Fernando Fernandez
Biólogo, PhD em Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra). Professor do Departamento de Ecologia da UFRJ, seu principal interesse em ensino e pesquisa é a Biologia da Conservação.

Outros olhos sobre as cidades

Fernando Fernandez
terça-feira, 30 março 2010 20:18
Cartaz de Birdy, filme de Alan Parker. Imagem: Wikimédia.

Um dos momentos mais inebriantes que já vivi num cinema foi assistindo a uma cena de “Birdy” (“Asas da Liberdade”), de Alan Parker. Trata-se de um belíssimo filme, sobre a liberdade, a loucura, e a amizade. O personagem-título, um rapaz reprimido e perturbado (vivido por Matthew Modine), desenvolve uma obssessiva ligação emocional com as aves, que simbolizam a liberdade que ele mesmo não tem. Suas esquisitices ornitológicas e suas desastradas tentativas de voar são toleradas e cada vez mais compreendidas por seu melhor amigo, Al (Nicholas Cage). Após Birdy ter sofrido um violento trauma de guerra, Al faz de tudo para evitar que ele perca o tênue contato que ainda tem com a realidade. De repente, lembro-me bem, perdi o fôlego. Meus olhos se grudaram na tela, e torci para o tempo passar mais devagar.

Birdy, deitado no chão do seu quarto, olha para a pequena janela, muito alta acima dele. Se imagina uma ave, saindo por aquela janela, para o mundo lá fora. De repente, a câmera sai pela janela, como os olhos da ave da imaginação dele. Começamos a ver o mundo à volta pelos olhos de uma ave, a voar livremente sobre a paisagem à volta. Não é nenhuma paisagem extraordinária – o que só faz a experiência cinematográfica desse vôo ainda mais fascinante. São subúrbios comuns de uma pequena cidade norte-americana – o vôo da câmera passa sobre carros num ferro-velho, depois uma mulher lavando roupa no quintal, segue pelas passagens estreitas entre as casas, escapa do ataque de um cachorro, passa baixo sobre uma rua passando perto das pessoas atarefadas em seus afazeres cotidianos. É o nosso mundo que está ali, visto pelos olhos de uma ave, como pelos olhos de um estranho.

Vendo “nosso” mundo com outros olhos

Diga você: que canto de ave você ouviu hoje? Nenhum? Você que pensa. A maioria de nós, mesmo nas grandes cidades, coexiste a cada dia com numerosas aves, escuta seus cantos sem ouvir, as olha sem ver. É espantoso como somos indiferentes a essas vidas que estão acontecendo à volta da nossa todo o tempo. Canso de ver pessoas imersas nas suas preocupações ou no seu celular que andam apressadas pela cidade como se ela fôsse um deserto só de concreto, asfalto e vidro. Mas não é.

É admirável a garra da vida, a imensa capacidade das plantas e animais de teimar em viver, mesmo nas condições mais hostis. Num pequenino torrão de terra entre duas telhas num telhado, ou numa estreita fresta num chão de concreto, você pode encontrar uma pequena planta que se instalou ali. Numa escala maior, nossas cidades são lar de uma quantidade surpreendente de animais – pássaros, cigarras, micos, morcegos – que admiravelmente conseguiram sobreviver e arrumar um novo meio de viver no ambiente tão diferente e hostil que fizemos. Uma cidade não é só o nosso mundo. Representa também vários outros mundos paralelos, de outros seres vivos, vivendo suas vidas e seus dramas cotidianos à nossa volta, vendo “nosso” mundo com outros olhos. Que tal tentarmos, pelo menos por um momento, ver o mundo pelos olhos deles?

Vejamos por exemplo as aves, os objetos da paixão de Birdy. O que você e eu chamamos de “arborização urbana” uma ave chamaria de habitat. Se você ver no Google Earth uma cidade “em negativo”, prestando atenção não nas construções mas sim no espaço entre elas, vai ver que uma cidade é um mosaico de pequenas “ilhas” de vegetação, geralmente (infelizmente nem sempre) ligadas por uma malha de “corredores” estreitos de vegetação seguindo o caminho das ruas. Cada rua bem arborizada é como uma floresta linear com estrutura simplificada, arcadas de vegetação se encontrando lá no alto, jardins suspensos para várias espécies de aves. Essas “ilhas” e “corredores” são a cidade para outros habitantes que não nós.

A vida está lá fora. Foto: Pixabay.

