Miguel Milano
Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciências Florestais. Esspecialista em sustentabilidade, foi professor da UFPR e professor visitante da Colorado State University.

Mr. Trump ou “nada é tão ruim que não possa piorar”

Miguel Milano
terça-feira, 4 abril 2017 0:51
Foto: Gage Skidmore/Flickr.
Foto: Gage Skidmore/Flickr.

Não é de admirar que o Sr. Trump, presidente estadunidense, tenha tomado a iniciativa destrambelhada, para usar um adjetivo pouco agressivo, de desmontar a política americana de combate às mudanças climáticas estabelecida por seu antecessor. De admirar é o fato de ele ser o presidente do país mais poderoso do planeta em termos econômico, científico e militar – este um comentário apenas para lembrar que não é só na América Latina ou na África que acontecem tragédias eleitorais, e que quando estas acontecem desastres em cadeia também podem acontecer.

Faz poucos dias o senhor Trump foi derrotado na sua primeira grande batalha legislativa, a tentativa de desmontar o sistema público de saúde do país, conhecido como Obamacare. Imediatamente voltou-se contra seu segundo grande alvo eleitoral: tudo e qualquer coisa relacionados a prevenir e mitigar efeitos das mudanças climáticas globais, que ele não crê existir. Por meio de ato executivo, porque via legislativo talvez encare sua segunda grande derrota, o Sr. Trump deu início a mudanças nas regras de um jogo já em curso que colocavam os Estados Unidos nos trilhos do necessário ajuste para enfrentar o problema. Há quem acredite ser esse o passo inicial para a retirada do país da convenção do clima da ONU, embora seja certo que isso não acontecerá sem renhida luta política judicial interna. Mas nada a estranhar até aqui considerando-se os passos do presidente desde sua posse, que mostra sempre que seu discurso eleitoral é também o seu perigoso mapa de rota, uma verdadeira bíblia sagrada, de um mandato que pode não chegar ao fim dado o grau de divisão que já causou na sociedade americana.

Tomando agora duas questões mais concretas para exemplificar a enganosa, senão desastrosa, rota do Sr. Trump vale lembrar: (1) em março de 2015 o respeitadíssimo e capitalista FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou relatório dando conta do estrago global em termos de finanças públicas do setor carbonífero (petróleo, carvão e gás), com subsídios anuais totais da ordem de 2,3 trilhões de dólares, dinheiro público mal usado, cujo corte reduziria imediatamente as emissões globais de carbono em 20%, além de salvar 1,6 milhões de vidas anualmente perdidas associadas às externalidades desse setor de atividades; e (2) já há campanhas e programas regulares nos Estados Unidos de “desinvestimento” financeiro em relação ao setor carbonífero, com destaque para os fundos de investimentos das grandes fundações filantrópicas, do conjunto da igreja católica e também das grandes universidades americanas. No caso das fundações, destaque para a Rockeffeler Foundation e a Rockeffeler Brothers Foundation, nascidas das fortunas familiares construídas exatamente no setor carbonífero, que há anos decidiram limpar suas carteiras desses investimentos sujos. Note que é no quintal “do homem”que quem caminha iluminado pela ciência faz o oposto do que ele prega e comanda, seja por razões ecológicas seja pelo risco de “mico” econômico!

Mencionado ciência, indispensável lembrar que os Estados Unidos têm a melhor do planeta a considerar as muitas dúzias de Nobel recebidos, que o fazem o campeão científico planetário. E é nesse contexto, coincidentemente com o mau passo presidencial, que a prestigiosa revista Nature publicou os resultados de estudo confirmando crença antiga: as mudanças climáticas não estão apenas mudando padrões do tempo meteorológico e aumentando a probabilidade de ondas de calor, chuvas fora do padrão e inundações severas, mas levando a novos e piores padrões climáticos, bem definidos geográfica e temporalmente, e assim aumentando ainda mais os danos causados.

Só a ganância de curto prazo, combinada com ignorância e prática religiosa fundamentalista e dogmática, apoia e aplaude o Sr. Trump. A inteligência americana parece estar do outro lado.

Lamentavelmente, como me dizia um amigo, paulista do interior, no seu melhor jeito brejeiro: “nada é tão ruim que não possa piorar!” E o Sr. Trump é, seguramente, um desses homens que pode piorar o mundo que conhecemos, que já não é dos melhores, e não apenas desgraçar a vida dos americanos. Pelo menos não o fará sem severa resistência interna, política e judicial, o que nos deixa alguma esperança, conforme nota conjunta publicada pelos governadores da Califórnia e de Nova Iorque, duas locomotivas da economia e da democracia americanas, bem como pela ação de poderosos grupos ambientalistas americanos que já estão contratando conceituadas bancas de advogados para desafiar na justiça a iniciativa “trumpista”.

 

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18 comentários em “Mr. Trump ou “nada é tão ruim que não possa piorar””

  1. Nós brasileiros não sabemos nem votar para vereador de nossos municípios, muito menos para deputados estaduais e federais, senadores, presidente, etc., etc., etc. É só dar uma rápida olhada para ver o que temos e quem está por aí em Brasília.

