#saudades, Dilminha
Claudio Angelo
Coordenador de Comunicação do Observatório do Clima e autor de "A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a máquina do clima (Companhia das Letras, 2016)".

#saudades, Dilminha

Claudio Angelo
terça-feira, 16 maio 2017 6:31
Marcelo Camargo / Agência Brasil.
Marcelo Camargo / Agência Brasil.

 

Querida ex-presidente Dilma,

Jamais achei que fosse dizer isso um dia, mas estou com saudades do seu governo.

Não, não acho que você foi uma virtuosa que teve um grande trabalho interrompido por um “golpe” porque ousou confrontar “as elites”; nem sinto falta da “nova matriz macroeconômica”; e quero esquecer seu segundo mandato, conquistado à base de mentira e (agora sabemos) propina, vendendo a “Pátria Educadora” enquanto desmontava a ciência no país e produzia a bomba do crédito estudantil, para deleite dos empresários do ensino privado. Aquilo foi um escárnio, Dilminha. Mas passou, e é melhor que fique no passado. O que eu tenho saudade mesmo, e prometa que não vai rir de mim, é da sua política ambiental. Falei para não rir.

Tá, acho que nem você mesma se lembra da sua política ambiental. Então vamos recapitular.

Você foi a presidente que demarcou menos terras indígenas desde a ditadura. Até a véspera do impeachment, foi a que havia criado menos unidades de conservação. Não satisfeita, ainda tentou desfazer por Medida Provisória oito unidades criadas pelo Lula, para acomodar o insano complexo de hidrelétricas do Tapajós. Desafiando o bom senso e a matemática, moveu mundos e (muitos) fundos para fazer Belo Monte. Você tinha obsessão por hidrelétricas. Freud e a Lava Jato explicam.

Odiava fontes renováveis. Vetou o carro elétrico, que te parecia lobby de “estrangeiros”. Tesourou eólicas na nossa meta do Acordo de Paris, porque dizia que não dá para “estocar vento”. Esqueceu os biocombustíveis para investir no pré-sal. Achava que energia solar era “fantasia”.

Isso para não falar no Código Florestal, mudado sob orientação da Kátia Abreu, sua BFF e afilhada de casamento, para anistiar desmatadores.

Não parece um legado muito inspirador, né? Mas é tudo uma questão de perspectiva. Quando eu vejo o que o seu vice anda aprontando, percebo que você tinha duas coisas que ele não tem – e que fazem uma enorme diferença para a área socioambiental quando ela não é prioridade.

Uma é a inépcia. Seu governo era inepto, Dilminha, e isso teve um lado bom. Veja a questão indígena, por exemplo: o seu AGU bem que tentou frear demarcações futuras com aquela portaria. Depois a Gleisi (a “Amante”) ameaçou mudar a estrutura da Funai. Nada aconteceu direito. Tudo no seu governo ia e vinha tantas vezes que muita coisa ruim ficava incompleta.

Essa cara novo é o oposto: é eficiência pura. Paulista é tudo assim, né? Ele resolveu os índios no atacado – meteu no Ministério da Justiça o Osmar Motosserraglio, o relator da Proposta de Emenda à Constituição que acaba para sempre com a demarcação de terras indígenas no país. Desmontar o arcabouço de proteção aos índios em vigor desde a Constituição de 1988 custou ao seu vice uma canetada, Dilminha. Morra de inveja.

“E o pré-sal? A turma do “o petróleo é nosso” do seu governo embromou tanto com essa história de conteúdo nacional que o preço do barril caiu e o investimento fugiu. Seu vice passou o fim do monopólio de operação da Petrobras.”

E o pré-sal? A turma do “o petróleo é nosso” do seu governo embromou tanto com essa história de conteúdo nacional que o preço do barril caiu e o investimento fugiu. Seu vice passou o fim do monopólio de operação da Petrobras. Muita gente pode festejar, mas isso significa comprometer o Brasil com altas emissões de carbono nas próximas décadas.

Quer ver outro exemplo? A maldade de reduzir unidades de conservação por MP. As suas foram parar no STF, maldita seja essa procuradoria.

Esse cara mandou não uma, mas duas MPs para o Congresso alterando limites de áreas protegidas. Isso em plena alta de 60% no desmatamento na Amazônia nos dois últimos anos. Macho pacas. Ele queria cortar 305 mil hectares de uma Flona no Pará para distribuir terra a grileiros locais – coisas da política. Os parlamentares se encarregaram do resto. O que saiu de lá foi uma redução de 1,1 milhão de hectares de quatro unidades.

Aguarda votação também outra MP do seu vice que é o sonho dourado de meio Congresso Nacional: a que possibilita a anistia a todas as ocupações ilegais de terras públicas (leia-se “grilagem”) feitas entre 2004 e 2011. A MP se chama 759, mas tem cara e cheiro de 666. Vai ser aprovada por aclamação, duvida?

