Rita de Cássia Quitete Portela e Amanda Souza dos Santos
Rita Portela é professora adjunta do Instituto de Biologia da UFRJ e Amanda dos Santos é aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Departamento de Ecologia, Instituto de Biologia, UFRJ.

Muito macaco para pouco palmito

Rita de Cássia Quitete Portela e Amanda Souza dos Santos
domingo, 29 outubro 2017 12:35
O excesso de macaco-prego em Poço das Antas pode levar a extinção local da palmeira Juçara. Foto: Wikipédia.
O excesso de macaco-prego em Poço das Antas pode levar à extinção local da palmeira Juçara. Foto: Wikipédia.

Durante o ano de 2006, quando já realizávamos trabalho de campo na Reserva Biológica de Poço das Antas, no município de Silva Jardim, Estado do Rio de Janeiro, começaram a surgir  palmitos Juçara (Euterpe edulis) mortos, com a copa desfolhada e o palmito comido. A princípio, as únicas fontes de informação sobre o que estava acontecendo com os palmitos eram o nosso ajudante de campo e os funcionários da reserva. Eles nos diziam que quem estava matando os palmitos era o Sapajus nigritus, o carismático e inteligente macaco-prego. Para confirmar que era isso mesmo que estava acontecendo, instalamos dez câmeras a cerca de 10 metros de altura do chão da floresta direcionadas para o palmito, e as deixamos por sete meses. O resultado foram dezenas de filmes do macaco-prego destruindo a palmeira e se alimentando do seu palmito.

Com a diminuição do número de indivíduos de Juçara ano após ano, fomos procurar entender o que estava acontecendo com o macaco-prego na reserva. Descobrimos que o primata se encontra com uma abundância muito grande (superabundância) na reserva. Ou seja, a reserva tem muito macaco para pouco palmito. Mas por que isso estaria acontecendo? Existem duas possíveis explicações: não há mais espécies capazes de predar e/ou de competir por recursos com o macaco-prego na área. Com a sua grande abundância e com dificuldades de encontrar recursos na floresta, de alguma forma os macacos-prego descobriram que há palmito na Juçara e que o palmito é nutritivo e muito gostoso. A esse fenômeno de superabundância de uma espécie de primata estamos dando o nome de primatização e definimos este fenômeno como: predominância de uma espécie de primata em uma área natural que pode causar impactos em outras espécies e levar a mudanças na floresta.

Palmeira Juçara (Euterpe edulis) está na lista vermelha de espécies da flora ameaçada de extinção. Foto: Rita Portela.
Palmeira Juçara (Euterpe edulis) está na lista vermelha de espécies da flora ameaçada de extinção. Foto: Rita Portela.

A palmeira Juçara é considerada vulnerável à extinção por conta da perda do seu habitat e também da intensa exploração para a retirada de seu palmito, muito apreciado na culinária de outro primata: o ser humano. Levando à extinção local no interior de uma Reserva Biológica uma espécie já ameaçada, o problema da superabundância dos macacos-prego pode ser ainda mais sério por conta das possíveis consequências para a floresta. Muitos estudos já apontaram a importância da Juçara em algumas áreas de Mata Atlântica, onde a palmeira frutifica durante longos períodos do ano, e seus frutos, em alguns casos, podem ser considerados o “arroz com feijão” para muitas espécies. Assim, uma possível consequência seria a escassez de alimentos para outras espécies da fauna, levando possivelmente ao desaparecimento destas espécies, o que deixaria algumas funções ecológicas vagas. Outra possível consequência, um pouco mais sutil, mas igualmente desastrosa, é a dificuldade de atração de fauna dispersora de sementes para as áreas onde as populações de Juçara não estiverem presentes. A palmeira tem o potencial de atrair a fauna dispersora de sementes por conta da sua frequente disponibilidade de frutos, mesmo quando ainda não estão maduros. Os animais atraídos dispersam as sementes da Juçara e se alimentam e dispersam sementes de outras espécies de arbóreas que ocorram na mesma área. No longo prazo, pode ocorrer mudança das espécies vegetais na floresta pela falta dos dispersores.

Um estudo para a avaliação de possíveis impactos nesta floresta já está em curso, porém, é seguro afirmar que, caso não ocorra um manejo da população de macacos-prego na reserva, a população de Euterpe edulis poderá se tornar localmente extinta. Este estudo em andamento pretende demonstrar como as atividades humanas têm a capacidade de impactar a floresta para muito além do que é visual, imediato e previsível. Além do estudo em andamento, há estudos em outras áreas de Mata Atlântica que podem vir a confirmar que a primatização não é um fenômeno restrito à apenas uma região; é um problema generalizado em áreas onde as populações de primata estão fora de controle. Se isto se confirmar, será um grande problema para a já tão preocupante perda de biodiversidade na Mata Atlântica.

