Teimosia antiga e as enchentes na Amazônia
Marc Dourojeanni
Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento e fundador da ProNaturaleza.

Teimosia antiga e as enchentes na Amazônia

Marc Dourojeanni
terça-feira, 18 março 2014 22:15

Debaixo da Ponte Juscelino Kubistchek, Rio Branco, Acre, a água sobe e o lixo se acumula. Foto:
Debaixo da Ponte Juscelino Kubistchek, Rio Branco, Acre, a água sobe e o lixo se acumula. Foto:

As inundações sem precedentes deste ano na bacia do rio Madeira e outras da Amazônia podem ter sido influenciadas pela mudança climática e os seus efeitos podem ou não ter sido agravados pelas grandes centrais hidroelétricas. Isto é secundário. O que ocorre todo ano na Amazônia, ou seja, enchentes e estiagens cada vez mais fortes é consequência do crescente desmatamento nos Andes ocidentais, ou seja, na Bolívia, Peru, Equador e Colômbia e, claro, no próprio Brasil. Todo mundo sabe isto, até os políticos desses países. Mas, todos eles, assim como os empresários e o povo em geral, perseveram tenazmente em agravar as causas destes fenômenos.

Este autor que aqui escreve está farto de repetir isso mesmo, muitas vezes por ano, em vários idiomas, já faz 40 anos. Minha voz é apenas mais uma na enorme procissão de cientistas, especialistas e observadores do assunto que, embora frustrados, continuam com a litania. Tudo está demonstrado. Ninguém discute a validade dos argumentos. No entanto nada acontece. As nações, governantes e governados, continuam fazendo o contrário do que deveriam para evitar essas tragédias.

O que agora acontece na bacia do Madeira, uma das maiores da Amazônia, é em grande escala o mesmo que acontece em todo o Brasil, em escala local ou regional, quando as chuvas e os rios provocam alagamentos nas partes baixas das cidades e quedas de barreiras nos morros. Essas tragédias que afetam milhares de cidadãos em geral pobres são consequência de ocupações ilegais — ou informais — e/ou da falta de planejamento. O desmatamento das ladeiras andino-amazônicas da Bolívia e do Peru entre 4.000 e 500 metros sobre o nível do mar é enorme, e embora sempre dissimulado com mil e um truques nas estatísticas oficiais, se admite que já supera longamente os 15% e sob outros critérios até os 30% das florestas originais. O resto está muito degradado. Tudo o que acontece nessas partes tão ecologicamente frágeis da Amazônia repercute diretamente nas partes baixas, ou seja, principalmente no Brasil. E, se a essa situação se agrega o que se faz no próprio território brasileiro, que é igual ou pior que nos seus vizinhos, a explicação das tremendas inundações atuais está completa.

Sem florestas, mais enchentes

“O desmatamento nas porções peruanas e bolivianas se deve em grande medida à proliferação de estradas asfaltadas fomentadas, financiadas, construídas e até operadas por empresas brasileiras com apoio estatal e a conivência dos governantes andinos.”

 

Vale a ocasião para lembrar alguns fatos elementares. Ao eliminarem-se as florestas a água das chuvas escorre livremente, arrastando o solo em volumes cada vez maiores. Isto é tanto mais violento quanto maior seja a inclinação da pendente. A função de esponja se perde completamente e a água desce. Por isso as enchentes são seguidas de secas. A agricultura e a pecuária não ajudam em nada. Em geral aceleram muito a erosão. Os sedimentos se depositam no leito dos rios à medida que a pendente se reduz e a velocidade da água diminui. No caso da bacia do Madeira isso acontece especialmente no território brasileiro, relativamente plano. Se aos fatos anteriores se soma a exploração ilegal de ouro no rio Madre de Dios no Peru e em muitos outros locais da bacia, que destroem matas ciliares e jogam muita terra nos rios e pior ainda os milhares de dragas que atuam no Brasil, explica-se porque os rios transbordam. Estas operações, no seu conjunto, removem milhões de toneladas de terra que logo se depositam nos leitos.

