Lucas Ferrante
Doutorando em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

Passando a boiada no Pantanal, o boi não é “bombeiro” é ameaça ao bioma

Lucas Ferrante
quarta-feira, 14 outubro 2020 11:09
Boi não é bombeiro e sim nocivo às vegetações nativas do Pantanal e da Amazônia. Foto: Duda Menegassi

Esta semana, a Ministra da Agricultura Tereza Cristina, o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e o Chefe da Embrapa Evaristo de Miranda, manifestaram na mídia que o boi seria o “bombeiro” do Pantanal, informação completamente falaciosa. Tal teoria também foi defendida pelo filho do presidente Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, em vídeo com o biólogo (sem nenhuma qualificação no tema) e embaixador do ecoturismo brasileiro, Richard Rasmussen.

A Ministra da Agricultura, já havia defendido a abertura de terras indígenas e unidades de conservação à pecuária no ano passado, ignorando toda a literatura científica que mostra o quão nocivo a pecuária seria para a estrutura da floresta e para fauna local. Quando a Ministra defendeu tal abertura, eu publiquei aqui em ((o)) eco, uma coluna explicando com base em artigos científicos de estudos que coordenei o quão prejudicial a pecuária é para a estrutura da floresta e fauna. Dado que cientificamente, já tem sido comprovado que a atual gestão do presidente Bolsonaro tem tomado medidas que fragilizam o meio ambiente, como mostrado em um artigo publicado na revista científica Environmental Conservation, que é editada pela Universidade de Cambridge. É importante desvendarmos através da ciência estas fake news que fragilizam a proteção dos biomas brasileiros em detrimento de uma expansão agropecuária insustentável.

De fato, as declarações de Tereza Cristina, Ricardo Salles e Evaristo de Miranda sobre o “boi bombeiro” são anticientíficas e apenas conversa para “boi dormir”. Em artigo publicado na revista Journal of Biogeography em 2017, foi confirmado que a pecuária é o cultivo mais nocivo para a estrutura da vegetação natural e para a composição da fauna. O estudo mostrou que o pisoteio causado pelo gado destrói a vegetação natural, tornando-a rala e mais seca, onde o microclima destas áreas consequentemente era afetado. O estudo mostrou que o gado era responsável por causar a mortalidade de árvores e abertura de clareiras, além da presença do gado destruir a vegetação nativa e o pisoteio dos animais assorear corpos d’água e nascentes, e impedir o recrutamento de novas plantas na área, mantendo apenas a vegetação rasteira. Esta degradação da vegetação tende a torná-la mais seca, o que por si, já causa uma grande degradação aos biomas, mas também potencializa o risco de incêndios, tornando o boi, não o herói, mas um dos vilões.

Fortes incêndios no Pantanal são uma combinação entre fatores climáticos e humanos. Foto: Iberê Périssé/Projeto Solos

Outras pesquisas mostram que o fogo não é natural tanto para o Pantanal como para a Amazônia, de forma que a vegetação seca e rasteira, favorece a propagação das chamas. Além disso, a Polícia Federal encontrou evidências de que os incêndios no Pantanal foram criminosos e causados por fazendeiros.

Um dos pontos da falácia defendida por Salles e Tereza Cristina, é de que haveria uma diminuição da pecuária no Pantanal o que teria aumentado os incêndios, o que é uma mentira, uma vez que a área utilizada para agricultura e para rebanho bovino triplicou no bioma nos últimos 30 anos. De fato, se olharmos apenas para os últimos anos, tanto a área de pastagens como o tamanho dos rebanhos aumentaram para o Pantanal. Além disso, mesmo do ponto de vista do desenvolvimento econômico, não é justificável a expansão da pecuária em áreas da Amazônia e Pantanal, pois existem terras ociosas em outras partes do país que permitem o aumento da produção sem que a pecuária avance sobre estes biomas, como demonstrado no estudo publicado pela revista Global Environmental Change por pesquisadores da PUC e da Embrapa.

Afirmações como a do “boi bombeiro” por pessoas ocupando cargos tão importante como o Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente, denotam o viés ideológico e nada científico pelos ocupantes destes cargos. A destruição ambiental, como aumento de queimadas e desmatamento, resultante do sucateamento ambiental propiciado pelo Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, tem influenciado negativamente inclusive acordos internacionais importantes para o Brasil. Um destes resultados foi a oposição da União Europeia em ratificar acordos comerciais com o Mercosul devido a atual política ambiental brasileira.

Salles, Tereza Cristina e Bolsonaro estão arruinando não apenas a proteção ambiental ao defender falácias para tentar justificar uma política anti-ambiental, mas também acordos internacionais importantes para o agronegócio. Mentiras como o “boi bombeiro” em conjunto com o negacionismo científico e o sucateamento ambiental proposital que tem ocorrido são ações ideológicas do atual governo, que tem inclusive um potencial nocivo de afetar o agronegócio brasileiro não apenas pela perda de acordos internacionais, mas por alterações climáticas que afetam áreas de cultivo nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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2 comentários em “Passando a boiada no Pantanal, o boi não é “bombeiro” é ameaça ao bioma”

  1. Chama a atenção na matéria o fato do autor tratar dos inegáveis danos da atividade pecuária às FLORESTAS. Considerando que a fitofisionomia predominante do Pantanal não ser florestal (ocupam menos de 6% do bioma) e considerando que as fitofisionomias CAMPESTRES dependem necessariamente da HERBIVORIA, não estaria o autor – com clara experiência amazônica – subestimando o passado histórico da pecuária extensiva pantaneira (diferente deste atual rebanho assentado em pastagens cultivadas)?
    Como explicar a presença por mais de 200 anos da atividade por ele condenada, quando não se tem históricos de catástrofes sequer parecidas com a atual, ou o grande incêndio de 2016 (justamente na RPPN do Sesc?
    para reflexão..

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    • Importante suas considerações Ramiro, Veja que o MapBiomas (https://plataforma.mapbiomas.org/) fornece dados com precisão da cobertura florestal para cada bioma, inclusive o Pantanal. Podemos observar que os tipos de vegetação predominantes no pantanal de acordo com o MapBiomas (https://plataforma.mapbiomas.org/) são florestas ou formações vegetais não florestais, como os campos mencionados por você. Embora a formação não florestal (52,43) seja quase o dobro da florestal (28,78%), as considerações se aplicam também para as áreas de savanas e campos. Veja que um problema é iniciar os incêndios para remover a vegetação natural e depois ocupar com a pecuária, o que coincide com o aumento do rebanho bovino no bioma e nas áreas queimadas dos anos anteriores também. Entenda também que as escalas de produção da pecuária pantaneira estão mudando, não se pode comparar a pecuária feita a 200 anos onde o intuído era apenas abastecer o mercado interno com a pecuária que visa atender o mercado internacional e tem aumentado exponencialmente nos últimos anos como mostra o texto, isso explica muito bem os 200 anos de atividades e aumento das queimadas. Temos que tem em mente, que são vários fatores que aumentam as queimadas além da pecuária, como mudanças climáticas e também o avanço da soja, são vários motores atuando em sinergia. Sobre os incêndios na RPPN do Sesc, tanto de 2016 como em 2017, um dos fatores já levantados como causa é a queima criminosa ou outras fontes de fogo antrópica que ocorreram fora da área da reserva e depois se alastra atingindo as área da RPPN, como abordado em matérias do próprio Sesc Pantanal (https://sescpantanal.com.br/noticia.aspx?noticia=16) e G1 (https://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/bombeiros-combatem-incendio-na-maior-reserva-particular-do-pais-localizada-no-pantanal-em-mt.ghtml).

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