeram para os nossos países foi importante e porque, embora que tenha muita coisa escrita sobre eles em inglês – em especial sobre Goodland – é pouco ou quase nada o que há em português ou espanhol, ou seja, nas línguas dos países onde eles mais trabalharam ou que mais gostavam.

Goodland foi meu chefe no Banco Mundial e foi ele o responsável de me engajar na história do malfadado Polonoroeste, o grande projeto governamental que “desenvolveu” o norte do Mato Grosso e Rondônia na década de 1980. Ele gostava muito do Brasil, onde fez parte do seu doutorado nos anos 1970, tendo sido brevemente professor na Universidade Federal de Brasília e pesquisador no Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus. Escreveu junto com Howard Irwin o livro “Amazon Jungle: Green Hell to Red Desert” (Floresta Amazônica: do Inferno Verde ao Deserto Vermelho) publicado em 1975 e que tinha como base um estudo da Transamazônica. Embora considerado por muitos como um texto um tanto radical – Goodland era mesmo radical – este livro foi um dos primeiros a chamar a atenção mundial sobre as consequências do desenvolvimento desenfreado na Amazônia.

Em 1978, nos alvores do ambientalismo como é hoje, Goodland foi convidado a se incorporar ao Banco Mundial. Embora naqueles dias uns poucos no Banco já tivessem algum interesse pelo tema ambiental, a imensa maioria formada por economistas e engenheiros considerava que o assunto era supérfluo e um estorvo a mais na preparação dos projetos. Estes, como bem se sabe, incluíam desde a promoção da pecuária nas florestas e a mineração até grandes barragens, estradas e outras infraestruturas. Na laboriosa preparação de projetos no Banco Mundial se falava de evitar transformá-los em “árvores de Natal”. Ou seja, pendurar nos projetos assuntos como o meio ambiente, consulta pública, índios ou de gênero, dentre outros. Para os funcionários, eram apenas complicações adicionais, sem transcendência, demoradas e caras. Deve-se lembrar que esta era também a visão dos funcionários dos governos que solicitavam os investimentos.

Pode-se imaginar, então, a luta do Goodland, um lobo solitário no meio desse contexto. Eu comecei a trabalhar com o Banco como consultor no inicio dos anos1980 e passei a ser funcionário em 1988 e, apesar das profundas mudanças introduzidas na instituição devido aos escândalos gerados pelos projetos de transmigração a Kalimantan (Indonésia) e da colonização em Rondônia, ainda então a atmosfera da instituição para os ambientalistas era muito desfavorável. A consequência positiva dos escândalos foi o estabelecimento de divisões de meio ambiente em cada região do Banco e a contratação de dúzias de profissionais das áreas ambiental e social, eu dentre eles. Não cabe duvidar que Goodland tivesse muito a ver com o processo. Ele usava a estratégia de oferecer grandes batalhas no interior do Banco – era extremamente convincente e apaixonado – mas também mantinha contatos estreitos com a sociedade civil, que montou os escândalos mencionados nas próprias portas da sede do Banco, em Washington, DC. Isto todo mundo sabia e, por certo, não ajudava a sua popularidade dentro da casa.

No entanto, pouco a pouco, a temática ambiental e social foi incorporada na rotina e começou a ser vista como oportunidade de negócios. Ademais, a conscientização da opinião pública já nos anos 1990 cresceu muito e a vida do Goodland e dos ambientalistas dos bancos foi ficando mais fácil. O legado técnico do Goodland no Banco Mundial é enorme. Conseguiu orquestrar, com apoio de seus colegas – em especial Salah El Serafy e Herman Daly – uma verdadeira bateria de políticas, estratégias, normas e procedimentos que abordam todos os temas do socioambientalismo, desde os reassentamentos e o trato as populações indígenas até as pautas para estudos de impacto ambiental de toda classe de projetos de infraestrutura e desenvolvimento e, inclusive, uma revisão do jeito de se fazer as contas nacionais. E, isso foi copiado ou adaptado por todos os demais bancos multilaterais – e até pelos nacionais, como no caso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do Brasil – com um tremendo efeito dominó.

A obrigatoriedade das avaliações de impacto ambiental e social para todos os projetos do Banco foi um dos logros principais da campanha de Goodland. Cada operação passou a ser examinada por especialistas ambientais e, apesar da oposição dos funcionários e dos diretores dos países no Banco, começou a ser muito difícil para os governos nacionais fugir do requisito.  Menos ainda quando os demais bancos multilaterais adotaram a mesma medida.  O respaldo definitivo a essa medida foi a emenda da congressista Nancy Pelosi, aprovada em fevereiro de 1988, que obrigou os diretores americanos a abster-se de votar a favor de operações que não tivessem apresentado oportunamente uma avaliação de impacto ambiental e social aceitável (ver “A lei que mudou o futuro”).

Goodland não era condescendente. Aprendeu a usar pressão, como era hábito do Banco fazer para outorgar seus empréstimos. Só que usou essa tática para evitar danos ambientais e sociais maiores. Em grande medida, a suspensão dos desembolsos para o Polonoroeste ocorreram por causa do seu trabalho. As famosas e tão odiadas – pelos governos e pelos funcionários do Banco – “condicionalidades ambientais” eram planejadas no seu escritório e apresentadas como única alternativa para viabilizar projetos. Quando em 1990 eu fui para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), como chefe de meio ambiente, levei comigo essa mesma política. E funcionou às mil maravilhas.

Gente como Bob Goodland não se aposenta jamais, nem evita quaisquer assuntos. Após o seu afastamento do Banco, ele continuou trabalhando como consultor de governos e agências e também em organizações não governamentais. Abordou especialmente temas de geração de energia e mineração, dois dos seus favoritos, até assuntos éticos, religiosos e de direitos humanos.

Era um andarilho possante. Era quase impossível lhe acompanhar nas caminhadas pela velocidade com que avançava pelas trilhas. Sempre gostou do frio, seu escritório era quase uma geladeira. Nada estranho, pois, que este inglês de nascimento, canadense de nacionalidade e tropical por afeição, morresse no Himalaia, em montanhas tropicais muito frias, após outro esforço excepcional, como tantos na sua vida. Mas, ele foi embora jovem demais.

 

 

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