Tem macaco novo na Floresta da Tijuca

Giuliana Ferrari, Luísa Genes, Tomaz Cezimbra*
quarta-feira, 6 setembro 2017 1:03
chico
Chico no dia de sua soltura, em setembro de 2015. O bugio fez parte do primeiro grupo levado à Floresta da Tijuca há mais de 200 anos, junto com seus companheiros Maia, Kala e Hanuman. Foto: Luísa Genes

Por mais de 200 anos não se registrava na Floresta da Tijuca a presença de bugios, espécie considerada localmente extinta na cidade do Rio de Janeiro. Até que os bugios Kala, Chico, Hanuman e Maia foram levados à Floresta para mudar esse cenário e se tornar parte da população fundadora da espécie na cidade.

Para quem nunca foi à capital do Estado, o Parque Nacional da Tijuca é uma grande mancha florestal ocupando as partes mais altas do meio da cidade, e pode ser acessada por caminhos cujo ponto em comum é a incrível quantidade de verde e sombra em meio ao clichê da selva de pedra do Rio. Subindo de carro ou a pé, é patente a diferença na pureza do ar e na energia do lugar; cariocas gostam de subir a floresta pelas suas trilhas e cachoeiras, e não é incomum encontrar um ou outro gringo apaixonado pelas florestas tropicais decidido a explorar os verdes eternos de uma das maiores florestas urbanas do mundo.

“Hanuman não estava cumprindo nenhum papel ecológico e, assim, perdeu a chance de ficar livre junto a macacos de sua própria espécie”

Algumas pessoas, no entanto, sobem à Floresta toda semana com um propósito bem diferente. Não são turistas, alguns não são cariocas, mas todos compartilham de uma mesma direção: são integrantes e voluntários do Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações (LECP) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O objetivo de subir a floresta toda semana? Soltar e rastrear macacos.

Para restaurar interações ecológicas há muito tempo perdidas e experimentar técnicas de reintrodução na prática, em um laboratório vivo, em 2009 o LECP deu o primeiro passo no que se tornaria um ambicioso projeto de refaunação, ou melhor dizendo, de reconstrução de toda a fauna extinta da Floresta da Tijuca. Esse passo foi a reintrodução da cutia (Dasyprocta leporina) com 31 indivíduos soltos entre 2010 e 2014. A última estimativa, feita em 2015, estimou um crescimento populacional de 100% ao ano e os 35 indivíduos capturados eram todos nascidos na floresta; a população vingou, cresceu e está saudável. A história das cutias merece uma crônica à parte.

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Primeiro grupo de bugios reintroduzidos: Hanuman, Kala, Chico e Maia. Os animais permanecem poucas semanas em um cercado para se aclimatarem e ganharem peso antes da soltura. Foto: Luísa Genes

Em 2015, um segundo passo foi dado com a reintrodução do pequeno grupo de quatro bugios ruivos (Alouatta guariba). Esses primatas se alimentam de folhas e frutos, dispersando as sementes das árvores nativas e possibilitando, assim, a contínua regeneração da Floresta. Além disso, suas fezes atraem besouros rola-bostas, que as enterram no solo florestal, preenchendo com nutrientes e tornando o terreno favorável para o crescimento das árvores. Eles são responsáveis por toda uma inimaginável rede de interações ecológicas que até então estava desaparecida do Parque da Tijuca.

Kala, Chico, Hanuman e Maia foram equipados com radiotransmissores para serem localizados na floresta, mas os rádios de alguns deles falharam poucos meses após a soltura. Ainda no ano passado, Chico deixou de ser visualizado após a falha de dois equipamentos.

Ainda antes dessas complicações, Hanuman passou a descer das copas das árvores, onde bugios passam a maior parte do tempo, e a andar pelo chão próximo a estradas recebendo atenção e alimento de visitantes do Parque. Após tentativas mal-sucedidas de evitar que os visitantes se aproximassem do animal, Hanuman teve que ser retirado da Floresta, já que a sua proximidade de estradas e turistas encantados com a oportunidade de alimentar um animal selvagem colocavam em risco sua saúde e vida. Além disso, ele não estava cumprindo nenhum papel ecológico e, assim, perdeu a chance de ficar livre junto a macacos de sua própria espécie.

