Gustavo Geiser
Engenheiro agrônomo com mestrado em Agroecossistemas pela Universidade Federal de Santa Catarina, trabalha na Polícia Federal como Perito Criminal Federal na área de meio ambiente.

Desmatamento menor, diagnóstico insuficiente

Gustavo Geiser
sábado, 11 fevereiro 2012 3:01
Não tem mesma publicidade, mas o Cerrado está perdendo mais área do que a Amazônia. Foto: Danilo Alves.

Ontem (09), o Ministério do Meio Ambiente divulgou o resultado do acompanhamento da supressão vegetal nos biomas brasileiros, para os anos de 2008 a 2009. Ainda que com dados não tão recentes, esse é um excelente trabalho da equipe que o realizou. Porém, infelizmente, já de início, senti que o tom da nota de divulgação pretendia mais comemorar do que informar, pois enfatiza os biomas com bons números (Pampas, Mata Atlântica e Pantanal), e não os demais.

É amplamente conhecido que, além da Amazônia, os biomas mais desmatados são o Cerrado e a Caatinga. Entretanto, curiosamente, eles tiveram bem menos destaque na nota, e sequer receberam na notícia um tópico a parte, ou um link para apresentação detalhada.

Os números são do Projeto de Monitoramento por Satélite do Desmatamento nos Biomas Brasileiros, realizado pela Secretaria de Biodiversidades e Florestas em parceria com o Ibama. A melhor notícia é termos, finalmente, conseguido frear o desmatamento na Mata Atlântica, uma grande vitória. Resta agora combatermos a degradação (como o roubo de palmito e a caça) e cuidarmos dos pequenos fragmentos, impossíveis de serem mapeados por esse estudo, dada a limitação das imagens Landsat. Provavelmente, a proximidade do homem, com degradação e pressão imobiliária, será o maior inimigo da preservação desse bioma.

“O MMA deveria destacar, por exemplo, que o Cerrado perdeu assustadores 0,37% da área em um ano. Esse é um percentual 18,5 vezes maior do que os 0,02% da Mata Atlântica.”

Porém, o estudo deixa de dizer a que veio, já que imaginávamos que visava explicitar onde estão ocorrendo os crimes ambientais a serem combatidos. O MMA deveria destacar, por exemplo, que o Cerrado perdeu assustadores 0,37% da área em um ano. Esse é um percentual 18,5 vezes maior do que os 0,02% da Mata Atlântica. Ao contrário dela, o Cerrado ainda sofre forte pressão para a abertura de novas áreas para agricultura e pecuária. Já a Caatinga, que também ninguém liga, ocupa, em percentual o segundo lugar, com 0,23% da sua área perdida em um ano.

Apenas no último parágrafo se informam os números absolutos, onde verificamos que o desmatamento dos pampas, pantanal, e mata atlântica, juntos, correspondem a menos de 10% da área devastada do bioma cerrado. A nota afirma ter sido desmatados 7.637 km2 do cerrado, 7.464 km2 da Amazônia, 1.921 km2 de Caatinga, 331 km2 dos Pampas, 248 km2 de Mata Atlântica, e 118km2 do Pantanal. Não citam dados acerca de manguezais e restingas. Note-se que o Cerrado perdeu mais área total do que a Amazônia.

Nos biomas com campos nativos, ou seja, o pantanal e os pampas, os relatórios não explicam também se alterações nas pastagens, com introdução de gramíneas exóticas e consequente supressão da vegetação nativa, foram considerados “desmatamentos” ou não, o que pode indicar que esses números estejam subdimensionados. Isso lembra o quão inadequado é o termo “desmatamento”.

Ou seja, é bom ver, finalmente, dados públicos da situação dos diversos biomas, mas falta ainda ao Estado dar a devida importância para o diagnóstico, em vez de se limitar a usar as boas notícias como demonstração do seu sucesso, e jogar para debaixo do tapete os números ruins.

Conclusão? Ainda não dá para comemorar.

 

 

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