Claudio Angelo
Jornalista, coordenador de comunicação do Observatório do Clima e autor do livro Espiral da Morte

Buzz-onaro, ou o choque como estratégia

Claudio Angelo
sexta-feira, 26 outubro 2018 22:17
Entre promessas e recuos, agora Jair Bolsonaro afirma que não sairá do Acordo de Paris. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil.

Ambientalistas e pessoas de bom senso no Brasil inteiro respiraram um tiquinho aliviados na última quinta-feira ao ler nos jornais que Jair Bolsonaro, nosso virtual presidente eleito, não pretende mais sair do Acordo de Paris. Ufa! Um problema a menos. Agora a gente já pode se concentrar nas quatrocentas outras ameaças que ele vem fazendo contra o meio ambiente, a democracia e os direitos humanos. Né?

Hm, pode ser. Mas eu mantenho as barbas de molho.

Afinal, se há uma coisa consistente na trajetória do capetão, digo, capitão, é sua inconstância. Bolsonaro tem zero compromisso com a realidade. É conhecido por recuar de posições e recuar do recuo com a mesma facilidade e às vezes em poucas horas – quem não se lembra da história da ida ou não aos debates no primeiro turno, por exemplo? Em qualquer candidato normal, isso seria visto como inépcia para o exercício do poder. No deputado, é tratado como “flexibilidade” e ausência de dogmatismo. Mito.

Esse comportamento de biruta de aeroporto não tem nada de casual. Faz parte do manual do líder populista, que deriva seu poder da capacidade de surpreender o tempo todo, deixar a oposição em choque constante e manter seus apoiadores sempre animados com ações de última hora. Como ensina Hannah Arendt, movimentos totalitários “só podem permanecer no poder enquanto estiverem em movimento e transmitirem movimento a tudo o que os rodeia”. A expressão não existia nos anos 1950, mas o que Arendt quis dizer é que populistas autoritários precisam gerar buzz. E Bolsonaro é mestre em gerar buzz. Em ser o assunto do dia todos os dias nas redes sociais, em ganhar a manchete do jornal quando fala qualquer cretinice e também a manchete do dia seguinte quando a desmente. É expert em ser o tema das conversas de boteco, contra ou a favor.

Trump anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris em junho de 2017. Foto: Reprodução de TV

Se você acha que já viu um comportamento parecido em algum outro líder político, é porque viu. Seu nome é Donald Trump. E seu comportamento em relação ao Acordo de Paris e outros temas pode ter lições a ensinar ao Brasil de Bolsonaro.

Trump, como Bolsonaro, não tinha (e provavelmente ainda não tem) a mais remota ideia do que seja o Acordo de Paris. Na campanha, chamou o tratado de fraude chinesa. Negou o aquecimento global diversas vezes. Num segundo momento, admitiu que seres humanos tinham “alguma influência” no clima. Depois da eleição, emitiu sinais contraditórios sobre a permanência ou não no tratado e enganou várias bestas. As duas mais famosas foram Al Gore e Leonardo Di Caprio, que se prestaram de ir até a Trump Tower tentar levar dados e fatos ao presidente. Só fizeram gerar mais buzz para ele.

Como sabemos, Trump no fim decretou a saída dos EUA do Acordo de Paris. Contra o bom senso mais elementar, contra as leis de mercado e contra a lógica do próprio sistema energético americano, que já está em franca descarbonização (não fosse assim, Barack Obama jamais teria subscrito o tratado, como não subscreveu o de Copenhague em 2009). E o fez por pura afinidade ideológica: negar a mudança do clima e as soluções para ela tornou-se uma espécie de anauê da direita americana, que contaminou movimentos de direita no mundo todo. Em seu círculo mais fiel de auxiliares, Trump tem negacionistas de raiz, como o cleptomaníaco Scott Pruitt, o secretário do interior, Ryan Zinke, e o lobista Myron Ebel. O aceno foi a eles.