O que me traz à segunda característica importante do seu governo, ligada à primeira: ele era um saco de gatos. Tinha a Kátia Abreu e o PMDB mais odioso, mas também tinha o Cardozo e aqueles esquerdinhas dele – gente boa e comprometida com o serviço público. Tinha o Jucá (o “Caju”) e o Henrique Alves, mas tinha o PT mantendo algum verniz de equilíbrio no Congresso. Tinha o pessoal dos movimentos sociais, que morreu jurando que seu governo era democrático e popular. Por um lado isso era a garantia de que nada andasse e que você comesse o pão que o diabo amassou no Congresso. Por outro, justamente porque nada andava, os ruralistas e a indústria precisavam manter um pouquinho de superego.

Isso acabou. O novo governo é feito da Câmara, com a Câmara e pela Câmara. Mais da metade dos ministros são deputados ou ex-deputados. É até injusto dizer que o governo tem uma boa base no Congresso. Na verdade, é o Congresso que tem uma boa base no governo.

Isso torna o Executivo monolítico e refém das forças majoritárias no Parlamento – no caso, ruralistas, evangélicos e a direita armada, a tal bancada “BBB”. Para os direitos difusos e para minorias como índios e quilombolas, essa configuração é um desastre.

Pior: o viés privatista, introduzido por essa turma num necessário contraponto ao seu estatismo, encaixou-se nesse desenho político como a tampa da panela (hm, melhor não falar de panela com você). Interesses particulares e paroquiais operam sem filtro nenhum, sem transparência nenhuma e com poucas possibilidades de recurso, exceto à Justiça. Nesse espírito, o licenciamento ambiental pode ser mutilado por esses interesses nos próximos dias, enquanto o país inteiro está ocupado demais olhando os apelidos na planilha da Odebrecht.

Eu nunca te achei exatamente uma maravilha, Dilminha. Mas esse cara que você escolheu para te substituir me prova a cada dia que o Tiririca estava errado: pior do que está sempre fica.

* Atualizado às 22h, 17/05, para corrigir informação de que as reduções de UCs propostas por Dilma não foram postas em prática. As UCs to Tapajós foram de fato alteradas para acomodar hidrelétricas que não saíram, com subsequente compensação da área reduzida.

 

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30 comentários em “#saudades, Dilminha”

  1. Pra variar, Cláudio Ângelo dando um show de ciência política, chamando a bancada da bala de direita armada. Pra ele direita deve ser o PSDB, centro-esquerda o PT e esquerda o PSOL. A Rede deve ser a "terceira via" (e não um puxadinho do PT e dos petistas que estão pulando do barco).

  2. Francamente, o texto é de uma cretinice atroz, e seu autor "esquece" que este Congresso que está aí e as políticas anti-Natureza em curso são tudo produtos do nazi-fascismo PT. Realmente, a ideologia não deixa certos "ambientalistas" enxergar que o regime ladrão petralha foi o que de pior aconteceu na História brasileira para a Natureza… e não deixou saudades em ninguém com mais de dois neurônios em paralelo.

  3. regime nazi-fascismo PT ? acorde meu amigo. Deixe de enxergar o mundo com rótulos e volte pra realidade. O PT cometeu vários erros, mas atribuir ao partido toda responsabilidade que passa por instituições como: Câmara, senado e a justiça Brasileira é de uma mediocridade nunca vista.

    • Isso que está aí empesteando o Congresso e a vida nacional é produto direto do luLLismo dilmento. Só não vê quem não quer, por burrice ou porque ainda ganha uma mortadela aqui e ali.

  4. Eu já tive alguns comentários censurados e não publicados (moderador?) em O ECO.

    Mas permitir publicar esta pornografia, pináculo da ignorância, francamente…

  5. Excepcional texto. Certamente alguns não tem capacidade intelectual para compreender. Ainda devem estar seguindo o Kim no Facebook…Devem ser os mesmos que acham que o Dória é o máximo. Agora, santa ignorância política, achar que o que acontece agora é fruto exclusivamente dos últimos 15 anos de governo nacional do PT – extremamente ruim em diversos aspectos, por sinal – é de uma falta de capacidade de análise política grotesca. Há 20 anos atrás o desmate corria a rodo (muito, mas muito mais alto do que agora, e olha que o "agora" é uma subida de 60%) e nenhum deputado sequer se preocupava com limites de UC, pois não havia fiscalização e ninguém era incomodado. Ou acham que a bancada de 20 anos atrás era melhor do que a que existe agora? Por fim, para vocês que acham que o mundo está entre o PT-a-bandeira-vermelha e os salvadores-do-Brasil-minha-bandeira-é-verde-amarela, não conseguirão compreender porque, na recente votação da MP que desmontou as UCs da BR 163 (do Temer! Olhem só! Igualzinho a Dilma!), o Parque Nacional Nascentes Serra do Cachimbo só não foi desafetado por um destaque apresentado – olhem só! – pela bancada do PT…Difícil né…O mundo real está ai queridos, tentem compreender um pouquinho melhor.