    Fico impressionado e estarrecido com a desenvoltura, beirando a arrogância, de quem critica quem foi democraticamente eleito pela maior democracia do mundo, e quem pretende, sem mais, "corrigir" o ignorante eleitor norte americano.

    Realmente, certos estamos nós.

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    • Senhor Carlos, um pouco de atenção da sua parte não seria demais. Eu não afirmei que nós brasileiros sabíamos votar; diferentemente disso afirmei que, como acontece por aqui (afinal somos parte da América Latina), onde qualidade do voto a julgar pela sua avaliação, é ruim (com a qual eu concordo) e também na África, a eleição do Sr. Trump nos Estados Unidos é uma tragédia eleitoral. Arrogância ou não de minha parte, esta é uma verdade incontestável para qualquer um minimamente informado e que conhece bem os Estados Unidos. Por sinal, devido a características do sistema eleitoral daquele país, essa é a segunda vez em tempos recentes que um candidato não vencedor no conjunto dos votos de ma eleição majoritária é eleito presidente. É o sistema local e cabe aos americanos julgar se esse é ou não um problema a ser corrigido. Mas no que interessa de fato, para fins do artigo, esse é um governo capaz de piorar a vida de todos neste planeta e não apenas dos americanos. Por fim, uma pequena correção: a maior democracia do mundo é a India, com mais de 800 mil habitantes habilitados a votar nas ultimas eleições, ou seja um contingente de eleitores equivalente a mais de 2,5 a população total americana.

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  2. Miguel, muito boa reflexão. Eu por aqui sou dos que acreditam que as forças globais de mercado, contra as quais o Trumpalhaço finge defender a América mas que são persuasivas e inexoráveis, vão ser a principal razão do fracasso das intenções dele em reviver a indústria do carvão e outras barbaridades ambientais. Lentamente, e de maneira que não percebemos porque aqui em Banânia Fudíndia tudo que é bom e novo chega com vinte anos de atraso, o mundo se move rumo à massificação das energias limpas e à adoção de tecnologias de produção sustentáveis. Resta a luta pela conservação da biodiversidade, que segue perdendo espaço para os bilhões de macacos pelados, mas nesta temos de seguir lutando.

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  3. Ao mediador,

    Como não foi publicado meu comentário ontem, penso que tenha sido censurado.

    Disse alguma impropriedade? Ofendi alguém?

    Gostaria de ter uma resposta, se possível.

    Cordialmente,

    Carlos.

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    • Sr. Everardo, que coisa mais sem sentido a sua conclusão a respeito de minhas possíveis convicções ideológicas. Além de desnecessária, preconceituosa e, portanto, atrasada, sua tentativa de me classificar numa "caixinha" temática que não serve para nada, é interessante que saiba que não, eu não sou esquerdista. Tampouco um direitista alienado ou idiota. Quanto a "estadunidense", apenas usei o termo que me pareceu mais apropriado para idioma nacional, consultado o Aurélio, um cuidado que tento manter.

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      • Pior que esquerdista, "Marinista", como todo militante ambiental que tem no ambientalismo mais que uma causa…na verdade, um ganha-pão. Marina no poder, essa turma lava a burra. Até lá, críticas clichés contra os politicamente incorretos. Em tempo, o Trump é sim uma besta…mas não chega a ser a besta do apocalipse!

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        • Ebenezer,
          Você erra feio: nem esquerdista e nem marinista! E ainda que adepto do políticamente incorreto e leitor de Pondé, autor que talvez você nem conheça ainda que ouse tocar no tema, por respeito ao público leitor não vou lhe responder da forma que você merece e pede. Possivelmente sua limitação intelectual não permitiria que entendesse. Assim, sendo mais direto, apenas comento que quem ganha a vida defendendo a natureza certamente ganha a vida mais decentemente (além de ética e honestamente) do que quem o faz destruindo, o que a sua opinião aqui escrita sugere ser a sua situação! Outro ponto: você não é obrigado a ler, muito menos a gostar ou concordar com o que escrevo (ou qualquer colunista), mas com um mínimo de intelecto funcional e consequente bom senso poderia bem ater-se a um comentário minimamente inteligente ainda que divergente. Assim como todo esquerdista em noção, como um direitista de mesma qualidade, você se posiciona simplesmente tentando desfazer quem diverge com adjetivos sem sentidos mas que a você soam agressivos. Uma pena para você usar tão mal seu tempo.

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          • Quer dizer que se eu não sou um desses "militantes-profissionais" que ganham um bela grana (e viagens, e congressos, e meetings com coffee-breaks) trabalhando em ONG, principalmente nas Big ONGs – BONGs – eu sou automaticamente um cara que ganha a vida destruindo a natureza??? Afff…depois sou eu que tenho intelecto limitado! Raciossímio binário…a gente se vê por aqui!

