‘Nunca é por causa da demografia’
Fernando Fernandez
Biólogo, PhD em Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra). Professor do Departamento de Ecologia da UFRJ, seu principal interesse em ensino e pesquisa é a Biologia da Conservação.

‘Nunca é por causa da demografia’

Fernando Fernandez
segunda-feira, 28 fevereiro 2011 20:55
Xangai, na China. Crescimento econômico é um efeito claro do bônus demográfico (foto: decade_null/ Wikimedia Commons)
Xangai, na China. Crescimento econômico é um efeito claro do bônus demográfico (foto: decade_null/ Wikimedia Commons)
Em 1970 e 1972, o Clube de Roma alertou que o crescimento populacional nas taxas da época traria desastrosos efeitos sociais e inclusive ambientais.

Vamos rever rapidamente alguns dos acontecimentos das últimas décadas. No pós-guerra, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, a população mundial crescia de forma exponencial, num ritmo extremamente rápido, de mais de 2% ao ano. Como demonstrado recentemente aqui em ((o))eco por meu colega e amigo Carlos Gabaglia Penna, essas taxas de crescimento eram centenas de vezes mais altas que as experimentadas pela humanidade durante a maior parte de sua história. Naquelas décadas, a miséria, a fome e as desigualdades sociais aumentaram brutalmente em grande parte do mundo. Isso aconteceu de forma especialmente trágica nos países onde o crescimento populacional foi mais rápido, os quais correspondiam quase com exatidão ao que chamávamos de “terceiro mundo”. A China, por exemplo, tinha uma população em explosivo crescimento, e um padrão de vida baixíssimo, quase miserável. A renda per capita da China na década de sessenta estava abaixo das Filipinas, do Vietnã, do Egito, do Paraguai e do Sudão, e próxima às do Haiti, Paquistão e Etiópia. Naquela época ninguém sequer pensaria em falar da China como uma potência mundial – era, pelo contrário, citada como exemplo de país subdesenvolvido.

Naquela época, diversas vozes começaram a alertar que o crescimento populacional explosivo era a maior causa daqueles problemas – embora, obviamente, não a única. O ecólogo Paul Ehrlich falou da “ bomba populacional” em 1968. O geógrafo francês Yves Lacoste definiu subdesenvolvimento como “uma situação caracterizada por uma distorção durável (ou uma tendência à distorção) entre um crescimento demográfico relativamente intenso e um aumento relativamente fraco dos recursos de que dispõe a população”. Em 1970 e 1972, o Clube de Roma – um grupo de cientistas e intelectuais reunidos na capital italiana – alertou que o crescimento populacional nas taxas da época traria desastrosos efeitos sociais e inclusive ambientais, por causa da escalada da poluição. A desaceleração do crescimento populacional seria uma condição imprescindível para que os países de terceiro mundo pudessem sair do subdesenvolvimento e resolver seus imensos problemas.

O nascimento do tabu

Os alertas tiveram muito impacto na época, mas foram rapidamente esquecidos. A questão demográfica voltou a ser quase ignorada, varrida para baixo do tapete. Boa parte disso se deveu à demonização da idéia por parte de muito das ciências sociais, que associaram o alerta sobre a explosão demográfica às idéias de Thomas Malthus, do final do século XVIII. Se alguém alguma vez chamar você de “neomalthusiano”, é hora de partir para a briga – esse é um dos piores xingamentos disponíveis no arsenal dos cientistas sociais.

É bem verdade que a obra de Malthus, embora fosse útil para apontar o problema, possuía argumentos matemáticos simplistas. No entanto, seria ingênuo pensar que as idéias dele foram tão enfaticamente rejeitadas por causa de seu conteúdo científico. Na verdade, foram rejeitadas por causa do incômodo com as possíveis soluções. Ninguém conseguia conceber uma solução adequada para estabilizar o crescimento populacional rapidamente numa sociedade democrática, sem ferir alguns de nossos valores mais caros a respeito de direitos humanos. Diante do violento impasse – percepção do problema populacional, mas repulsão com os meios disponíveis para resolvê-los – muita gente preferiu adotar a solução mais simples: ignorar o problema, fingir que ele não existia. Nascia o tabu.