Kala é uma estrela dessa história, pois faz parte do grupo original que ainda permanece na floresta e é monitorada com sucesso, duas a três vezes na semana. Sabemos que Kala veio do CETAS-RJ, o Centro de Triagem de Animais Silvestres, em Seropédica, mas sua origem  antes disso é incerta. Provavelmente era uma bugia selvagem resgatada de algum acidente ou encontro com humanos, por exemplo, atropelamento, um dos males mais frequentes que vitima animais silvestres. De qualquer modo, Kala é arredia, evita contato com os primatas menos peludos do que ela que insistem em caminhar pelas trilhas da Floresta. Uma ótima característica de personalidade para ela e o projeto.

“Kala e Juvenal continuam na floresta, um lindo casal que nos enche de energias positivas e determinação. E finalmente, mês passado, uma incrível notícia: um filhote”

Novos macacos foram levados à floresta: Juvenal, em 2016, que logo foi visto em par com Kala. O casal permanece junto até hoje. César, outro macaco da segunda leva, em 2017, foi levado à floresta em uma tentativa de reintrodução. Infelizmente  por ter passado muito tempo em cativeiro antes da reintrodução, teve problemas semelhantes ao de Hanuman após a sua soltura e foi também retirado do Parque.

Um evento inesperado foi a súbita epidemia de febre amarela, que adoeceu moradores do Estado. A vida do bugio-ruivo no Rio de Janeiro não está fácil; esses animais são sensíveis à febre amarela e, para piorar, mais uma vez a ignorância humana leva a comportamentos destrutivos: notícias publicadas de pessoas atacando bugios e outros primatas por medo de serem contaminados com febre amarela demonstra o quão longe chegamos na total dissociação com a natureza: não somos mais parte dela. Em vez disso, é costume vê-la como um problema a ser exterminado.

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Kala e o filhote ainda não nomeado, Agosto de 2017. O filhote, ainda pequeno, necessita da presença e aconchego da mãe para sobreviver. Ele se esconde embaixo de sua barriga ou às vezes tenta escalá-la, se segurando com firmeza no pelo de Kala para não despencar das árvores. Foto: Luísa Genes

Não existe, no entanto, motivo para desistir.  O projeto, por mais atribulado com problemas internos e externos ao processo da reintrodução, pode dar certo, e faremos o possível para que continue avançando. Mais do que o compromisso com ciência de qualidade, existe um compromisso ético na base da biologia da conservação que move os integrantes do LECP para frear a mancha de destruição que nós humanos espalhamos pelo globo.

Kala e Juvenal continuam na floresta, um lindo casal que nos enche de energias positivas e determinação. E finalmente, mês passado, fomos agraciados com uma incrível notícia: um filhote! É uma grande notícia, e entusiasmo e animação são atitudes muito positivas ao projeto, mas deve-se evitar assediar a mãe e o bebê neste momento delicado. É sempre importante lembrar que não se deve tentar alimentar os macacos e, caso os encontre no meio do mato, prosseguir em silêncio e em cautela, nunca saindo das trilhas para persegui-los.

O que às vezes pode parecer um trabalho de Sísifo, em outros momentos pode ser visto pelos olhos de Eduardo Galeano ao descrever o que é utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” De forma alguma pretendemos representar reintroduções como intermináveis ou utópicas, mas é decerto um trabalho contínuo e complexo, motivado pela inspiração de lutar contra a correnteza da extinção das espécies, enfrentando os desafios e incertezas que isso implica.

 

Agradecimentos: Este projeto não seria possível sem o envolvimento direto do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro; do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS-Estácio); do Ibama, da Fundação Oswaldo Cruz e a parceria do Parque Nacional da Tijuca.

