A estrada da morte: BR 163 tem recorde de atropelamento de antas
Marco Freitas
Geógrafo e Zoólogo. Analista Ambiental do Estação Ecológica de Murici.

A estrada da morte: BR 163 tem recorde de atropelamento de antas

Marco Freitas*
quinta-feira, 30 novembro 2017 17:44
Anta (Tapirus terrestris). Foto: Marcos Freitas.
Anta (Tapirus terrestris). Foto: Marcos Freitas.

Quinze atropelamentos a cada segundo. Um milhão e trezentos mil por dia. Quatrocentos e setenta e cinco milhões por ano. Estas são as tristes estimativas do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) sobre o número de vertebrados terrestres silvestres que morrem nas rodovias brasileiras. Dentre as potenciais vítimas estão as antas (Tapirus terrestris) que vivem em UCs cortadas pela BR 163, considerada uma das mais ambientalmente destrutivas estradas dos trópicos. Foi o que comprovamos num artigo recentemente publicado no Journal of Threatened Taxa.

A anta ou tapir é o maior mamífero terrestre do Brasil e está na categoria Vulnerável (VU) da edição de 2016 do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. É considerada o último animal da megafauna amazônica, podendo pesar até 300 kg e viver até os 35 anos. Contudo, sua reprodução lenta e gestação de mais de um ano dificultam a recuperação de populações a curto e médio prazo.

Em nosso artigo, alertamos para os acidentes com a espécie ao longo da BR 163, que corta o Parque Nacional do Jamanxim e divide a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo e a Base Aérea da Serra do Cachimbo, no Pará.

Somente num trecho de 70 km da BR 163, entre os quilômetros 6 e 76 a oeste da Reserva Biológica (Rebio) Nascentes Serra do Cachimbo, foram registradas 16 antas atropeladas entre 2015 e 2017. Foram registradas oportunisticamente 15 antas mortas em apenas quatro meses, entre maio e julho de 2016 e em junho de 2017, somente neste trecho. Os outros quatro registros foram registrados pelo Sistema Urubu, uma plataforma web na qual o público pode enviar imagens georreferenciadas de animais atropelados nas rodovias brasileiras, sendo três ao longo do Parque Nacional do Jamanxim e um na Rebio.

Anta (Tapirus terrestris). Foto: Marcos Freitas.
Atropelamento de fauna é um dos fatores que contribuem para a extinção de espécies. Acima, a Tapirus terrestris. Foto: Marcos Freitas.

Na mesma rodovia também foi encontrado atropelado um tatu-canastra (Priodontes maximus), espécie ameaçada de extinção na categoria Vulnerável (VU). Quem passa pela rodovia pode observar espécies como irara (Eira barbara), tatu-verdadeiro (Dasypus novencimctus), queixadas (Pecari tajacu), cachorro do mato (Cerdocyon thou), dentre outras.

A rodovia possui intenso tráfego de carretas de grãos vindas do norte do Mato Grosso e seguem para o porto de Itaituba e Santarém para exportação. Há um projeto de duplicação desta via e a construção da ferrovia, chamada de “ferrogrão”, que necessita conter ações para minimização de impactos à fauna através de placas educativas, redutores de velocidade e instalação de radares, bem como túneis e viadutos para passagem de fauna e a efetivação da proibição do trânsito de carretas à noite, uma vez que boa parte dos animais atropelados tem hábitos noturnos.

Ameaças e esperanças

As antas não foram os únicos mamíferos ameaçados que foram vítimas recentes das estradas brasileiras. Na última segunda-feira 27, um macaco guariba, que também está na categoria VU, foi atropelado e morto na BR 174 em Boa Vista. Era um macho líder do bando, que chegou vivo à clínica veterinária, mas não sobreviveu aos ferimentos. Em outubro, um tatu-canastra de 36 kg também foi morto na MS 395 em Mato Grosso do Sul.

Mas nem tudo está perdido. Em maio, o primeiro viaduto para travessia de fauna foi construído no Pará, juntamente com 30 outros viadutos e túneis ao longo de 100 km da ferrovia que corta a Floresta Nacional de Carajás. E a legislação que visa reduzir o número de atropelamentos no país também vem avançando, com projetos que determinam a criação de cadastro nacional de acidentes e uma fiscalização constante nas áreas de maior incidência.

*Com a co-autoria de Carolina Lisboa.

 

 

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6 comentários em “A estrada da morte: BR 163 tem recorde de atropelamento de antas”

  1. Pra variar, o rabo abanando o cachorro. Pedir medidas mitigadoras, ok. Mas proibir o tráfego de carretas à noite é um absurdo. Imagina o caminhoneiro ter que fazer conta na viagem pra não passar pelo local a noite. Ou então ter que dormir na estrada. Sem contar que o Parque do Jamanxim foi criado depois da rodovia e ela foi RETIRADA dos limites, é só ver o decreto. Mas falar isso é chover no molhado, já que os ambientalistas, principalmente do icmbio, não devem ter lido o decreto, pra variar.

  2. Essa estrada não deveria existir, ela só serve para os grileiros e o crime organizado.
    Como já havia sido indicado no EIA da pavimentação da BR 163, a melhor opção para o transporte de cargas seria a construção de uma ferrovia, que traria muito mais eficiência e muito menos impactos.

  3. Calma Everardo, De novo jogando seu ódio venenoso contra o mundo natural. Calma Everardo, direcione seu ódio aos homens que fazem a lambança. Lhe dou uma dica, preste atenção. São os politiqueiros municipais, estaduais e federais. Estes sim , merecem.

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