Há ainda outra grande preocupação com esta superpopulação de macacos-prego, com consequências para a saúde humana. No começo do ano de 2017, o Rio de Janeiro sofreu um “surto” de epidemia de febre-amarela, com oito mortes registradas no Estado. Macacos-prego são resistentes à infecção pela doença, porém, se mantém como hospedeiros para o vírus e, sendo uma espécie tão bem distribuída pelo Estado, com grandes populações em áreas urbanas como a Floresta da Tijuca, estas superpopulações causam grande preocupação quanto ao alastramento da epidemia de febre-amarela.

O biólogo norte-americano Daniel H. Janzen escreveu uma frase muito famosa no seu artigo publicado na revista Natural History em 1974: “O que escapa do olho… é um tipo de extinção muito mais insidiosa: a extinção das interações ecológicas.” Esta sentença de Janzen permanece bastante atual. Mas a primatização é não só a extinção de uma interação ecológica, como também uma interação descontrolada entre duas espécies que pode levar uma delas à extinção local. Possivelmente, esse descontrole foi iniciado pela extinção de uma interação predador-presa ou da interação competição. Ou seja, ela pode ser considerada um desdobramento da preocupação de Daniel H. Janzen. Portanto, estudos sobre a primatização são importantes e urgentes tanto para a saúde da Mata Atlântica e a conservação da sua biodiversidade quanto para a saúde humana, e não poderia ser mais urgente o olhar sobre esse fenômeno e seus possíveis desdobramentos.

 

 

Rita de Cássia Quitete Portela é bióloga e desde 2005 acompanha populações de palmito em diferentes áreas da Mata Atlântica.
Amanda Souza dos Santos é mestranda da UFRJ e está interessada em saber como a floresta vai se comportar sem a presença do palmito.

 

 

Leia Também 

Tem macaco novo na Floresta da Tijuca

Old Blue, um macho e um neozelandês intrometido

As deusas do vento – Parte I

 

 

 

13 comentários em “Muito macaco para pouco palmito”

  1. Parabéns às autoras! Não basta fazer pesquisa de qualidade! É preciso dialogar com a sociedade sempre! Talvez isso possa ajudar a diminuir o impacto que outros primatas menos simpáticos estão causando sobre os processos ecológicos da Terra…

    Responder
  2. Acho meio irresponsável algumas falas do texto. Mas vou dar um voto de confiança às autoras e vou pedir as publicações que informam duas coisas citadas:

    1) Superdensidade de macaco prego na REBIO Poço das Antas

    2) Dieta dos macacos prego na REBIO Poço das Antas (mostrando que realmente eles estão acabando com os palmitos

    3) macaco prego como hospedeiro "eterno" de vírus da febre amarela.

    No aguardo…

    Responder
    • Ola Waldney,
      Vamos as respostas.
      1) Me baseei nesse artigo: Araújo, R.M., Souza, M.B. & Ruiz-Miranda, C.R. 2008. Densidade e tamanho populacional de mamíferos cinegéticos em duas Unidades de Conservação do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Iheringia 98: 1-6. Nele a estimativa da densidade de Prego em Poço das Antas é de 66 ind/km2. Bem maior do que em outras áreas da Mata Atlântica.
      2) Temos dados empíricos de campo como o vídeo publicado na matéria. O indivíduos de palmito morto pelo prego tem características bem claras como folhas arrancadas e palmito comido ou a copa toda arrancada e o palmito comido.
      3) Me baseei nesse artigo: Davis (1939): American Journal of Epidemiology, Volume 11, Issue 2, 1 March 1930, Pages 321–334. Além de conversa com pesquisadores da Fiocruz. O prego, assim como outros primatas, é hospedeiro do vírus da febre amarela. Por isso muitos primatas morrem da doença. A mesma coisa que acontece com a gente.
      Se quiser, posso te enviar os artigos e fotos do palmito predado pelo prego.