        • Acorda vc, rapaz. Então já que vc não defende nada, porque criticar quem é contra o PT de "bandeira-verde-amarela"? Quer dizer que quem critica o PT também já é automaticamente a favor do Dória? Só sei que conheço bem esse tipo que se diz isento mas é esquerdista convicto…

  6. um bom testo para uma pobre e triste realidade. O pior ainda esta por vir, pq a bancada ruralista apunhalou o nosso ministro do MA, que por mais estranho que seja é um Sarnei e não é dos piores. Mas eles estão puxando o tapete dele e tudo indica que vão eliminar o licenciamento…e vão implementar a licença única…ou seja não tem mais necessidade de programas de monit, e qualquer que seja os programas posterior a emissão da Primeira licença que hj passa por pelo menos 3 processos LP, LI e LO…fora as renovações. NO novo sistemas vai bastar ter apenas uma ou seja a primeira LP (licença prévia). Vamos torcer para que isso não aconteça, pq desse jeito não vai sobrar nada pra amanhã…

  7. Nunca li um texto tão ruim no O Eco. Saudade do governo Dilma? Bom, Belo Monte (cria de Dilma) saiu no governo dela. Usina no Tapajós não saiu no governo Temer. Só aí já não dá para sentir saudade. Isso sem falar na diferença no MMA. Agora existe um ministro odiado por ruralistas, que pode perder algumas guerras, mas não amolece para o lado deles. Já Isabella…bom, eu nem vou comentar. Criticar o Temer e o que acontece hoje é bastante válido, óbvio, mas dizer que há saudade do governo Dilma é realmente um equívoco.

  8. Pelamordedeus…Usina no Tapajós não saiu no governo Temer porque grandes obras no Brasil são mega-fábricas de propina e os ladrões (do PT, do PSDB, do DEM, do PCdoB…) estão com bem mais cuidado de roubar no momento em que a lava-jato ocupa os noticiários e que pessoas como Marcelo Odebrecht estão presas há mais de 1 ano…Ah…MME, nos governos Lula e Dilma, eram feudos do PMDB, que é o mesmo partido que o Temer, pra informar-lhe…Um ministro odiado por ruralistas…É piada isso????? Sinceramente vc acha que os ruralistas estão ligando alguma coisa pro Sarneyzinho (que de fato é bom e comprometido, diga-se de passagem, apesar de ser um Sarney) quando o canal de interlocução deles é diretamente com o Padilha e com o Moreira Franco?????????? Acordem…

  9. Marina Silva eleita seria o pior dos mundos, pois num primeiro momento agradaria os "ambientalistas de Ipanema" e "desgarrados de São Thomé das Letras", mas ia fazer tanta besteira que seria presa fácil pro lobby rural e "desenvolvimentista" depois voltar num repiquete sem amarra, uma verdadeira POROROCA anti-ambiental…Pensem nisso!

  10. Sintomático do que virou este país é que um artigo sobre meio ambiente incite um pugilato sobre quem é mais burro, ladrão ou safado, se a dita direita ou a dita esquerda. Enquanto vocês puxam o cabelo do amigo e metem o dedo no olho do amigo, a motosserra trabalha. Vai aê, gente.

    • Esse papo maniqueísta de "amigo e inimigo" já devia ter sido superado pelo jornalismo sério e maduro. Agora, esse linguajar "Vai aê…", como dito lá em cima, coisa de estagiário do Yahrruim.

    • "Amigo"? Que "amigo"? O MST com quem "ambientalistas" se amasiaram pra combater o Temer enquanto esquecem que os "assentamentos" desmatam e massacram a fauna sem que ninguém diga um ai? Quem se faz de ambientalista pra defender ideologia furada e se calou durante 13 anos de desmonte ambiental do PT não é meu amigo, muito menos parceiro de luta. Ache outro viés pra defender um artigo ruim.

  11. Infelizmente os texto é muito infeliz. Primeiro, ser irônico não é para qualquer um, nem todos são um Veríssimo que sabemos de cor seu posicionamento. Segundo, usar de ironia nesse momento em que ninguém confia em partido nenhum e sabemos claramente que governantes administram o país em benefícios próprios.

  12. Você é um ingênuo, Cláudio Angelo? realmente tenho dúvidas
    A Dilma não escolheu o Temer, escolheram ele pra ela. O PMDB manda nesse país há décadas, desde o Sarney é esse o partido quem decide. Qualquer partido que entrar vai ter que "conversar" com o PMDB se não quiser ser alvo de chantagens e boicotes, como o Cunha fez assim que o PT não o apoiou no conselho de ética.
    Você deve ser fã da fadinha da floresta, não? o que ela fez de bom quando foi ministra, além de retalhar o Ibama para mudar as coisas pra pior?
    O que adiantou criar o Is. Chico Mendes? Melhorou alguma coisa? as UCs estão piores do que nunca, esse foi o legado da sua fadinha.

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