Yara de Melo Barros
Coordenadora-executiva do Projeto Onças do Iguaçu e membro do Grupo de Especialista em Planejamento para a Conservação da IUCN (CPSG Brasil).

Podemos falar sobre trevas ou apontar o caminho da luz

Yara de Melo Barros
quarta-feira, 8 janeiro 2020 18:00
Contação de histórias ambientais pode ajudar a espalhar ideias para salvar o planeta. Foto: Pixabay.

Para quem trabalha com conservação é sempre um desafio chamar a atenção das pessoas para os problemas ambientais e provocar a tão necessária mudança de comportamento: consumo consciente, estilo de vida que impacte menos o planeta, resgate da empatia e por aí vai.

Uma das questões é: como comunicar essa mensagem? Geralmente usamos um tom alarmista, tentando transmitir urgência (porque a urgência é real), mas aí a linguagem catastrofista acaba assustando e fazendo com que as pessoas criem um bloqueio e evitem se conectar com a mensagem. O estilo de comunicação “a temperatura está aumentando, o gelo derretendo e vamos todos morrer” (apesar de ser um fato) não seria muito eficiente para provocar o desejo de mudar, de agir.

Um texto bem bacana mostra como a “Contação de Histórias Ambientais” pode ajudar a espalhar ideias para salvar o planeta. O texto indica que tentar provocar mudança de comportamento através de medo é contraproducente, pois as reações vão de ansiedade a depressão, o que leva à negação e desesperança.

Com as histórias positivas as pessoas se sentiram inspiradas pelas ações dos personagens e com vontade de fazer alguma coisa também. Foto: Pixabay.

Já as histórias com foco nos resultados positivos de ações tomadas para resolver problemas inspirariam e motivariam à ação.

Realizaram um estudo com 91 voluntários, que receberam duas histórias para ler, cada uma com um impacto negativo das mudanças climáticas (uma sobre uma mulher pega em uma enchente e outra situada no fim do mundo). 

Os mesmos leitores também receberam duas histórias positivas, uma sobre um terrorista plantando uma bomba de flores, que povoou uma área desmatada com flores e outra sobre um jovem que após assistir Blue Planet começou a coletar plástico para impedir que chegasse aos oceanos.

Após a leitura, perguntaram para os voluntários o que os textos os fizeram sentir e que tipo de comportamento eles inspiraram.

As histórias negativas motivaram poucas pessoas. Raiva, desespero, desconexão, desesperança….foi o que foi provocado de modo geral.

“Talvez uma de nossas principais missões como conservacionistas seja mostrar a beleza deste mundo que merece ser preservado, para que as pessoas possam se conectar e se apaixonar pela natureza novamente. ”

As histórias positivas tiveram uma aceitação diferente. As pessoas se sentiram inspiradas pelas ações dos personagens e com vontade de fazer alguma coisa também. E fez pensar no que cada um poderia fazer.

Ao invés de gerar o fatalismo passivo, as histórias com bons exemplos de ação foram inspiradoras.

Esse é o mesmo princípio da campanha da IUCN “Love not Loss” (Amor e não Perda). A premissa da campanha é que não devemos focar no que está errado – extinção, perda de hábitat, escassez de recursos – e sim no que nós amamos.

Talvez uma de nossas principais missões como conservacionistas seja mostrar a beleza deste mundo que merece ser preservado, para que as pessoas possam se conectar e se apaixonar pela natureza novamente. Sim, eu sei que isso é piegas. Mas sem conexão não rola ação, e quem mais que nós, que somos apaixonados por biodiversidade, para despertar esse amor nas pessoas?

É fato que precisamos chamar a atenção para o perigo da extinção de espécie, da degradação de hábitats, das mudanças climáticas… mas também é imperativo que “quando falarmos de trevas, apontemos o caminho da luz”.

Uma boa reflexão para começar o ano é se estamos contando “histórias de amor” e inspirando. Pensar como podemos, na área de atuação de cada um, construir uma conexão pessoal entre pessoas e natureza.
Bora tentar?

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2 comentários em “Podemos falar sobre trevas ou apontar o caminho da luz”

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