      Responder
  3. Ola Waldney,
    Vamos as respostas.
    1) Me baseei nesse artigo: Araújo, R.M., Souza, M.B. & Ruiz-Miranda, C.R. 2008. Densidade e tamanho populacional de mamíferos cinegéticos em duas Unidades de Conservação do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Iheringia 98: 1-6. Nele a estimativa da densidade de Prego em Poço das Antas é de 66 ind/km2. Bem maior do que em outras áreas da Mata Atlântica.
    2) Temos dados empíricos de campo como o vídeo publicado na matéria. O indivíduos de palmito morto pelo prego tem características bem claras como folhas arrancadas e palmito comido ou a copa toda arrancada e o palmito comido.
    3) Me baseei nesse artigo: Davis (1939): American Journal of Epidemiology, Volume 11, Issue 2, 1 March 1930, Pages 321–334. Além de conversa com pesquisadores da Fiocruz. O prego, assim como outros primatas, é hospedeiro do vírus da febre amarela. Por isso muitos primatas morrem da doença. A mesma coisa que acontece com a gente.
    Se quiser, posso te enviar os artigos e fotos do palmito predado pelo prego.
    Abraços, Rita.

    Responder
    • Caras pesquisadoras, não se preocupem com os "questionamentos" desse tal de Waldney…é apenas mais um "Petersingueiro", para quem ecologia é uma ideologia, ao invés de uma ciência!

      Responder
      • FR? Kkkkk
        Um cara que se esconde é difícil responder.
        Enfim, tem alguns artigos mais recentes a respeito do febre amarela que não constam essa informação. De fato os macacos prego são mais resistentes a febre amarela, mas ela NÃO fica "armazenada" no macaco para que ele possa infectar os mosquitos. Quando me referi a maneira "irresponsável" é que trabalho junto com uma grande equipe de primatologos tentam desmitificar o fato dos primatas não humanos (PNH)serem responsáveis pela FA e sua matéria diz o.contrário!!! Muitos ignorantes (tipo FR) leem uma coisa dessas e inicia uma "matança" aos PNH, sendo que eles são considerados sentinelas. Ou seja, avisam se naquela região o.vírus está circulando.

        Sobre o tema principal da matéria, também considero leviano vc AFIRMAR que os macacos estão dizimando a população de palmito apenas com observação. Eu trabalho.especificamente com macaco prego e posso te dizer (não afirmar pq não fiz nenhum estudo mais aprofundado com o tema) que eles não vão extinguir os palmitos. A retirada pelos humanos é algo bem mais drástico.

        Enfim, a discussão é longa…

        Abraços

        Waldney

        Responder
        • Ola Waldney,
          obrigada por suas observações.
          Se vc puder me passar esses artigos ou citações mais recentes sobre FA e primatas não Humanos, te agradeço! Busquei bastante e o único que mostrou uma relação direta entre pregos e FA foi o que eu citei para vc. Não ficar armazenada não quer dizer que os mosquitos não possam se infectar. Primatas não humanos são de fato ótimos sentinelas, principalmente os bugios. Na matéria não está escrito que eles são responsáveis, está escrito que eles são hospedeiros. Assim como nós. Eles NÃO são reservatórios.
          Waldney, essa matéria é baseada em método e dados científicos. Trabalho na área desde 2005. Não é baseada em observações casuais. As conclusões que estamos chegando é baseada em dados coletados por métodos científicos. Em muitas áreas a retirada por Humanos foi e é de fato MUITO mais impactante ao palmito do que o consumo pelos pregos. Mas isso não é o que está acontecendo na Reserva Biológica Poço das Antas.
          Se quiser, me passa o seu contato que continuamos essa discussão por email. Vc é primatólogo aqui no Rio? Teria interesse em ir a Poço das Antas? Podemos marcar.
          Abraços, Rita.

          Responder
  4. Oi Rita.

    Posso te passar sim os artigos. Sou primatólogo em Minas, mas conheço muita gente que trabalha em Poços das Antas. Conhece a Cecília Kierulff? Apesar de conhecer muita gente de Poços das Antas, da AMLD, etc, nunca fui lá. Vamos ver se um dia consigo agendar para ir lá.

    Fiquei interessado em saber qual o método utilizado para medir esse impacto dos macacos prego. Anota meu email aí: wpmonkey@yahoo.com.br

    Abs

    Waldney

    Responder
  5. Tenho uma área de preservação de mata Atlântica no Município de Dom Pedro de Alcântara, litoral do RS e também estou tendo muitas plantas de palmito Jussara sendo destruídas pelos Macacos Prego que surgiram na região, já faço o replantio de espécies nativas, como o Jussara, a solução é aumentar a quantidade de Jussara, mas são bem vindos estes primatas, que a muito tinham desaparecido da região.

    Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.