A araucária e a erosão genética que destrói a Mata Atlântica
João de Deus
Biólogo, doutor em Botânica e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina.

A araucária e a erosão genética que destrói a Mata Atlântica

João de Deus
quarta-feira, 23 novembro 2016 16:55
Pôr-do Sol - Telêmaco Borba
O pôr do sol destaca uma grandiosa araucária na região do município de Telêmaco Borba, no Paraná. Foto: Zig Koch

Muito se discute sobre a conservação da Araucaria angustifolia – o conhecido pinheiro-brasileiro ou pinheiro-do-Paraná. Há quem ache exagero considerar a espécie ameaçada de extinção, valendo-se do argumento de que “existem muitas árvores por aí”. Mas será que os que declaram isso já ouviram falar em erosão genética?

“Erosão” é um termo latino que define a ação ou efeito de erodir, corroer, destruir, consumir e gastar de forma lenta e contínua. Bastante empregado na geologia, ele indica o processo de desgaste que transforma e modela a crosta terrestre, desencadeado pela ação das águas, dos ventos e das geleiras, por exemplo. Em sentido figurado, o termo também tem sido empregado para designar desgaste, deterioração ou destruição. Mesmo no contexto geológico, a erosão, quando induzida por atividades humanas, é considerada um dos principais problemas da destruição ambiental, já que o solo é base para a vida no planeta.

Erosão genética

“O biólogo Edward Wilson afirma que quando reconhecemos oficialmente uma espécie como ameaçada de extinção, na maioria dos casos, ela já está à beira do desaparecimento”

Plantas e animais são afetados em virtude dos impactos da destruição de habitats, promovido pela conversão de paisagens naturais em prol da expansão da agricultura, da pecuária, obtenção de madeira, construção de rodovias, cidades, dentre outras atividades humanas. Esse processo que reduz a variabilidade das espécies ganha o nome de erosão genética.

A exploração madeireira, ao provocar a diminuição do número de indivíduos de uma população, favorece a perda de variação genética. Dessa forma, os remanescentes ficam com tamanho inferior ao mínimo adequado para que as espécies mantenham sua continuidade e evolução.

No longo prazo, os efeitos são ampliados com o aumento da endogamia, o fenômeno associado à maior probabilidade de autofecundação e acasalamento entre indivíduos aparentados. Configura-se, assim, a perda significativa da diversidade, ainda que, tecnicamente, não se tenha a extinção da referida espécie. O biólogo Edward Wilson afirma que quando reconhecemos oficialmente uma espécie como ameaçada de extinção, na maioria dos casos, ela já está à beira do desaparecimento.

Nas espécies da Mata Atlântica, são restritos os estudos sobre quantificação da perda da diversidade genética pela fragmentação e sobre a divergência genética interpopulacional. No que se refere ao cenário dos Campos Naturais, um dos ecossistemas que integram o bioma, esse conhecimento simplesmente inexiste. O que se sabe, no entanto, é que em menos de cem anos, a araucária teve parte importante de sua diversidade genética original perdida, principalmente, em virtude da exploração madeireira predatória e da drástica redução da cobertura original do ecossistema. A espécie já perdeu 97% do seu ambiente original no Brasil. Árvores com genes responsáveis por características particulares, como produção superior de pinhões e madeira, foram priorizadas para o corte, já que forneciam madeira de melhor qualidade e em maior quantidade. Dados já publicados apontam uma perda genética superior a 50% na variabilidade da árvore.

Mudanças climáticas agravam a situação

A continuidade das ações humanas predatórias e das mudanças climáticas agrava ainda mais essa condição. Enquanto as alterações do clima dificultam a sobrevivência das coníferas pelo mundo, pragas e doenças se tornam uma crescente ameaça, especialmente em áreas sujeitas a eventos extremos ou com ampliação das temperaturas médias. Na Floresta com Araucária, são raros os fragmentos com área superior a 100 hectares. A maioria situa-se entre cinco e dez, e quase sempre isolados, o que compromete ainda mais a situação da espécie.

A redução na população da espécie ameaça de extinção não só a própria, mas muitas outras a ela associadas, como a canela-preta (Ocotea catharinensis), a imbuia (Ocotea porosa), a canela-sassafrás (Ocotea odorifera), o xaxim (Dicksonia sellowiana) e até animais, como o macuco (Tinamus solitarius), os inhambus (Crypturellus spp.), a jacutinga (Aburria jacutinga), entre outros.