O crescimento populacional se desacelerou quase sozinho

Na grande maioria dos casos, as sociedades reduziram sozinhas seu crescimento populacional, como consequência de mudanças nelas mesmas.

Então, aos poucos, uma coisa inesperada foi acontecendo. O crescimento populacional foi se desacelerando, devagar, paulatinamente. Hoje, a população mundial cresce cerca de 1,1% ao ano, ou seja, metade das taxas do início da década de 1960. Na maioria dos casos, o crescimento se desacelerou “sozinho”, quer dizer, sem que houvesse qualquer esforço significativo dos governos nacionais para isso. Uma série de mudanças nas sociedades humanas, incluindo urbanização, maior participação feminina no mercado de trabalho, a pílula e a revolução sexual, foram reduzindo lentamente as taxas de crescimento. Houve também campanhas de algumas organizações internacionais e ONGs para reduzir a natalidade em vários países, mas tais ações tiveram uma contribuição relativamente pequena para a desaceleração. Na grande maioria dos casos, as sociedades reduziram sozinhas seu crescimento populacional, como consequência de mudanças nelas mesmas.

A exceção, quanto a como se deu o processo, foi a China. Lá, o crescimento populacional foi desacelerado graças a uma rigorosa política governamental de filho único, implantada de forma autoritária, por um governo autoritário. Não concordo com os métodos empregados pela China, nem acho que eles devam servir de modelo para qualquer país. Mas esqueçamos por um momento como a China alcançou a desaceleração, e olhemos por um momento para o que aconteceu. O crescimento desacelerou muito mais rápido na China que na maior parte dos outros países. Em algumas décadas a população chinesa deixou de crescer centenas de milhões de pessoas – alguns Brasis – que teriam sido acrescentados à sua população se as taxas de 1960 tivessem sido mantidas. De repente a China – surpresa, surpresa – se torna uma das maiores potências mundiais!

Surpresa chongas de pitibiriba. O Clube de Roma tinha cantado a pedra quarenta anos atrás!

O bônus demográfico nas versões chinesa e brasileira

O que está acontecendo, em grande parte, é que a China está passando por uma fase conhecida como bônus demográfico. Esta fase é típica de países que desaceleraram seu crescimento populacional recentemente. A população já não tem uma proporção de jovens tão grande quanto tinha décadas atrás. Por outro lado, como a desaceleração ainda é relativamente recente, a proporção de idosos também não é tão alta. Com relativamente poucas crianças e poucos idosos, a sociedade pela primeira vez em muito tempo consegue lidar melhor com as demandas da educação, saúde, e por aí vai. Além disso, maior parte da população está em plena idade produtiva. Numa população assim, é difícil que a renda per capita não suba.

A população chinesa foi quase estabilizada, como se dizia décadas atrás que era o passo crucial para a China conseguir se desenvolver. Pouco tempo depois, embora ainda esteja longe de ser um país rico, verifica-se que ocorreram imensos avanços econômicos e sociais, e a China torna-se potência mundial. Coincidência? Pode ter certeza que nem um pouquinho. Mas mesmo agora, ninguém fala da demografia! Fala-se de economia, circunstâncias de mercado, esquecendo-se do bônus demográfico, que certamente não é a única causa, mas é pelo menos uma das causas principais do “milagre chinês”. Pobre demografia! Nem quando ela faz coisas boas alguém lembra dela.

É óbvio que o Brasil, assim como os demais emergentes, está passando pelo bônus demográfico agora, e grande parte do nosso bom momento econômico é devido a isso. 

E o Brasil? O Brasil, como vários dos chamados “emergentes”, entre eles Rússia, Índia, Chile e Coréia do Sul, também reduziu drasticamente as suas taxas de crescimento demográfico. Em comparação com a China, nesses países o processo foi mais recente e mais “natural” – isto é, não autoritário, mostrando que a estabilização é possivel sem autoritarismo. De repente – surpresa, surpresa – esses países chegam a uma fase de relativa prosperidade econômica, e mostram avanços em seus problemas sociais. É óbvio que o Brasil, assim como os demais emergentes, está passando pelo bônus demográfico agora, e grande parte do nosso bom momento econômico é devido a isso. Mas se você duvida do papel da demografia, vá ver as taxas de crescimento populacional dos países que claramente não saíram do subdesenvolvimento e continuam assolados por problemas sociais cada vez mais insolúveis. Boa parte dos países da África sub-saariana, o Haiti e o Afeganistão, entre outros, mantiveram crescimentos populacionais altos e têm hoje as maiores taxas do mundo. Coincidência? Não abuse da minha capacidade de acreditar em coincidências.