Nossos companheiros mais visíveis

As aves compartilham os mesmos canais sensoriais conosco – sua percepção é predominantemente visual e secundariamente auditiva, como a nossa. Por isso estão entre os animais mais fáceis de ver, e entre os que melhor podem ver, lá de cima, a cores e com visão acurada, o curioso mundo desses estranhos primatas apressados daqui de baixo. Outras vidas em paralelo com as nossas em muitas cidades brasileiras incluem a pequena cambacica (Coereba flaveola), que vem beber nos vidros para beija-flores; os próprios beija-flores de várias espécies; os siriris (Tyrannus melancholicus) pousados a espaços regulares nos fios, e pegando insetos no ar em acrobacias que avião algum jamais igualará; os versáteis bem-te-vis (Pitangus sulphuratus) com seus cantos inconfundíveis; a bela saíra-amarela (Tangara cayana) e muitos outros. Mais difícil de ver numa cidade, mas ainda possível de encontrar, é o pássaro de mais bom gosto de todos, o tiê-sangue, Ramphocelus bresilius, com sua exuberante plumagem rubro-negra.

Nem só de pequenos passarinhos vive a avifauna urbana. Há nas cidades mais surpresas que a nossa vã imaginação poderia supor. Numa reentrância da parede num andar alto do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho na inóspita Ilha do Fundão, no Rio, pesquisadores da UFRJ capturaram nada menos que um falcão peregrino (Falco peregrinus). Você leu certo, uma das mais espetaculares aves de rapina do planeta, o animal mais veloz do mundo (até 300 km/h em mergulho). Tive a sorte de ver o bicho, azul-acinzentado, 98 cm de envergadura, um migrante provavelmente vindo da América do Norte. Foi anilhado e solto, provavelmente para angústia dos pombos das redondezas. Voltou por vários anos. A cada dia, centenas de pessoas entravam e saiam do Hospital Universitário sem nem imaginar que a trinta metros sobre a cabeça delas estava um falcão peregrino.

Espetáculos noturnos

“O mais espantoso, porém, é que essa figueira fica em frente a um McDonald’s, a menos de dez metros de distância, e no entanto a indiferença das pessoas com os bichos é tão grande que não me lembro de já ter visto uma só pessoa reparando naquele espetáculo”.

À noite o movimento nas ruas muda, e não é só para nós. Em grandes figueiras que estejam frutificando, você pode assistir a um verdadeiro espetáculo noturno de morcegos. Conheço uma figueira assim, na rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Grandes morcegos frugívoros, de meio metro de envergadura, fazem repetidas passagens na árvore, pegando frutos a cada vez. O chão fica coalhado de frutos e basta você ficar parado perto da árvore para ver um verdadeiro balé aéreo dos grandes morcegos voando agilmente, às vezes apenas a centímetros acima do chão, e desviando de você com grande habilidade. Nunca soube ao certo que espécie era. Sei pouco de morcegos, e digo isso sem nenhum orgulho. Mas Marco Aurélio Mello, um ex-orientado meu que hoje é pesquisador da Universidade Federal de São Carlos, sabe muitíssimo. Para Marco Aurélio, é claro que só seria possível dizer ao certo com o bicho nas mãos, mas o porte e o comportamento que eu descrevi acima sugerem Artibeus lituratus.

O mais espantoso, porém, é que essa figueira fica em frente a um McDonald’s, a menos de dez metros de distância, e no entanto a indiferença das pessoas com os bichos é tão grande que não me lembro de já ter visto uma só pessoa reparando naquele espetáculo. Nem mesmo para sentir medo, esse desinformado medo que vem de achar que todos eles chupam sangue, o que só uma ínfima minoria das espécies faz, e certamente não esses morcegões frugívoros.

Como esses morcegões veêm o mundo das pessoas apressadas na calçada da Visconde de Pirajá? Bom, como eles ouvem o mundo talvez seja uma pergunta mais adequada! No seu mundo de escuridão, não poderiam depender muito da visão para achar as coisas, e não dependem mesmo. Cada um daqueles Artibeus (ou presumíveis Artibeus) se desvia de nós orientado por um sofisticadíssimo sonar. Emitem vozes muito poderosas, e se orientam pelos ecos da sua voz ao bater nos diferentes objetos. Morcegos emitem pulsos sonoros numa frequência altíssima – no caso de um insetívoro, até 200 pulsos por segundo. Assim sendo, também recebem ecos com muita frequência. Isso permite às suas mentes, processando essa informação, perceber o ambiente à volta do bicho – tamanho e forma dos objetos, velocidade em relação a eles etc – com um imenso grau de detalhe. É difícil imaginar como um morcego percebe o mundo dessa forma, mas é possível fazer uma boa – e fascinante – especulação. O ponto de partida é perceber que uma imagem que vemos não é uma mera coleção de objetos no mundo lá fora: é como a nossa mente percebe e processa a luz que vem desses objetos. É bem possível que uma mente que recebe tanta informação do sonar processe essa informação como imagens – tridimensionais e tudo. Assim, um morcego formaria o que chamamos de imagem – uma riquíssima representação mental do mundo – com a audição, e não com a visão. Claro que não dá para a gente se colocar dentro da cabeça de um morcego e ver como ele percebe o mundo. Mas é uma pena, porque seria uma experiência maravilhosa.