A conservação genética dessas espécies raras e ameaçadas precisa ser assegurada. Trata-se de exemplares que devem ser resgatados e cuidados como um patrimônio, sem sofrer com novas perdas. Apesar de apresentar efeitos extremamente drásticos, em alguns casos, a erosão genética pode ser atenuada ou revertida, portanto, a constatação dessa condição precisa induzir políticas públicas e ações enérgicas imediatas.

De uma vez por todas, precisamos assumir um compromisso que impeça o favorecimento de um cenário ainda mais caótico e completamente irreversível para a conservação da biodiversidade.

 

 

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22 comentários em “A araucária e a erosão genética que destrói a Mata Atlântica”

  1. João de Deus explicita a incoerência de muitas instâncias governamentais e privadas, além de membros da própria academia, que conseguem fazer um genuíno raciocínio de malabarista. Afirmam com a devida empáfia, que a única maneira de "preservar" os últimos remanescentes de áreas naturais, notoriamente da Floresta Ombrófila Mista, mas também outros ecossistemas da Mata Atlântica, é a prática do "manejo sustentável de madeira". Sustentável o quê?! É o que argumentam os responsáveis pelo projeto Imbituvão, promovido pela Unicentro de Irati no Paraná, a Universidade de Rottemburg e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que por sinal licenciou um experimento para cortar araucária nativas adultas em propriedade privadas no centro-sul do Paraná. Paranaenses e alemães ambos detentores de um puro espírito madeireiro do século passado, devem ter feito um curso de aperfeiçoamento com os japoneses que matam baleias sob a alegação de que estão realizando pesquisas científicas. Cinismo é pouco para adjetivar essa conduta ainda determinada em explorar até o último hectare existente. Por aqui, quem pode colocar a casa em ordem é o MPE, enquadrando de maneira adequada esse pessoal que nasceu 100 anos atrasado para o discurso que tentam impor, mesmo contra qualquer coerência ou sustentação técnica. O dinheiro, em última instância, ainda sai fácil na exploração do que sobrou. Mesmo que isso implique em licenciamentos ilegais, de alguma maneira subsidiados por práticas bem conhecidas pela população.

    • O texto de João de Deus assim como este de Clóvis Borges são completamente irresponsáveis. Criticam o que não conhecem. Falam como curandeiros. Desconsideram pesquisadores que trabalham no tema há dezenas de anos. Desconsideram resultados de pesquisas. Desconhecem completamente os verdadeiros fatores de destruição das florestas. É de se espantar a possível (?) formação científica destes críticos e articulistas. Atacam até, pasmem, um projeto de pesquisa!?! Ora, a pesquisa deveria ser estimulada pelos mesmos para que sua teoria sensacionalista fosse confirmada. Ah, outra coisa, isso de espécie ameaçada, livro vermelho ou sua lista, só acredito com informações científicas provando e não com pesquisas de internet e sem campo. Como fazemos. Articulistas, lutem um pouquinho contra a expansão da soja em área de floresta, por exemplo, tá? Falando em MPE, deveria checar alguns diplomas.

      • Expansão da soja ocorrida depois da execução de milhares de planos de manejo, apenas para explicitar do que falamos. Sugiro visitarem os arquivos dos órgãos ambientais com todas as áreas que foram submetidas a esses rigorosos procedimentos. Onde estão os dados científicos que comprovam um plano de manejo sequer que tenha representado a conservação efetiva de uma área de floresta? Onde estão esses estudos? E por favor vejam o que se tornaram hoje as áreas que receberam o licenciamento para manejo nos anos passados. Impossível esconder o sol com a peneira. Os planos de manejo fracassaram de maneira absoluta e só os que ainda tencionam retirar a madeira que restou nos últimos remanescentes insiste nessa prática. O tempo de vocês já passou, o que é lamentável, reconheçamos. E fazer pesquisa é importante sim, desde que os objetivos sejam justificáveis. Cortar araucárias adultas dos últimos remanescentes não tem qualquer argumento que não seja contestável. Ou mesmo suspeito.

  2. O IFFSC concluiu sobre a erosão genética da Araucária quando de sua publicação e conclusões. Trabalhos de Mariot e Mantovani cominham no mesmo sentido, fundamentalmente sobre importantes remanescentes existentes em SC. Faltam investimentos sérios na criação de bancos de Germoplasmas e mesmo incentivos ao plantio da espécie no Brasil e,…. continuamos vendendo as sementes no mercado,…santo pinhão.

