Caroline Leuchtenberger e Abigail Martin
Caroline Leuchtenberger é bióloga, coordenadora do "Projeto Ariranhas" e professora do Instituto Federal Farroupilha, Campus Panambi, RS. Abigail Martin é coordenadora do "Jaguar Identification Project"

Na terra dos grandes predadores, viver em grupo faz muita diferença

Caroline Leuchtenberger e Abigail Martin
terça-feira, 28 janeiro 2020 17:07
A onça Ãgue rechaça o grupo de ariranhas. Crédito: Tuomas Kirjavainen.

No último dia 19 de setembro, como ocorre diariamente na região do Porto Jofre, no Pantanal Norte, turistas observavam uma das onças-pintadas conhecidas na região (@jaguaridproject). Tratava-se de uma fêmea, denominada “Ãgue”, a qual vinha sendo observada há algumas semanas próxima a um grupo de ariranhas, formado por três adultos e dois filhotes de aproximadamente 3 meses. Como pesquisadoras do Projeto Ariranhas (@projetosariranhas), vínhamos monitorando a toca do grupo com armadilha fotográfica e, na semana anterior, “Ãgue” foi registrada vistoriando a abertura da toca, enquanto o grupo estava no seu interior (Veja o vídeo abaixo).

Outras interações entre “Ãgue” e as ariranhas já haviam sido reportadas por turistas e, por isso, o grupo foi identificado como “jaguar group” ou “grupo onça”. No entanto, no dia 19 a interação foi diferente. “Ãgue”, que estava no barranco sobre a toca do grupo de ariranhas, esperou o momento exato em que um dos filhotes saiu da água e… deu um bote certeiro. Ela abocanhou o filhote e subiu rapidamente o barranco, fugindo de um dos adultos que instantaneamente a perseguiu. No entanto, ao subir o barranco, o filhote caiu de sua boca. Depois de alguns segundos de interações agressivas entre “Ãgue” e as ariranhas, um dos adultos conseguiu resgatar o filhote, já sem vida (Veja o vídeo abaixo).

Apesar de onças-pintadas serem consideradas um potencial predador para ariranhas, este foi o primeiro registro de ataque presenciado por um observador, no caso, por vários observadores. O primeiro e único registro oficial de predação de onça-pintada a uma ariranha ocorreu na Amazônia em 2012 [dos Santos Ramalheira et al., 2015]. Na ocasião, parece que a onça-pintada surpreendeu uma fêmea de ariranha que vivia solitária e se refugiava dentro de um tronco de árvore em uma ilha no reservatório de Balbina, Amazonas. Essa fêmea era monitorada por telemetria, e a predação só foi constatada dias após o evento, através do sinal de mortalidade do transmissor. No local da predação, os pesquisadores encontraram a carcaça do animal abatido junto a inúmeros rastros de onça.

Ao contrário dos adultos, filhotes de ariranhas são muito mais suscetíveis à predação, em especial nos primeiros meses de vida, quando ainda não são ágeis o suficiente para acompanhar o grupo em suas excursões aquáticas. No Pantanal, há registros de predação de filhotes de ariranhas por jacarés [Schweizer, 1992]. No entanto, o contrário também pode ocorrer, e jacarés adultos podem ser predados por ariranhas [Ribas et al., 2012].

Interações agonísticas entre onças-pintadas e grupos de ariranhas, denominadas tecnicamente como “mobbing”, são comuns e bem características [Leuchtenberger et al., 2016].

Em geral, a onça, que está no barranco, é rechaçada pelas ariranhas, que estão na água. Durante o mobbing, o grupo de ariranhas utiliza vocalizações e posturas intimidadoras, que geralmente espantam o predador. Diferente de outros carnívoros, ariranhas não pescam cooperativamente e não compartilham alimento. Eventualmente, adultos compartilham peixes com filhotes que estão aprendendo a pescar. Assim, a coesão do grupo durante eventos de mobbing, bem como o empenho do “jaguar group” em resgatar o filhote do predador, demonstram a importância da vida social em ariranhas para se defender de predadores. Além disso, viver em grupo parece ter uma vantagem importante para defender territórios de grupos intrusos de ariranhas. Encontros agonísticos entre grupos de ariranhas são comuns e podem levar a ferimentos graves e até à morte de indivíduos ou desintegração de grupos. Além disso, grupos maiores parecem ter acesso a territórios melhores e têm maior sucesso reprodutivo, ou seja, garantem uma maior sobrevivência dos filhotes.

