José Truda
Jardineiro, indignado e Vice-Presidente do Instituto Augusto Carneiro.

O jardim da subversão


quarta-feira, 6 outubro 2004 19:05

Era uma vez um país com uma das maiores diversidades biológicas do planeta. Nele, mais de 5.000 espécies de árvores e outros tantos milhares de orquídeas, bromélias, cactos e uma infinidade de outras plantas cresciam nos mais diversos ecossistemas e regiões climáticas, compondo um fabuloso Jardim do Éden, onde uma variedade idêntica de animais silvestres encontrava abrigo e alimento. Era bom demais, na verdade, para as tacanhas mentes que invadiram esse paraíso vindo da soturna, suja e gananciosa Europa. Tanto que, desde a chegada dos primeiros europeus até hoje, passados quinhentos e tantos anos, empenham-se os habitantes humanos a destruir, depreciar e – talvez o mais visível símbolo de ignorância – substituir essa fantástica diversidade de vida nas vizinhanças das habitações humanas, por uma paisagem estéril, ainda que verde, onde porcarias inúteis, transplantadas de outros lugares e climas, pasteurizam jardins e parques com sua presença borocochô.

É assim que pode ser contada, em poucas palavras, a história da jardinagem no Brasil. Sentados sobre as ruínas de florestas de incrível riqueza paisagística, nossos “paisagistas” contemporâneos, em sua imensa maioria, não são mais do que arremedos dos marinheiros piolhentos de Cabral, que sequer tinham noção do valor do que estavam vendo ao desembarcar na Mata Atlântica baiana, em 1500. Inspirados certamente num período e lugar brilhantes da humanidade – a Europa medieval – os nossos modernos gurus dos jardins, contratados a peso de ouro por madames ricas, porém incultas, ou por incorporadores imobiliários sem qualquer interesse que não o de maquiar seus caixotes de concreto para melhor vendê-los aos trouxas endinheirados, simplesmente ignoram a riqueza de nossa flora nativa e suas possibilidades de uso paisagístico. Preferem fazer o papel de camelôs de plantas exóticas, que, conforme a moda do momento, podem ser mais ou menos ciprestes japoneses, chifres-de-veado asiáticos, arbustos mediterrâneos, pinheiros alemães, mas sempre maciçamente espécies estrangeiras, sem qualquer utilidade para nossa fauna silvestre. Em suma, tão ecologicamente úteis como plantas de plástico.

Essa predileção dos “paisagistas” brasileiros pelas plantas exóticas não é apenas uma cafonice repetitiva, que faz com que cada mansão de rico burro brasileiro se pareça com a outra, seja em Porto Alegre ou em Natal. É um crime ambiental de proporções desastrosas, ainda mais se levarmos em conta que os burocratas de prefeituras, geralmente tão ignorantes quanto os “paisagistas” sobre nossa flora nativa, macaqueiam estes na cópia de jardins pasteurizados, transformando os espaços verdes públicos em extensões da mesmice dos jardins privados. Ora, essas áreas verdes esterilizadas com espécies exóticas são áreas roubadas à fauna brasileira. Se fossem plantadas mais espécies nativas, que permitem aos pássaros alimentar-se de frutos ou flores, aos insetos cumprirem seus ciclos de polinização, aos demais invertebrados compor a necessária sinfonia de funções ecológicas essenciais à vida nos solos, os brasileiros aprenderiam a conviver com a Natureza desse país com menos distanciamento e mais noção de responsabilidade, do que a alienação europeizante ainda hoje suprime nos nossos próprios jardins.

Conviver com a Natureza brasileira nos jardins é, portanto, uma necessidade política e um imperativo de subversão dos processos intelectuais que a pseudo-elite brasileira (pseudo sim, pois quem é burro e endinheirado não é elite, é só um estorvo social) ainda cultiva e espalha.

Plantar árvores nativas e mudar a cara dos nossos jardins para algo mais ecologicamente integrado é, portanto, um ato ideológico – e que ainda por cima fica muito mais bonito que o copião pasteurizado que os “paisagistas” convencionais vendem aos bobos.

É difícil entender como pode alguém preferir um xoxo ciprestinho japonês no jardim, a um exuberante ipê ou ingá nativo, ao qual podem se agregar nos galhos orquídeas e bromélias que, além de belíssimas em si, atraem aves, borboletas e outros animais que deveriam ser, sempre, considerados parte integral dos jardins brasileiros. Talvez seja o imediatismo de quem prefere comprar um jardim “pronto” para exibir aos seus comensais e convivas, diametralmente oposto ao prazer de criar um ambiente natural e vê-lo amadurecer e evoluir. Em grande parte, porém, acredito que a ignorância sobre as oportunidades de uso paisagístico da nossa flora esteja por trás da maioria das escolhas desinformadas das pessoas sobre o que por no seu jardim. Visando ajudar a mudar essa mentalidade é que escrevi já três livros a respeito do tema e que, agora, empurrado por essa malta de agitadores que se oculta por trás das páginas eletrônicas d´O ECO, volto a escrever regularmente sobre jardinagem ecológica.

Pretendo tratar nesse espaço, ao longo dos próximos meses, de alguns temas relacionados à jardinagem ecológica no Brasil, que desde já defino como sendo o plantio de espécies nativas brasileiras, com finalidade principal de criar ambientes úteis à sobrevivência integrada da fauna e da flora e, de quebra, ainda embelezando as nossas (ainda pouquíssimas, na maioria das cidades) áreas verdes urbanas.

Quero, portanto, ajudar o/a leitor/a a criar seus jardins ecológicos e exijo, apenas, um pagamento em troca: que ele/a faça sua parte jogando tomates e ovos bem podres na cabeça dos administradores públicos que plantam lixo exótico em parques e praças, protestando, escrevendo a meios de imprensa e políticos, não apenas sobre parques e praças mas também contra a continuada devastação de nossos últimos ambientes naturais, que o atual governo “democrático e popular” do país não apenas não defende como ainda incentiva, tanto megaempresários como miseráveis, a depredar. Quem não acredita nisso é porque anda lendo pouco O ECO.

Nos vemos por aqui, entonces, pra falar de jardinagem ecológica e de quebra lascar o pau nos depredadores da Natureza brasileira, que eles merecem – e muito. Até a próxima!

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