Emerson Antonio de Oliveira
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Ciências Florestais e coordenador de Ciência e Informação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza

Agro x conservação da natureza: quem perde com esse confronto?

Emerson Antonio de Oliveira
domingo, 28 maio 2017 19:37
Plantação de soja em Ponta Grossa, Paraná. Foto: Otávio Nogueira/Flickr.
Plantação de soja em Ponta Grossa, Paraná. Foto: Otávio Nogueira/Flickr.

Novo marco cravado neste início de 2017 confirma a relevante contribuição da agropecuária para a economia nacional. Depois de dois anos de retração, o Índice de Atividade Econômica do primeiro trimestre anunciado esta semana pelo Banco Central apontou elevação de 1,12% em relação ao período anterior. A principal responsável por esse saldo é a nova safra de grãos, que deverá ser a maior da história, em torno de 230 milhões de toneladas segundo a última estimativa do IBGE.

A dinamização da economia não decorre apenas da negociação da safra –lembrando que a maior parte da produção é exportada para outros continentes. Isto é, para que chegue aos nossos portos, é necessário transporte, por centenas de quilômetros, consumindo combustível, lubrificantes, pneus e uma infinidade de produtos e serviços ao longo das rodovias, principal modal brasileiro. As atividades e insumos para os plantios, tratamentos culturais e colheita igualmente contribuem para o incremento da economia.

Entretanto, os dados econômicos não consideram os serviços ambientais que viabilizam a produção agropecuária. Sem contar com a ampliação de áreas no Cerrado e Amazônia, melhores tecnologias têm propiciado aumento de produtividade nas áreas historicamente cultivadas no Centro-Sul do País. Em decorrência disso, porém, as atividades agroeconômicas têm pressionado ano a ano os poucos remanescentes naturais, em especial na Mata Atlântica, visto que se tratavam de áreas marginais mas que hoje são passíveis de produção.

Foi esse processo que ocorreu na Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, criada em 1992 pelo Estado do Paraná, para conservação dos últimos refúgios dos “Campos Gerais” que se intercalavam às florestas com araucárias e outras espécies arbóreas e rasteiras (de campos limpos e pedregosos), muitas ameaçadas de extinção, e molduravam o imenso degrau de relevo entre os planaltos de Curitiba e Ponta Grossa (escarpa). A declividade e os solos rasos impediam sua exploração, porém a tecnologia, especialmente do plantio direto, que possibilita o plantio em solos rasos, potencializou a quase extinção dos campos, incluindo as áreas úmidas drenadas.

“(…) a drástica perda de áreas naturais na Escarpa Devoniana, que suscitou Projeto de Lei Estadual para sua redução, é idêntica a de outras regiões do Paraná e Estados vizinhos, onde os remanescentes naturais gradualmente foram convertidos para agrossilvicultura.”

A divulgação de dados por satélites indicando o Paraná como Estado que mais suprimiu a Mata Atlântica nos últimos 30 anos também está nesse contexto, tanto que neste ano o Ministério Público Estadual capitaneou ação contra desmatamentos da floresta com araucárias, tendo flagrado inédito enterro de árvores, visto que o objetivo era apenas abrir novas áreas para cultivos.

Portanto, a drástica perda de áreas naturais na Escarpa Devoniana, que suscitou Projeto de Lei Estadual para sua redução, é idêntica a de outras regiões do Paraná e Estados vizinhos, onde os remanescentes naturais gradualmente foram convertidos para agrossilvicultura. Com a não contabilização da perda de serviços ambientais, os lucros são centralizados a uma parte da sociedade, enquanto a menor vazão dos mananciais, redução de polinizadores, perda de espécies, contaminação de solos e aquíferos e desregulação climática ficam para todos, perdendo a imensa maioria da população. No médio prazo, ainda, os recursos naturais tendem a ser exauridos e novas supersafras serão inviabilizadas.

 

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8 comentários em “Agro x conservação da natureza: quem perde com esse confronto?”

  1. Os serviços ambientais são gratuitos.
    Os "engenheiros" na sua maioria, acham que nada mudará.
    Esperem, então, quando as chuvas não chegarem, quando o lençol freático desaparecer, quando a temperatura mudar para extremos e em tempos diferentes.
    Não adiantará resmungar e choramingar.
    Já foi.
    E a conta negativa todos pagaram. Principalmente os que menos provocaram estas mudanças.

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  2. Demanda de maior reação da sociedade não apenas o voo livre com o qual o agronegócio avança ilegalmente sobre remanescentes naturais na Mata Atlântica e em outros biomas brasileiros. Mas também a conivência criminosa dos governos nas suas diferentes instâncias, em especial no executivo e no legislativo, onde a prática da compra de posicionamentos não está limitada à liberação de obras ou empréstimos a grandes corporações. Envolve também o aliciamento desses atores para proporcionar mudanças de legislação que procuram desmontar o arcabouço protetivo que levou décadas a ser constituído em nosso país. Enfim, esperar que haja consciência sobre garantias de longo prazo das práticas agrícolas não faz parte do repertório em pauta. Ao contrário, desde que o agregado de riquezas seja amealhado agora, o futuro pouco interessa aos que lideram os encaminhamentos políticos do agronegócio, em detrimento deles próprios, como afirma o Emerson em seu texto oportuno e preciso.