 

giuliana Giuliana Ferrari é bióloga da conservação e uma sonhadora na crise do Antropoceno
Luísa Genes é ecóloga procurando reverter a defaunação e seus efeitos em processos ecológicos luisa
tomaz Tomaz Cezimbra, dentre outros atributos, é ecólogo e apaixonado pela natureza

 

 

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9 comentários em “Tem macaco novo na Floresta da Tijuca”

  1. Meus mais apaixonados parabéns a essa iniciativa excelente!
    A refaunação precisa ser ampliada e nós humanos temos que aprender a conhecer e conviver com nossa biodiversidade!
    Mas fiquei com uma dúvida: Hanuman e César, os bugios que foram retirados da floresta, certamente proporcionavam experiências muito boas aos frequentadores do parque.
    Suas interações com a biodiversidade da floresta por certo não eram tão ricas, mas certamente ocorriam algumas interações.
    Porque seria preferível eliminar esses fatores e impedi-los da chance de viver e se procriar ali em seu habitat ao invés de assumir os riscos?
    Por favor, amigos, preciso compreender essa justificativa.

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    • Gustavo Romeiro, sou biólogo faço mestrado em Conservação da Biodiversidade na RURAL de PE, e partilho da opinião que mesmo "não cumprindo nenhum papel ecológico" como afirmaram, vale mais o bicho aproveitar seu momento de liberdade, mesmo que num futuro próximo venha a óbito, do que voltar pra um recinto e viver o resto da vida trancado. E outra observação "papel ecológico" por "papel ecológico", ele desempenharia mesmo se fosse morto, uma vez que teria toda a interação trófica entre os decompositores e o bicho morto.

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      • Olá! Muito obrigada pela curiosidade!
        Eles não estavam se alimentando muito dos frutos e folhas da floresta, estavam magros e Hanuman chegou até a ficar um pouco doente. O convívio com seres humanos é realmente muito ruim para a saúde deles – além de todas as questões acerca do papel ecológico. Além disso, a interação com humanos gera riscos de transmissão de doenças para ambos os lados

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    • Olá! Muito obrigada pela curiosidade!
      Eles não estavam se alimentando muito dos frutos e folhas da floresta, estavam magros e Hanuman chegou até a ficar um pouco doente. O convívio com seres humanos é realmente muito ruim para a saúde deles – além de todas as questões acerca do papel ecológico. Além disso, a interação com humanos gera riscos de transmissão de doenças para ambos os lados.

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  2. Muito legal mesmo este trabalho. Moro no entorno da Floresta da Tijuca, mais precisamente no Horto, alto Jardim Botânico. Infelizmente, a invasão do ambiente natural pelo homem degrada as condições de vida ideais dos habitantes da floresta. Aqui mesmo em meu apartamento, volta e meia sou visitado por macacos pregos ávidos por qualquer coisa que lembre comida – atacam pacotes de biscoito, caixa de leite, além de bananas e frutas, é claro. Para chegar, são obrigados a cruzar a Rua Pacheco Leão, provenientes da área do Jardim Botânico. Evidente que me preocupo com este contato direto, menos pelos alimentos e pelo stress de ver um macaco nervoso dentro de casa, mais pela assiduidade que isso passa a ocorrer, especialmente em períodos de seca. Não sei se existe também este controle da qualidade de vida de outros primatas na Floresta da Tijuca. Definitivamente, evito que os macacos tenham acesso ao alimento humano e não estimulo o contato. Abraços, Ricardo.

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  3. Muito legal! Espero que consigam mais bugios para reintroduzir na Tijuca. E que algum pesquisador se anime a determinar como vacinar os bujas contra febre amarela.

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  4. E o Maia? Contou o destino de todos, menos do Maia. Hanunan teve que ser retirado, assim como Cesar. Chico deixou de ser visualizado. Kala e Juvenal "casaram" e tiveram filho. E o Maia?

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  5. Muito boa esta história !… Excelente trabalho: muitas cutias, um primeiro filhote de bugio. Agora, aguardo o segundo capítulo dos bugios. E, por falar em refaunação, no quê deu o projeto com antas na REGUA ? … Parabéns por driblarem as dificuldades !

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