E tem mais. Antigamente os ribeirinhos eram habitantes esparsos com muito pouco impacto sobre as florestas e os rios, pois viviam mais da mata que da chácara. Hoje eles e outros agricultores são muito numerosos e o efeito dessa ocupação se dá exatamente sobre as áreas de restinga que deveriam ser preservadas para manter o rio no seu leito, agravando o problema. De outra parte, a ocupação humana em geral, especialmente na periferia das cidades, tem aumentado enormemente e, claro, a tragédia humana é proporcionalmente maior.

Infraestrutura maciça sem planejamento

Em Rondônia, a BR-364 é invadida pelas águas do Rio Madeira. Foto:
Em Rondônia, a BR-364 é invadida pelas águas do Rio Madeira. Foto:
“(…) como justificar três interoceânicas entre Brasil e Peru, além de duas hidrovias e de pelo menos uma ferrovia? Como justificar a pretensão de construir em breve prazo umas 15 centrais hidroelétricas gigantescas, dentre elas a que barraria o imenso rio Marañón no Peru?”

Se os brasileiros são as principais vítimas das inundações da bacia do Madeira, eles, através dos seus governantes e empresários, são também parte do problema. O desmatamento nas porções peruanas e bolivianas se deve em grande medida à proliferação de estradas asfaltadas. O que é irônico é que muitas delas foram ou são fomentadas, financiadas, construídas e até operadas por empresas brasileiras, com apoio estatal e a conivência dos governantes andinos. Todas essas obras repercutem diretamente no incremento direto e indireto do desmatamento, como tem sido fartamente demonstrado. O Brasil tem sido o grande promotor da Iniciativa de Integração da Infraestrutura Sul Americana (IIRSA) que propôs e que de fato na última década permitiu a construção de estradas interoceânicas e de barragens nesses países. Agora ainda propõe ferrovias. Obras todas essas feitas com avaliações de impacto ambiental que são apenas maquiagem. Nem existe, por exemplo, uma avaliação ambiental estratégica do IIRSA, ou seja, considerando as consequências ambientais e sociais do conjunto de obras propostas. Tampouco existem tais estudos para a bacia do Madeira. Preferem não fazê-los, pois o negócio sofreria.

Reitero como tantas outras vezes que não se trata de frear o desenvolvimento, nem sequer se trata de não desmatar mais. Na Amazônia há lugar para toda classe de infraestruturas e atividades, se são realmente necessárias, bem planejadas e executadas. Mas, como justificar três interoceânicas entre Brasil e Peru, além de duas hidrovias e de pelo menos uma ferrovia? Como justificar a pretensão de construir em breve prazo umas 15 centrais hidroelétricas gigantescas, dentre elas a que barraria o imenso rio Marañón no Peru? E assim sucessivamente, tudo proclamado com a euforia ignorante ou corrupta de todos os governos envolvidos, tanto ao nível nacional como regional e local.

E que se está fazendo agora no Brasil? Pois nada. O Brasil não cede nas suas pretensões relacionadas ao IIRSA e pior, agora existe clara intenção de abrir a Amazônia ao cultivo de cana de açúcar e de expandir o cultivo de grãos, em especial de soja a toda região. De outra parte continua criando novos munícipios e construindo estradas por todo canto. Do mesmo modo o país segue a sua dissimulada embora feroz campanha contra as unidades de conservação para dar lugar a mais agricultura, hidroelétricas e a linhas de transmissão de energia e estradas. Rondônia, o estado mais afetado pela inundação atual é o campeão nacional — e provavelmente mundial — de eliminação de áreas protegidas estabelecidas décadas atrás. Os políticos que perpetraram esse ato absurdo esqueceram que essas áreas são uma das armas importantes para mitigar o impacto das inundações e das secas.

Desânimo! É a palavra que usa Alexandre Garcia, da Globo, quando década após década tem que repetir as mesmas descrições das calamidades que impactam a cada ano a milhares de brasileiros durante a estação e chuvas e, assim mesmo, anunciar as mesmas promessas dos governantes para evitá-las.  Mas, os alertas não servem para nada e as promessas das autoridades nunca são cumpridas e os mesmos problemas permanecem ou estão muito piores. Isto mesmo, um profundo e grudento desânimo, é o sentimento dos que trabalham pelaa Amazônia frente à insana teimosia daqueles que são os maiores responsáveis do porvir.

 

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