Eduardo Pegurier
Editor de ((o))eco e professor da PUC-Rio.

Meio urbano

Eduardo Pegurier
segunda-feira, 4 setembro 2006 19:26

A coluna da semana passada recebeu muitos comentários interessantes dos leitores. Nada causa mais satisfação a um articulista. Melhor ainda, a polêmica não é frívola, porque compreender a relação entre cidades e meio ambiente é básico. Meu texto nem de longe pretendeu dar uma opinião final sobre o tema, apenas chamar atenção para algumas vantagens da vida urbana.

Após ler comentários à coluna, fui conversar com um novo amigo, o geógrafo Felipe Guanaes, professor da PUC-Rio e diretor do NIMA (Núcleo Interdisciplinar do Meio Ambiente), também na PUC. É sempre um prazer estar com o pessoal do NIMA. O centro, hoje, coordena trabalhos de 50 professores locados em 12 departamentos da universidade. Entre eles, Serviço Social, Administração, Comunicação, Psicologia, Instituto Gênesis de empreendedorismo, para não falar nas ligações mais óbvias com os departamentos de geografia e engenharia.

Para finalizar a merecida rasgação de seda, o NIMA quebra com um padrão que eu reputo ser o pior vício brasileiro: o corporativismo. Lá, a tentativa é formar times para resolver problemas, sem torná-los herméticos à crítica. Quem dera existissem mais iniciativas como essa, inclusive dentro da PUC. Um dos seus serviços recentes foi a produção do texto básico do código ambiental do estado do Rio de Janeiro.

Contei sobre a minha coluna a Felipe e perguntei: – Afinal de contas, você como geógrafo e ambientalista considera meu argumento razoável? Cidades indiretamente protegem o verde ao adensarem a ocupação humana? A resposta inicial não parecia ter relação com a pergunta, mas foi tão forte que fez girar minha cabeça. A narração que se segue capta uma pequena parte da eloqüência de Felipe. As imprecisões são por minha conta. Mas vale a pena reparti-la com vocês.

– As diferenças de polaridade causadas pelo calor de um lado e o frio na face oposta do globo criam fluxos permanentes de energia. O planeta pulsa movido por essa força que se origina da combinação de sua rotação com o calor do sol, expôs Felipe. O resultado são os regimes de vento e as correntes oceânicas que moldam o clima. Esse é o sistema respiratório do planeta e, infelizmente, sabemos muito pouco sobre ele.

– Se tivéssemos sensores que medissem parâmetros como temperatura, pressão, ventos e chuva cobrindo densamente todo o globo, espaçados, digamos, a cada 5 km, e do solo, novamente em intervalos, até uma altura de 40 km, conseguiríamos mapear o sistema respiratório planetário. Ou seja, acabaríamos entendendo bem o clima. O triste é saber que já temos muito da tecnologia necessária para a análise, mas falta investimento para coletar os dados que a alimentariam.

– Talvez no dia em que tivermos esses dados, descobriremos relações insuspeitas. Por exemplo, que a devastação da Mata Atlântica afetou o regime de chuvas do norte da Europa. Veja, essa floresta percorria uma longa faixa do Sul ao Nordeste do Brasil com uma largura de 600 km. As frentes frias vindas do sul se batem contra as árvores e vibram, perdendo energia, velocidade e, ao mesmo tempo, absorvendo humidade. Mudanças longínquas no regime de chuvas podem ter ocorrido pela supressão dessa floresta.

– Mas e as cidades? perguntei angustiado. Meu argumento de que elas economizam verde te convence? Sim, disse ele. Concordo que as cidades permitem em tese uma vida mais econômica, inclusive em recursos naturais porque os usam intensamente. Mas, então…? balbuciei. – Bem, só quando compreendermos o sistema todo poderemos saber os verdadeiros impactos dos aglomerados urbanos e quais deles são desejáveis ou não, retrucou. Poderemos até mesmo intervir para sanar com precisão os problemas climáticos e ecológicos causados pelo urbano. O homem é parte da evolução. Ele foi tão bem sucedido, que o que faz pode determinar a viabilidade do planeta. Ou aprendemos a usar esse poder para suprimir ou contrabalançar nossas atividades ou a mesma evolução nos eliminará.

Depois desse encontro, quando consegui aterrissar novamente no meu mundo analítico seguro e dicotômico “homem-natureza”, tive algum alívio. Mantenho meu argumento inicial. As cidades só surgem porque economizam uma série de coisas como distância, tempo e recursos naturais. Nem a revolução das telecomunicações reverterá essas vantagens.

O ponto básico é o seguinte: para atingir um determinado padrão de vida X, vamos dizer, uma renda de $10 mil dólares por ano, a maneira mais fácil é em aglomerados urbanos. O exemplo poderia ser mil, cinco ou 50 mil dólares, dá na mesma. Fixe um padrão de vida e ele será mais fácil de atingir, usará menos recursos e poluirá menos se for gerado com escala. Algumas atividades só serão possíveis em grandes cidades. Nesse sentido, cidade vira sinônimo de densidade. Olho a Holanda, por exemplo, e vejo uma grande área urbana. Será a Holanda uma cidade-país?

Manter uma cidade requer menos recursos do que gerar o mesmo padrão de vida de forma dispersa. A visão contrária, isola a cidade e esquece que ela faz parte do todo. Essa visão do todo foi a lição que recebi de Guanaes e que, acho, não conflita com o meu argumento. Se, como coloca o leitor Vinicius, determinada cidade gera gargalos de poluição, contaminação de rios ou disposição de lixo é uma pergunta empírica, a ser respondida caso a caso. Se cria alterações climáticas em locais distantes, como especula Guanaes, é uma versão macro do mesmo problema. Só saberemos o que conter e o que sanar, ou seja equilibrar a contabilidade ambiental do meio urbano quando entendermos melhor o todo. Mas possíveis gargalos não invalidam a tese geral.

Na prática, o mundo inteiro está cada vez mais urbano. Cerca de 80% dos brasileiros vive nas cidades, assim como mais de 90% de Europeus e americanos. Quatrocentos milhões de chineses deixaram o campo nos últimos 20 anos. Isso me faz pensar que a questão que não podemos perder de vista é: como tornar a vida dentro das cidades agradável e amiga da natureza?

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