Eduardo Pegurier
Editor de ((o))eco e professor da PUC-Rio.

População urbana ultrapassou a rural

Eduardo Pegurier
quarta-feira, 30 maio 2007 18:32

Ultrapassamos uma data importante na última quarta-feira. Em 23 de maio de 2007, a população urbana ultrapassou a rural. Os especialistas calculam que 3.303.992.253 pessoas vivam nas cidades, enquanto que 3.303.866.404 estejam no campo. Esses números são imprecisos porque não derivam de um censo, mas de projeções feitas por especialistas. Mesmo assim, é grande a força simbólica do evento.

Essa virada aconteceu em pouco mais de duzentos anos. Até as últimas décadas do século XVIII, morar no campo era a regra. Foi a Revolução Industrial inglesa, cujo começo muitos historiadores estabelecem em 1780, que mudou tudo. Como nos lembram os livros de Charles Dickens, a troca do campo pela cidade é sempre um processo feio e turbulento. Pulos tecnológicos dramáticos destroem empregos no campo e os recriam nas cidades. Foi assim que Londres se tornou inchada e poluída no século XIX. São Paulo e Rio de Janeiro passaram por isso nas últimas décadas. Por aqui, outras capitais, como Curitiba e Florianópolis, lidam hoje com o mesmo problema.

A Revolução Industrial clássica já ficou para trás. Mas a urbana continua se desenrolando. O ímpeto que a move não deriva das fábricas, mas dos enormes ganhos de produtividade decorrentes do adensamento nas cidades. Como adaptação, a palavra indústria deixou de ser usada para designar grandes galpões cheios de máquinas e chaminés fumacentas. Virou sinônimo de ramo de negócios como, por exemplo, a indústria de fundos de investimento.

São várias revoluções urbanas acontecendo simultaneamente. Sempre rápidas, embora as datas iniciais variem de país para país. A Inglaterra fez a transição do campo para a cidade no século XIX. Nos EUA, a população urbana ultrapassou a rural na década de 1910. O Brasil cruzou essa fronteira no fim dos anos 60. A China e o Vietnã estão no ápice do processo de urbanização.

O que podemos pescar da história? Primeira lição, o processo é irreversível e ninguém até hoje conseguiu pará-lo. Segunda, ocorre porque gera aumento de riqueza. Olhando de fora, ou da posição das elites que costumavam gozar solitárias das benesses da vida urbana, pode ser feio. Mas os pobres rurais mudam para as cidades porque melhoram de vida.

No mundo, existe hoje 1.2 bilhão de pessoas abaixo da linha de miséria. Três quartos moram no campo. Não existe país rico nem remediado com população urbana muito abaixo de 80% do total. Brasil e EUA ficam na faixa dos 80%. Inglaterra, Alemanha e mesmo a Argentina têm cerca de 90%. A Islândia, um país de pescadores, ou a Nova Zelândia, exportadora de trigo não escapam. Na primeira, a população urbana é de 93%, na última de 86%. A China tem apenas 40%, mas enquanto o número é baixo, a mudança é assombrosa. Em 1980, a população urbana chinesa não passava de 20%. Em duas décadas, 400 milhões de chineses migraram para as cidades. Na semana passada, a China começou a desmontar o seu sistema de passaporte interno, que buscava restringir a evasão rural. Caducou.

Qualquer índice de bem-estar está relacionado a altos níveis de urbanização. Os países urbanizados têm pouca mortalidade infantil, grande longevidade, renda per capita alta e boa performance educacional. Quem quiser fazer as próprias experiências, consulte um novo e ótimo serviço da Google em associação com um instituto sueco, o Gapminder.

Nas cidades, prosperam o comércio e a indústria. A grande escala permite usar a energia com eficiência. É mais fácil ter acesso à luz, transporte e saneamento nos aglomerados urbanos. Facilita também a provisão de serviços como educação, saúde e, até mesmo, lazer.

Em compensação, as grandes cidades são causadoras de vários dos nossos maiores problemas. Se não fosse o seu sucesso, a população não teria crescido tanto. Foi a medicina e a tecnologia desenvolvida nos grandes centros que aumentou a sobrevivência e a longevidade, inclusive no campo. Foi o aumento de renda e, logo, de consumo, que criou os problemas ambientais que enfrentamos.

No século XIX, até nos países mais ricos, as crianças morriam numa taxa de 200 para cada 1.000 nascimentos. Hoje, a taxa brasileira, de 30 mortes por 1.000, é uma vergonha. Nesses tempos em que todos eram camponeses, morria-se muito e morria-se cedo. Poucos passavam dos quarenta anos. A renda era baixa e até o consumo dos ricos era parco comparado aos dias de hoje.

O sucesso criou nossos problemas. E o paradoxo maior: o campo sobrevive sem a cidade, mas a cidade não duraria sem ele.

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