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  3. Eu sei quem ganha: as ONG, principalmente as BigONGs vendedoras de adesivos e camisetas…afinal, o que seria do vendedor de alarmes se não fosse o ladrão?

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  4. Os únicos que ganham são os grilheiros de terras , os desmatadores , os ruralistas e os puxa-sacos destes.
    Quem perde . O resto da humanidade.

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  5. É mais sério do que pareça ser a questão ambiental. Mas é necessário refletir num aspecto mais amplo a questão. Se não reverter o quadro reparando, indenizando, valorando e respeitando o ser humano, todo movimento ambiental é apenas falácia; Conheci pessoalmente inúmeros indivíduos ambientalistas e suas ONGs.
    – Porque até agora estes indivíduos não criaram ao menos vergonha ???

    A educação ambiental é uma educação do cuidado com a terra e para com a humanidade, uma educação para a paz. Pois acima de tudo, a Educação Ambiental é uma educação do civismo, da moral, da ética, do caráter e respeito ao ser humano.

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  6. O IBAMA possui um sistema de monitoramento por satélite e por cruzamento de dados em sistemas digitais extremamente eficiente, que produz indicativos de desmatamento praticamente em tempo real. Estes são devidamente processados, e equipes são deslocadas para conferência, localização dos responsáveis, autuações e embargos.
    Entretanto, apesar do trabalho estar sendo cada vez melhor executado e ter resultado em forte desaceleração do desmatamento nos últimos anos; uma política ambiental baseada somente na repressão e sem uma agenda proativa de larga escala, não tem meios para alterar a pressão pelo desmatamento.
    Como a ordem natural de avanço de uma cadeia produtiva se inicia pela demanda, é imprescindível que a pesquisa e as políticas públicas invistam nesses objetivos, com a finalidade de: gerar um ambiente seguro e transparente, propício à legalidade; eliminar as vantagens econômicas das atividades ilegais e gerar uma demanda agroflorestal firme, constante e de grande volume.
    O Brasil vem sentindo o aumento dos custos relacionados à falta dos serviços ambientais, como a perda da capacidade hidrelétrica, o colapso no abastecimento de água para o consumo humano, a inviabilização agrícola de regiões inteiras, o aumento na ocorrência de eventos climáticos extremos, o aumento dos preços dos alimentos.
    Mas o País tem a oportunidade de resgatar o valor de sua biodiversidade nativa, utilizando-a de forma inteligente e ampliando sua cobertura em detrimento da agropecuária convencional, o que irá fortalecer a soberania do País ao tornar muito mais robusta sua economia, pois que a mesma estaria lastreada numa produção forte, estável e socialmente justa.
    Esse conjunto de propostas não criaria qualquer ônus extraordinário aos cofres públicos, mas o contrário: aumentaria a arrecadação de impostos ao trazer para a legalidade um enorme contingente de pessoas e atividades hoje inexistentes ou clandestinas.
    A expectativa é que esse conjunto de políticas públicas sele o fim do desmatamento líquido e promova o crescimento da cultura florestal nativa, para que o Brasil ocupe o lugar que tem pleno potencial para ocupar: a vanguarda de uma economia agroflorestal robusta e de larga escala, num futuro onde os serviços ambientais relacionados à água, à biodiversidade e à remoção de carbono da atmosfera serão imprescindíveis à Humanidade.
    Num pequeno texto com o qual se concorda integralmente; digno de mestres da literatura, e que merece ser transcrito na íntegra; Nobre (2014) afirma: “Na grande floresta da Amazônia, a Terra guarda um de seus mais espetaculares tesouros: a profusão de vida que inala gás carbônico e exala oxigênio, transpira água, emite odores mágicos, remove gases tóxicos, pulsa e regula, umedece e faz chover, propele ventos e alimenta rios aéreos, acalmando a fúria dos elementos, tornando amigo o clima próximo e também o mais distante. As sociedades abrigadas sob seu hálito doador de vida têm nela um cordão umbilical que sustém suas economias e lhes dá bem-estar. Por tudo isso, é necessário, desejável, viável e até lucrativo alterar o modus operandi da ocupação humana na Amazônia.”

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  7. Entre o olhar da visão por satélite e a realidade há um abismo.
    O agravo, os efeitos perversos do código ambiental, associado a má formação dos profissionais da área ambiental e a cultura da usurpação e dominação. O melhor a ser feito e a exclusão dos órgãos IBAMA, ICMbio, instituto Chico Mendes, com a prisão dos servidores destes órgãos.
    Não é apenas a Discrepância criminosa e malfaseja. E a falta de vergonha na cara deste bando de canalhas que atuaram no segmentos ambientais por vias de ONGs juntamente com os órgãos ambientais e culturais

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