Ãgue com o filhote de ariranha na boca. Crédito: Tuomas Kirjavainen.

Aliado a isso, o hábito fossorial, ou seja, o comportamento de se refugiar em tocas, também aumenta a proteção contra predadores. A predação da fêmea de ariranha por onça-pintada em Balbina provavelmente não teria ocorrido se essa fêmea vivesse em um grupo ou ainda se ela tivesse se refugiado em uma toca. Da mesma forma, as ariranhas parecem confiar na segurança conferida pelas tocas, pois é muito comum os adultos deixarem os filhotes sozinhos nas tocas durante as atividades de pesca e patrulhamento de território. Se a segurança conferida pelas tocas não fosse verdadeira, provavelmente “Ãgue” já teria predado algum dos filhotes em suas investidas na toca do “jaguar group”.

Mas apesar de toda a força e inteligência que grupos de ariranhas detêm em se proteger de predadores e de grupos rivais, ariranhas ainda são uma das espécies de lontras mais ameaçadas de extinção do mundo. A espécie que, historicamente, foi quase extinta pela caça comercial por causa do valor de suas peles, hoje é ameaçada pela perda e degradação do seu habitat, que são rios e corpos d’água que ainda mantém excelentes condições de conservação e recursos alimentares, no caso, peixes. Além disso, populações isoladas sofrem com o abate indiscriminado, tráfico ilegal de filhotes e conflitos com humanos. Pescadores, em especial, percebem a espécie como um potencial competidor ou ainda acreditam que a espécie interfere no sucesso da pesca.

Grande, social, diurna e extremamente carismática, ariranhas são um potencial atrativo para atividades turísticas, as quais, quando conduzidas de forma irregular, também podem ameaçar a espécie. Durante os primeiros meses de vida dos filhotes, o tráfego e a proximidade de embarcações às áreas de refúgio podem afetar a sobrevivência dos filhotes, ou ainda, levar alguns grupos a abandonar seus territórios. Áreas como o Pantanal, que permitem a observação de interações raras e intensas como entre “Ãgue” e o “jaguar group”, demonstram o potencial do turismo de contemplação da vida silvestre para aliar desenvolvimento econômico e conservação da biodiversidade. No entanto, temos um caminho ainda longo para que o Brasil seja referência na condução de um turismo de vida selvagem bem manejado e sustentável.

Filhotes são alvos fáceis para predadores. Crédito: Tuomas Kirjavainen.
Referências:

dos Santos Ramalheira, C., Bozzetti, B. F., da Cruz, A. D., Palmeirim, A. F., Cabral, M. M., & Rosas, F. C. (2015). First record of jaguar predation on giant otter (Pteronura brasiliensis). Animal Biology, 65(1), 81-86.

Leuchtenberger, C., Almeida, S. B., Andriolo, A., & Crawshaw, P. G. (2016). Jaguar mobbing by giant otter groups. acta ethologica, 19(2), 143-146.

Ribas, C., Damasceno, G., Magnusson, W., Leuchtenberger, C., & Mourão, G. (2012). Giant otters feeding on caiman: evidence for an expanded trophic niche of recovering populations. Studies on Neotropical Fauna and Environment, 47(1), 19-23.

Schweizer, J. (1992). Ariranhas no Pantanal: Ecologia e comportamento da Pteronura brasiliensis. EDIBRAN.

 

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5 comentários em “Na terra dos grandes predadores, viver em grupo faz muita diferença”

  1. Ao ler esse fascinante registro pensei naquele velho dito, tão verdadeiro, da conservação: "a gente só protege o que ama, e só ama o que conhece". Obrigado, Caroline e Abigail, por nos ajudarem a conhecer essas maravilhas. Ótimo texto e excelente vídeo, parabéns!

    Fernando

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