André Jean Deberdt
Biólogo, Diretor Técnico do Centro Excursionista Mineiro (CEM) e membro do movimento Trilha de Longo Curso Transespinhaço

Espinhos diante da marcha voraz das mineradoras

André Jean Deberdt
segunda-feira, 21 setembro 2020 17:02
A rara floração do cactos Arthrocereus glaziovii. Foto: André Deberdt

O Brasil detém cerca de 14% das reservas lavráveis de minério de ferro do mundo, concentradas nos estados de Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul, o que coloca o país como um dos maiores produtores e exportadores mundiais do minério. Se por um lado isso favorece a balança comercial, por outro, resulta em impactos ambientais que vão além das alterações dramáticas na paisagem, uma vez que a contaminação de corpos d’água, emissões atmosféricas e ruído ultrapassam os limites dos empreendimentos minerários.

O Quadrilátero Ferrífero, localizado no centro-sul do estado de Minas Gerais, é responsável por cerca de 60% da produção nacional de minério de ferro. As feridas abertas na paisagem podem ser facilmente visualizadas no Google Earth, junto a municípios como Itabirito, Congonhas, Ouro Preto, Mariana, entre outros, incluindo a região metropolitana de Belo Horizonte. Sim, eu sei, é uma atividade que gera muitos empregos e rende bilhões em divisas ao país. Mas o histórico recente nos mostra que o descaso com o meio ambiente e com vidas humanas ainda é algo a ser resolvido.

Quem vem de outras regiões ou estados e visita o entorno da capital mineira pela primeira vez, pode se surpreender ao se deparar com uma paisagem diferente, formada por afloramentos de rochas ricas em ferro, recobertas por uma curiosa vegetação herbáceo-arbustiva. São os Campos Rupestres Ferruginosos, também conhecidos como “canga”. O termo deriva de “tapanhoacanga”, corruptela utilizada por mineradores no passado, conforme descrito inicialmente pelo Barão de Eschwege em 1822, entendido como um conglomerado de “pedras de ferro” (Eisensteinkonglomerat).

As cangas são afloramentos muito antigos, resultantes do intemperismo de rochas ferríferas subjacentes, cimentadas por limonita e hematita, formando uma couraça de espessura variável, praticamente inerte ao intemperismo químico e resistente ao intemperismo mecânico, situadas normalmente nas partes mais altas do relevo, recobrindo jazidas de minério de ferro e constituindo extensos platôs, normalmente entrecortados por vales e escarpas. Funcionam como importantes áreas de recarga hídrica dos aquíferos, com altas taxas de porosidade e permeabilidade.

A vegetação associada à canga abriga dezenas de espécies raras, endêmicas e ameaçadas de extinção, algumas delas novas para a ciência. A principal ameaça é a mineração, que avança vorazmente sobre este tipo de formação. Quem se interessou pelo assunto, poderá encontrar maiores informações no livro Geossistemas Ferruginosos do Brasil, disponibilizado pelo Instituto Prístino em arquivo digital.

Campo Rupestre Ferruginoso ou canga, no Quadrilátero Ferrífero, coberto pela micro orquídea Acianthera teres. Foto: André Deberdt

Ao mudar para Belo Horizonte em 2013, descobri a canga, e me encantei por ela em um passeio na Serra da Calçada, importante patrimônio natural, histórico e cultural, que se estende por cerca de 8 km entre os municípios de Nova Lima e Brumadinho, distante cerca de 20 km da capital mineira, muito visitado por caminhantes e ciclistas nos finais de semana. Voltei de lá com o tênis impregnado de um persistente pó avermelhado, impressionado e ansioso por maiores informações a respeito daquela curiosa formação.

Com o passar do tempo passei a visitar outras áreas de canga pela região, algumas protegidas em unidades de conservação e outras na linha de frente da mineração. As espécies da flora em destaque, como a arnica (Lychnophora pinaster), canelas-de-ema (Vellozia spp) e muitas orquídeas, algumas formando verdadeiros tapetes sobre a rocha, como Acianthera teres, popularmente conhecida como bananinha, passaram a fazer parte do meu repertório botânico. Entre elas, um cacto colunar pequeno, pouco expressivo, camuflado no solo rochoso e ainda pouco conhecido pela maioria das pessoas: Arthrocereus glaziovii, endêmico da canga e ameaçado de extinção.

Essa pequena planta espinhenta é um símbolo de resistência. Não bastassem as limitações impostas pelo próprio ambiente, pois não deve ser fácil sobreviver em uma rocha ferruginosa dura e praticamente estéril, sob o sol e temperaturas inclementes durante o dia e ao frio durante a noite, boa parte do ano em uma condição de déficit hídrico, ele ainda serve de bandeira aos ambientalistas, na luta para frear o avanço da mineração sobre áreas naturais ainda intactas.

A linda flor do cacto. Foto: André Deberdt

Neste mês de setembro, durante uma caminhada matutina para definir mais um trecho da trilha de longo curso Transespinhaço, me deparei com a canga pontuada de flores brancas. Para minha surpresa, era a rara e pouco vista floração do cacto Arthrocereus glaziovii, que ocorre durante a madrugada, quando as flores ficam totalmente abertas, para serem polinizadas por mariposas (Esfingofilia). Voltei ao local no dia seguinte, antes do amanhecer, para observar a floração do valente cacto em sua plenitude, com as luzes e ruídos da mineradora operando a pleno vapor, apenas a algumas centenas de metros de distância. Torcendo para não ter sido a última oportunidade de observar esse belo fenômeno nesta região.

 

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2 comentários em “Espinhos diante da marcha voraz das mineradoras”

  1. "Voltei ao local no dia seguinte, antes do amanhecer, para observar a floração do valente cacto em sua plenitude, com as luzes e ruídos da mineradora operando a pleno vapor, apenas a algumas centenas de metros de distância. Torcendo para não ter sido a última oportunidade de observar esse belo fenômeno nesta região."
    Chorei… Foi lindo…

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