          • Em tempo, os livros do Pondé são bacanas…mas tem tinta preta em excesso impressa sobre papel de baixa qualidade, daí o livro fica fedido

  4. "Só a ganância de curto prazo, combinada com ignorância e prática religiosa fundamentalista e dogmática, apoia e aplaude o Sr. Trump. A inteligência americana parece estar do outro lado."
    Frase lamentável do colunista. Eleição só serve quando ganha quem eles querem mesmo. Demonstra uma arrogância e um julgamento tosco dos americanos. Inteligentes mesmo são os engajadinhos de Nova York, com seus tapinhas nas costas e seus vinhos caros.
    Além disso, parece que ele não sabe da missa a metade. Pelo jeito comprou a santa Hillary da grande mídia daqui.

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    • Senhor Water, talvez haja alguma razão no seu julgamento quanto a ser lamentável a minha frase destacada. Concordo que há certa arrogância, todavia não é nem um pouco tosco meu julgamento dos americanos, um povo que respeito muito – mais tosco parece ser o seu próprio quanto aos cidadãos de Nova York ou da Califórnia. Por outro lado, é sim lamentável que país com a melhor ciência do mundo, portanto, o melhor conhecimento disponível, tenha tido o resultado eleitoral que teve – graças apenas a regras específicas locais, o que permitiu que um "bufão"como o Sr. Trump tenha chegado a lideranças nacionalcom menos votos que sua oponente numa eleição majoritária. Sim, agora com pré julgando, foi em boa medida a ignorância de uma parcela significativa da população dos EUA que levou este senhor à liderança do mais importante país do planeta, lemantavelmente!

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      • Esse sistema surgiu há 300 anos e sempre foi assim. O país é uma república de fato, onde um estado ou dois estados não podem decidir a eleição por serem mais populosos. Se vc se interessar, verá que ele ganhou em 90% dos condados e na maioria dos estados. Ou seja, os valores republicanos não são a regra da maioria, a dita "democracia" que perdeu o significado de tanto ser usada para tudo quanto é coisa. Já que vc é pesquisador, procure o significado de democracia, no sentido grego da palavra. Sendo assim, os direitos naturais, como à vida, poderiam ser suprimidos pela maioria? A internet realmente deu voz a um monte de "cientistas políticos" virtuais, que podem criticar qualquer coisa mesmo. Thomas Jefferson, George Whashington, Benjamin Franklin, etc devem estar se revirando no túmulo.

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        • Senhor Walter,
          Obrigado por seu posicionamento, mais esclarecedor para muitos leitores, sobre alguns aspectos da democracia americana, ou talvez, mais adequado dizer, do seu sistema político-eleitoral. Sei razoavelmente bem o que é democracia, da sua origem grega, ao caso americano, passando pela revolução francesa e a história inglesa que tiveram e têm influência sobre qualquer democracia moderna. E tive a felicidade de viver nos Estados Unidos, como professor universitário visitante (no Colorado), quando entusiasmado com o país (o que sigo sendo) estudei um pouco da sua história. Então, um comentário apenas para finalizar: os trezentos anos de prática democratica não necessariamente garantem que o sistema político-eleitoral segue sendo bom e eficaz no dias atuais, mas são os eleitores locais que decidirão sobre isso. Todavia, nada disso muda minha opinião sobre o momento histórico americano, embora só o futuro vá nos dizer o quanto os americanos erraram ou acertaram na eleição do senhor Trump.

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    • Walter, isto é a agenda desta gente engajada. De Obama, dos Clinton, FHC, Soros, Ford Foundation, a governança global/ONU, etc.

      A agenda do politicamente correto, racialista, gayzista, abortista, desarmamentista e canabista.

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  5. Milano,

    obrigada por trazer à luz não somente aquilo que intuitivamente sabemos, mas por corroborar com dados, fatos e números precisos a realidade inegável desse retrocesso que o mundo pode enfrentar graças ao efeito cadeia do destemperado Sr. Trump. É sempre um prazer e um aprendizado ler os seus artigos. Em tempos de especialistas em achismo, se respaldar por fatos e não pura e simples opinião é algo de extremo valor, que eu agradeço por ter aprendido com você e em que me pauto muito fortemente aqui na Rede Pró UC.

    O baque na política climática pode ser de ordem catastrófica, ou pelo menos, imensamente retrógrada, não há dúvidas. Porém, em menor escala, mas não menos importante é o que este senhor se dispõem a fazer também com os Parques Nacionais estadunidenses, algo que até mesmo outros presidentes republicanos respeitavam, mas que o Sr. Trump parece desprezar enormemente, com ameaças frequentes de liberar atividades de mineração e fracking dentro das áreas. Claro… as organizações que defendem os Parques irão brigar muito e com voz ativa contra mais este despautério, e graças ao respeito e apreço que aquela nação tem por suas áreas protegidas é provável que ganhem a briga, mas sem dúvida a postura medíocre também nesse caso só corrobora o dito de que no caso do Sr. Trump "nada é tão ruim que não possa piorar".

    Um grande abraço

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