É aqui que Bolsonaro me preocupa. Duvido que tenha opinião formada sobre mudança climática: ele já disse uma vez, em Manaus, que o aquecimento global pode “levar ao fim da espécie humana” (na mesma ocasião, disse na mesma frase que teme a perda de soberania sobre a Amazônia e que quer parceria com os EUA para salvá-la). Mas confunde Acordo de Paris com soberania sobre a Amazônia. Talvez ache que o tratado seja armação do Foro de São Paulo, quem sabe com um dedo da Ursal.

“Diferentemente dos EUA, que têm uma economia diversificada o bastante e bombas atômicas em número suficiente para receber não mais do que protestos indignados da comunidade internacional, o Brasil é um exportador de commodities que pode ter seu comércio exterior prejudicado e investimentos estrangeiros cortados caso Bolsonaro dê a louca com Paris e recue do recuo sob influência de seus garotos”.

Ocorre que nosso Trump topical também tem negacionistas convictos em volta dele. Aliás, em casa. Seus próprios filhos, Eduardo e Carlos Bolsonaro,  respectivamente deputado federal e vereador, rezam pela cartilha da direita americana e são dados a polemizar sobre clima nas redes sociais (O primeiro é mais ecumênico e curte também achincalhar o Judiciário, invocando cabos e soldados para fechar o STF e mandando uma ex-namorada enfiar a Justiça você-sabe-onde). Já Carlos é um negacionista famosinho no Twitter: sempre que faz frio no Rio de Janeiro lá está ele perguntando cadê o aquecimento global. Integra as hostes do PSL também o notório Ricardo Felício, o professor de geografia da USP que encontrou um nicho de mercado para si questionando a mudança do clima.

Diferentemente dos EUA, que têm uma economia diversificada o bastante e bombas atômicas em número suficiente para receber não mais do que protestos indignados da comunidade internacional, o Brasil é um exportador de commodities que pode ter seu comércio exterior prejudicado e investimentos estrangeiros cortados caso Bolsonaro dê a louca com Paris e recue do recuo sob influência de seus garotos. Lobbies como o da cana e o das florestas plantadas possivelmente já estão explicando essas coisas ao deputado. Para completar há um mico internacional à vista: o Brasil está escalado para sediar a conferência do clima de 2019, a COP25.

Mas, como no caso americano, muito pior do que o anúncio formal da saída seria se Bolsonaro começasse a minar as políticas e medidas de corte de emissões. Foi o que Trump buscou fazer ao autorizar Pruitt, então chefe da Agência de Proteção Ambiental, a desmontar uma a uma as regulações sobre poluição implementadas por Obama. Bolsonaro já prometeu “acabar com a indústria de multas” do Ibama e “tirar o Estado do cangote de quem produz”. Mesmo que mantenha formalmente o Ministério do Meio Ambiente (outra de suas idas e vindas), se deixar pecuaristas, mineradoras e madeireiros à vontade para se lambuzar na Amazônia, produzirá um aumento brutal nas emissões por desmatamento. Um cálculo de pesquisadores do Inpe indica que a cifra pode triplicar em relação a hoje em dia, o que faria o país emitir 1,3 bilhão de toneladas de CO2 por ano só por perda de floresta. Isso representa mais de 2% de tudo o que o planeta emite anualmente.

As consequências para o Brasil e para o planeta, num momento em que a ciência nos diz que temos 12 anos para reduzir emissões em 45%, seriam trágicas. Para Bolsonaro isso importa menos: enquanto houver buzz, segue o baile.

 

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6 comentários em “Buzz-onaro, ou o choque como estratégia”

  1. "Ameaça aos direitos humanos…" Mais um que não sai da bolha ideológica. Quer ameaça maior ao direito humano do que a ameaça à vida? Pare um pouco pra pensar nos 63.000 homicídios por ano na Banânia. Os colunistas do Eco entraram na campanha mesmo essa semana.

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  2. Ou será que os colunistas resolveram discutir uma ameaça real de um candidato agora eleito que afirma categoricamente que quer acabar com o Ministério do Meio Ambiente? Meu amigo, você está comentando em um site ambiental, quer que oeco fale a respeito de homicídios?

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  3. Exato!! não há como questionar os dados jornalísticos e acredito que todos que visitam a página lamentam!! Mas o tom de cinismo e ofensas cria uma situação de descredito e repulsa!!! Que agrada apenas um lado " o esquerdo".

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