Samba de um bioma só

Aldem Bourscheit*
terça-feira, 3 novembro 2015 18:55
Foto: Christoph Diewald/flickr.
Apenas 20% do Cerrado ainda não viraram uma grande colcha de retalhos de matas. Foto: Christoph Diewald/flickr.

Marcada para começar neste fim de novembro, a conferência sobre mudanças climáticas de Paris faz crescer a expectativa por um acordo que trace o caminho para um futuro mais seguro para todos. Nesse sentido, é indiscutível o papel da Amazônia na regulação regional e global dos mecanismos do clima, e também no da conservação da biodiversidade. Mas, não se pode fechar os olhos para outros biomas** e para outras agendas socioambientais.

Discursos e ações oficiais, do setor privado e até do não governamental têm centrado esforços políticos e investimentos na floresta tropical, enquanto na prática e junto à opinião pública se minimiza a função climática, de conservação da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos de outras formações naturais.

Exemplos recentes, o Fundo Global para o Meio Ambiente anunciou US$ 115 milhões para gestão sustentável e corte de emissões de carbono, na Amazônia. As metas que o Brasil levará à conferência de Paris têm entre seus carros-chefes zerar o desmatamento ilegal até 2030, na Amazônia. E há poucos dias, recursos públicos foram usados para que o Governo Federal promovesse, em Londres, um… Dia da Amazônia, para apresentar nossa “política ambiental”.

Todavia, a Amazônia não é uma ilha. Ela não sobreviverá sozinha ao jogo das mudanças climáticas globais, ainda mais se persistir como alvo de projetos desenvolvimentistas que vêm lhe entregando fartamente hidrelétricas, rodovias e desmatamento. Quase 30 barragens para geração de energia estão planejadas para a região. O desmatamento cresce fortemente no entorno de canteiros de obras, como da polêmica usina de Belo Monte. Discurso e prática em conflito.

Enquanto isso, do Cerrado, chamado de caixa d´água do país e reconhecido como a savana mais rica em vida do planeta, já se consumiu a metade, especialmente para pastagens e monoculturas, como de soja. Apenas 20% do Cerrado ainda não viraram uma grande colcha de retalhos de matas, e menos de 3% dele estão efetivamente protegidos em parques nacionais e espaços semelhantes. Algo grave para uma região cujas águas ajudam a manter vivo o Pantanal e são responsáveis por boa parte da eletricidade que chega a nossas casas.

Além disso, as emissões de gases estufa por perdas de Cerrado já rivalizam com as oriundas do desmatamento e queimadas na Amazônia.

Riquezas naturais e humanas de outros biomas e dos ambientes costeiros e marinhos caíram no quase total ostracismo

Riquezas naturais e humanas de outros biomas e dos ambientes costeiros e marinhos caíram no quase total ostracismo, tornando-os alvos fáceis do incessante desmatamento e de modelos de desenvolvimento que poderão decretar sua extinção. Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa se tornaram “biomas de segunda categoria” em termos políticos, científicos e de investimentos para sua conservação frente à atenção nacional e internacional focada na Amazônia.

O Brasil assinou e ratificou uma séria de convenções e acordos internacionais destinados à manutenção da vida em suas infinitas formas, à preservação de áreas úmidas, à proteção de ambientes marinhos, à contenção da poluição e à conservação de ecossistemas terrestres, por exemplo. Tais contratos não fazem distinção entre nossos biomas, e corretamente cumpri-los exigirá do Poder Público um olhar mais abrangente sobre o território brasileiro. Antes que seja tarde.

Nosso sistema de parques nacionais e outros tipos de “unidades de conservação” é francamente concentrado na Amazônia. Ponto para a floresta. Enquanto isso, os demais ecossistemas têm graves falhas em proteção oficial, especialmente frente às metas internacionais que demandam o abrigo de 17% das formações terrestres e 10% das zonas costeiras e marinhas, até 2020. Nesse quesito, Pampa e ambientes marinho costeiros detêm o maior déficit de proteção.

Proteger e conservar adequadamente todas essas formações naturais não atenderá apenas à sobrevivência de plantas e animais, muitos ameaçados de extinção, mas também ajudará a oferecer clima adequado, espaços de lazer, turismo e geração de renda, água para geração de energia, agricultura e abastecimento público, meios de sobrevivência para populações tradicionais e um futuro realmente mais sustentável para todos os brasileiros.

Se o Brasil seguir tocando um samba de um bioma só, todos iremos dançar.

**O termo mais correto seria domínio biogeográfico, mas bioma está na boca do povo.

 

*Aldem Bourscheit é jornalista, especialista em Meio Ambiente, Economia e Sociedade.

 

 

 

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12 comentários em “Samba de um bioma só”

  1. Sem discordar da questão abordada no artigo, mas aproveitando o tema para lançar uma reflexão essencialmente técnica, já considerando que a definição de bioma não é natural, e sim uma convenção: seriam o Pantanal e o Pampa biomas em si? Sem demérito algum, não poderíamos considerar o primeiro um Cerrado que alaga sazonalmente, e o segundo uma formação aberta de Mata Atlântica?

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  2. É uma reflexão interessante. Entretanto, a dinâmica de alagação, apresentada pelo pantanal é bastante peculiar, o que, poderia sim, justificar uma separação do cerrado como outro bioma. Mas indubitavelmente oa biomas brasileiros não são ilhas.

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    • Não seria essa dinâmica equivalente àquela da várzea do Solimões, com a diferença de ser distribuída ao longo da calha do rio, enquanto no Pantanal é concentrada num "buraco"?

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  3. Oi gente, quanto aos biomas, tanto o Pantanal como o Pampa tem fisionomia e especies vegetais distintas. Olhando a Lista de Especies da Flora do Brasil da para a gente ter uma ideia melhor. Por exemplo no Pampa o predominio e de familias totalmente distintas das de outros biomas brasileiros. E por ai vai. Na verdade o Pampa apenas esta brasileiro (sua maior distribuicao na argentina e no uruguai) enquanto o Pantanal ocorre tambem no Paraguai e na Bolivia.

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    • Mas essa foi uma resposta padrão, retirada de qualquer livro-texto de biogeografia. Se tem diferença na biota até entre duas bacia hidrográficas vizinhas, é claro que vai ter entre os biomas oficiais. Mas até que ponto as diferenças e similaridades justificam separar ou juntar ambientes num bioma?

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  4. Parece questionamentos do sexo dos anjo, desculpe a franqueza. O que importa se é A ou B !, importa é que temos que impedir a detonação destes biomas , ecossistemas ou outro nome que queiram srs e sras. O poder público é omisso e adora uma cortina de fumação para esconder as suas responsabilidades.

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  5. "Nosso sistema de parques nacionais e outros tipos de “unidades de conservação” é francamente concentrado na Amazônia."

    OK, mas a extensão da área ocupada por vegetação nativa remanescente na Amazônia também é. A necessidade de um melhor planejamento da conservação de áreas em outros biomas é indiscutível. Mas defendê-la a partir da oposição direta entre ela e a necessidade de se preservar grandes áreas de floresta amazônica não é a melhor abordagem se pretendemos alertar o público e instigar autoridades a propor soluções. Cada "bioma" mencionado é muito distinto em termos de extensão geográfica, clima, hidrografia, biomassa, em endemismos e em complementariedade da biota e, principalmente, em relação à matriz de uso da terra na qual as áreas remanescentes se inserem. Assim, o planejamento da conservação de cada um deveria atender a objetivos e metas específicos, através de métodos específicos. Antagonizar a conservação de um bioma e a conservação do outro é uma simplificação muito perigosa.

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