Um mundo sem gravidade

Você já pensou no mundo de uma prosaica lagartixa de casa? Aquelas lagartixas que há na parede da sua casa são uma espécie exótica, Hemidactylus mabouia, que é um bicho africano que chegou aqui de navio durante a colonização portuguesa. As lagartixas vivem num fantástico mundo bidimensional e que não respeita gravidade. Andam sempre coladas a superfícies, mas não importa se a superfície em questão é um assoalho, uma parede ou mesmo um teto. Lagartixas estão completamente à vontade não só em superfícies verticais como até mesmo de cabeça para baixo, quando as forças de van der Waals estabelecidas entre as cerdas de suas patas e o teto as mantém firmemente aderidas. Quando acaba sua jornada e você vai dormir, começa a jornada delas, em longas e pacientes emboscadas a insetos cujas populações elas ajudam a controlar. Mas quem de nós pode sequer imaginar um mundo como o delas, andando pelas superfícies verticais com tanta tranquiladade como pelas horizontais, e mais, sendo capaz de ignorar a lei da gravidade, que tão completamente rege nossas vidas?

Porque conservar as faunas urbanas

“Há péssima arborização em muitas cidades ou em partes da maioria das grandes cidades. Por que os governos e as ONGs, que frequentemente investem em projetos de reflorestamento em áreas rurais, não investem mais em maciços projetos de revegetação urbana com árvores nativas?”

Há muitas vantagens em manter e incentivar a vida nas cidades. Por exemplo, por que cidades não são muito mais utilizadas na fixação de CO2 para mitigação da desordem climática global? Não estou falando de plantar uma árvore aqui ou ali, mas do plantio de milhões de árvores. Aglomerações urbanas cobrem uma área nada desprezível e que só tende a aumentar. Há péssima arborização em muitas cidades ou em partes da maioria das grandes cidades. Por que os governos e as ONGs, que frequentemente investem em projetos de reflorestamento em áreas rurais, não investem mais em maciços projetos de revegetação urbana com árvores nativas? Isso é feito, claro, mas longe ainda da escala desejável. São ações relativamente baratas e que empregam muita gente. Além disso a revegetação urbana traria múltiplos benefícios: fixar CO2, amenizar o clima das cidades, e, claro, fornecer habitat para milhões de outras vidas.

Há ainda outras razões, menos óbvias mas igualmente importantes, para se preservar a natureza urbana, e em particular a fauna urbana. Quando se diz que uma cidade (ou uma parte dela) foi bem sucedida em melhorar suas condições “ambientais”, o que dizemos? O “ambiente” a que nos referimos é para nós, é claro. Mas o que dizemos? Os peixes voltaram ao Tâmisa, várias espécies de aves voltaram à lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, peixes e aves voltaram ao restaurado rio Cheonggyecheon em Seul, na Coréia do Sul. A fauna urbana nos indica quando recuperamos um lugar para nós. A presença de outros seres vivos é indicadora de quando temos um mundo saudável para nossas próprias psiques.

É claro que faunas urbanas são pobres em número de espécies se comparadas a maioria dos ecossistemas naturais. No entanto, como dizem, a gente só protege o que ama, e só ama o que conhece. Esta é a natureza com a qual a gente está em contato durante a maior parte das nossas vidas, e portanto nossa maior chance de aprender a amar a natureza em geral. Para muitos de nós, é a maior chance de despertar aquilo que Edward Wilson chamou de biofilia – a nossa tendência inata de gostar de outros seres vivos. Uma das recordações mais vivas da minha infância é a das cigarras cantando nas ruas de Ipanema. Na época do ano em que elas apareciam, era um som fortíssimo, insistente, que dominava tudo. Minha admiração ao descobrir que tudo aquilo era produzido por aquele animalzinho discreto foi um dos primeiros momentos que me lembro dessa sensação de maravilhamento que me fez gostar de bichos e natureza.

Nossas janelas

Precisamos de cidades, claro. A crescente urbanização é uma das maiores tendências da humanidade, e isso não vai mudar nas próximas décadas. Mas num mundo do futuro pelo qual vale a pena sonhar, as cidades não seriam mais monumentos à separação homem-natureza. Seriam, ao contrário, uma celebração da recuperação dos nossos laços com o restante da natureza, e do entendimento de que nosso destino depende disso.

Assim como para Birdy, as aves não apenas estão nas nossas janelas: elas são as nossas janelas, para um mundo que estamos ignorando perigosamente demais.

1 comentário em “Outros olhos sobre as cidades”

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