No entanto, no Brasil também quase não se fala em bônus demográfico. Nossos governantes se gabam de, com suas políticas sociais, ter tirado milhões de famílias da pobreza. Porém, a pobreza é definida como renda familar per capita abaixo de um certo valor. Como os filhos de modo geral não geram renda, é óbvio que a mera diminuição do número médio de filhos por família puxa a renda familiar per capita de milhões de famílias para acima da linha da pobreza. Numa sociedade com a fertilidade caindo rapidamente, isso dificilmente teria como não ocorrer, mesmo na ausência de qualquer política social. Mas que político já explicou isso? Eles preferem faturar às custas do bônus demográfico como se fôsse um resultado de suas próprias atuações.

Então os problemas demográficos estão resolvidos?

Neste ponto poderíamos pensar que com a desaceleração do crescimento da população mundial, e vários países em situação de bônus demográfico – duas boas notícias sem dúvida – a questão populacional estaria perdendo sua importância. Mas essse seria um imenso e trágico erro. A situação atual não nos dá, de forma nenhuma, razão para complacência.

Hoje o problema do crescimento rápido da população mundial está sendo substituído por outro, talvez até mais grave: o da superpopulação em si. Gostemos ou não de perceber isso, já vivemos em um mundo superpovoado. Somos sete bilhões, e a desaceleração em curso não é rápida o suficiente para estabilizar a população global antes de chegarmos a nove bilhões. Agora imagine esses bilhões de pessoas multiplicados por uma cultura consumista e desperdiçadora, e o efeito disso é que o planeta está sendo submetido a uma pressão tão gigantesca que não pode aguentar por muito mais tempo. As consequências da dobradinha desastrosa de superpopulação e superconsumo se tornam mais óbvias a cada dia, na perda de biodiversidade, nas mudanças climáticas, e no colapso de serviços ambientais dos quais precisamos para uma qualidade de vida mínima. Hoje é a natureza que está dando o alarme, mas não se iluda que a prosperidade econômica possa estar dissociada das questões ambientais mesmo a curto prazo.

Além disso, cabe lembrar que há a conta a ser paga pelo bônus demográfico: o envelhecimento da população nas próximas gerações. Uma baixa fertilidade hoje significa uma população com uma alta proporção de idosos amanhã, e isso é um gigantesco problema para as economias, por exemplo para os sistemas de previdência social. Não é à toa que as economias de países com populações envelhecidas – especialmente os países europeus e o Japão – perderam todo seu vigor e hoje tem imensas dificuldades para se manter competitivos diante dos emergentes. Como vamos sair disso não é simples, mas uma coisa é certa: vamos ter que olhar para a demografia com muita atenção.

Hora de rever os conceitos

Nesse ponto, é importante lembrar que as mudanças demográficas pelas quais as populações têm passado certamente não são as únicas causas de fenômenos tão complexos como miséria, surtos de prosperidade ou perda de competitividade internacional, em um mundo tão complexo. Mas a demografia tem fornecido explicações poderosas, que nos ajudam muitíssimo a entender como o mundo se tornou o que é, as transformações pelas quais ele está passando, e como podemos lidar com problemas previsíveis no futuro. Não é sábio que continuemos a ter barreiras contra uma visão tão útil do mundo. Se você acha que nunca é por causa da demografia, então é hora de rever seus conceitos. Nos livrarmos desse tabu nos abre para percepções do mundo das quais nesse momento, mais que nunca, precisamos.

1 comentário em “‘Nunca é por causa da demografia’”

  1. Pois bem, tenho feito uma pesquisa a respeito dos impactos sobre a biodiversidade a partir da demografia. Conversei com pessoas que diziam não ser a demografia em si a causa de impactos ambientais, mas as características ligadas à cultura dos povos em expansão demográfica. Penso que qualquer cultura, independente de seus hábitos, sofre com o aumento e expansão da densidade humana. Gostaria muito de partilhar materiais, caso tenha, podemos trocar contato, abraços!

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