Claudio Angelo
Coordenador de Comunicação do Observatório do Clima e autor de "A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a máquina do clima (Companhia das Letras, 2016)".

Degola no Ibama atrapalha estratégia de RP de Mourão

Claudio Angelo
quinta-feira, 16 abril 2020 15:39
Vice presidente Hamilton Mourão. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil.

O filme Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick, um ex-cientista nazista fugido para os EUA é convocado para uma reunião de emergência devido à eclosão iminente da Terceira Guerra Mundial. Ao aconselhar o presidente americano, ele não resiste aos velhos hábitos de desenhar soluções genocidas para a humanidade pós-confronto. E não consegue domar um de seus braços, que involuntariamente se espicha na saudação ao Führer.

A demissão do diretor de fiscalização do Ibama na última terça-feira (14), após a TV mostrar o órgão em ação estourando garimpos em terras indígenas, foi um desses momentos em que o Dr. Fantástico não consegue controlar seu braço. Olivaldi Azevedo caiu não porque falhou em combater o crime ambiental, mas porque falhou em barrar uma operação de combate ao crime. Falhou em impedir que o Estado brasileiro cumprisse sua missão de proteger o meio ambiente e os povos indígenas. A degola ocorre ao mesmo tempo em que o governo encarrega o vice-presidente da República de uma operação de relações-públicas para assegurar ao mundo que o Brasil está, sim, preocupado com a defesa da Amazônia.

Muita gente quis acreditar quando o general Hamilton “Mas Ele é Até Razoável” Mourão foi encarregado de assumir o redivivo Conselho da Amazônia. O wishful thinking era que Bolsonaro havia sentido a pressão do agronegócio, dos investidores, de deus e o diabo, e fora forçado a mudar de posição na política ambiental. Segundo essa linha narrativa, Paulo Guedes tomou um esporro dos brancos em Davos e descobriu que o único ativo do Brasil que interessa ao resto do mundo é justamente aquele que seu governo está desvalorizando: a Amazônia em pé. Daí a necessidade de escantear o desgastado ministro do Meio Ambiente, que não conseguiria convencer nem seus robôs no Twitter de que está trabalhando pelo desenvolvimento sustentável, e botar um adulto para tomar conta da floresta.

“Pelo menos nas entrevistas coletivas Mourão chegou chegando: prometeu uma estratégia de combate ao desmatamento.”

Pelo menos nas entrevistas coletivas Mourão chegou chegando: prometeu uma estratégia de combate ao desmatamento. Disse que restabeleceria os comitês do Fundo Amazônia aqueles que Ricardo Salles extinguiu por birra e botaria o fundo para rodar. Tem mandado emissários conversar discretamente com figurões da área ambiental. Anunciou, e entregou, a assinatura do convênio com o Pnud para o programa Floresta Mais, objeto de doação de US$ 96 milhões do Fundo Verde do Clima para o Brasil implementar pagamento por serviços ambientais. O dinheiro ficou um ano parado porque Ricardo Salles se recusou a assinar o acordo, uma vez que a verba era carimbada para comunidades tradicionais e pequenos produtores.

Um desavisado que tivesse chegado na semana passada de Marte poderia até achar que algum ponteiro estava se mexendo em Brasília. Mas, como dizem os ingleses, a prova do pudim é o gosto. E o cozinheiro do pudim amazônico ainda é Jair Bolsonaro.

O presidente e o vice insistem em abrir as terras indígenas a todo tipo de atividade econômica, inclusive garimpo. O presidente, com respaldo amplo da bancada ruralista (que em tese representa o mesmo setor econômico que estaria sofrendo “pressão do mercado” para controlar o desmate), quer aprovar em rito sumário no Congresso uma Medida Provisória legalizando a grilagem feita por seus eleitores e apoiadores. Se a MP 910, pronta para votação, for aprovada, o controle do desmatamento terá de ser feito por orações ou pelo coronavírus; o governo não será mais capaz de fazê-lo, dada a sinalização ao crime organizado de que a invasão de terras públicas sempre poderá ser perdoada. Se o general Mourão está mesmo preocupado com “estratégia” de combate à devastação, deveria manobrar hoje mesmo para derrubar a MP.

“Salles está feliz da vida por não precisar mais responder às cobranças da imprensa sobre desmatamento, mas não tem deixado de exercer suas prerrogativas de ministro – que incluem demitir pessoas”.

E há, claro, o braço indomável do Dr. Fantástico: o ministro do Meio Ambiente. Salles está feliz da vida por não precisar mais responder às cobranças da imprensa sobre desmatamento, mas não tem deixado de exercer suas prerrogativas de ministro que incluem demitir pessoas. Quando o major Olivaldi, seu homem de confiança, fracassou em segurar a tigrada da fiscalização e desagradou ao Planalto, Salles não hesitou em cortar sua cabeça e substituí-lo por mais um PM paulista, o aposentado Olímpio Magalhães, que tem fama de truculento. Espera-se que a degola prossiga entre os fiscais tão logo a imprensa esqueça o episódio. O presidente do Ibama, Eduardo Bim, dirá que se trata de uma “reestruturação”. Não deixará de ser verdade: desmonta-se uma estrutura de fiscalização operacional e cria-se outra, feita para não funcionar.

Não se sabe se esses movimentos estão sendo combinados com o Jaburu, mas há duas hipóteses: ou Mourão não tem ingerência sobre o que acontece no Ibama, e está sendo sabotado por Salles, ou compactua com os atos do ministro. Nos dois casos, a utilidade do Conselho da Amazônia e da autoridade do vice para segurar o desmatamento é a mesma de um comprimido de cloroquina para tratar a Covid-19.

O tamanho da conta será conhecido no fim do ano, quando saírem os dados de desmatamento do sistema Prodes, do Inpe. Ceteris paribus, o melhor que o governo pode fazer é torcer para que a pandemia afete os funcionários dos grileiros e impeça o desmatamento a partir de maio, quando começa a estação seca. Quem sabe assim a devastação em 2020 “apenas” empate com 2019 (a quatro meses do fim do período de apuração, o número de alertas já é o terceiro pior da série, e se tornará o segundo pior antes do fim de abril). Do contrário, a taxa ultrapassará a barreira psicológica dos 10.000 km2 e poderá retornar ao patamar de 13.000 km2 dos anos 1990.

A desculpa, claro, já está na ponta do coturno: “a gripezinha, vejam, não era tão zinha assim e atrapalhou o combate ao desmatamento”. Difícil vai ser os investidores engolirem. O general Mourão a esta altura já deveria ter percebido que o único jeito convincente de fingir que protege a Amazônia é proteger a Amazônia

 

logo Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo.

 

 

Leia Também 

Desmatamento na Amazônia cresceu 279% em março, indica Imazon

Salles nomeia PM de São Paulo para diretoria do Ibama

Quando o aquecimento global bateu à minha porta

 

4 comentários em “Degola no Ibama atrapalha estratégia de RP de Mourão”

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.