  3. "E fecha com fazendeiros criando gado e soja para alimentar uma humanidade cada vez mais obesa."

    Sei que o texto não versa sobre esse assunto "obesidade", porém não é o soja nem o gado que estão colaborando com
    isso!!!

    Não que com essa minha afirmação esteja de acordo com o que acontece com nossas florestas!!!!

    Porém, devemos ter um pouco de cuidado com nossas afirmações, uma vez que as mesmas podem se transformar em 'opinião pública' e se replicarem ……

    Excelente texto!! Lindas imagens!!!

  4. O Brasil é um país que não possui política ambiental e florestal estruturadas, ou seja, políticas que tenham por objetivo manter e aumentar a área florestal e a biodiversidade. Qualquer argumento, por mais idiota que seja ("produzir comida", "produzir energia") é utilizado para liquidar com os recursos naturais remanescentes. Vi muitas araucárias sendo assassinadas em Porto Alegre para a construção de prédios – segundo a administração petista da época, seria "para ajudar os pobres". Já a iniciativa privada investirá em restauração florestal quando isto for economicamente interessante, ou seja, quando houver um mercado bom para os produtos florestais que venham a ser produzidos. É o caso do pinhão para fins alimentares, por exemplo, cujo valor de mercado sobe sem cessar, pelo menos em São Paulo. Só que ninguém vai investir nisso se ainda tiver que contratar seguranças para afastar a ladroagem das "comunidades" do entorno como acontece em certas partes da serra gaúcha. Enfim, o maior problema é a mentalidade do povo brasileiro e seu estado corrupto e predatório! No mais, qualquer um pode criar uma muda de araucária numa embalagem reciclada de leite longa vida e depois plantá-la em lugares desocupados, em São Paulo já há muita gente fazendo isto na tentativa de incrementar a cobertura arbórea da cidade, já que não se pode contar com o poder público!

  5. Tergiversando: para quem não sabe o manejo florestal sustentável é a única forma legalizada de uso de florestas, sua base é o conceito de crescimento no tempo, retirando da floresta sua capacidade de produção anual para um ciclo de corte, e não uma empáfia.
    Empáfia é falar sobre a extinção de uma espécie e não se encontrar resultados de estudo que a colocaram na lista, com base nos critérios da lei da Mata Atlântica.
    A FAO (2007) órgão extremamente renomado argumenta sobre a preocupação com a desaparição de florestas não manejadas. Bauhus et al., 2009 afirmam que intervenções florestais são importantes , pois contribuem com a aceleração da sucessão florestal e que a biodiversidade, complexidade estrutural e funcional do desenvolvimento florestal são promovidos por etapas de sucessão florestal, isto é, a necessidade de renovação da floresta, caso contrário não há regeneração da espécie (não formam novos indivíduos) gerando autofecundação.
    Quanto a erosão ou perda de diversidade genética vejam argumento de Stefenon et al. (2008) o moderado a alto nível de diversidade genética na populações de Araucaria angustifolia, depois de intensa fragmentação dos bosques naturais, tem o potencial de produzir materiais com suficiente diversidade genética para a conservação da espécie, estimulado pela implantação de florestas plantadas com a espécie ou a gestão sustentável dos bosques remanescentes existentes.

  6. O interesse na conservação está justamente no uso dos recursos, não usa-los é um desestímulo a preservação de florestas.
    Manejo favorece o crescimento, estrutura diamétrica futura com árvores de floresta primária, a regeneração natural, a diversidade genética, desenvolvimento social e cultural de propriedades rurais.
    Recursos são explorados para produzir bens de consumo. Até mesmo para biólogos. Até para primitivos moradores de áreas isoladas que dependem dos recursos florestais, da fauna, e do ambiente para sobreviver.

  7. Correto então seria proibir qualquer uso de qualquer recurso, não somente o florestal – diga-se a exploração botânica de recursos florestais para produção de cosméticos? Do mar para peixes? Do lixo que forma ilha em oceanos? Dos agrotóxicos consumidos? Da irrigação? De áreas de encostas para construção de prédios e condomínios de luxo em áreas litorâneas?
    Assim, o raciocínio é justamente o manejo sustentável, saber usar os recursos, caracterizando o raciocínio da capacidade de inteligência humana, mais do que falar sem sapiência do que não entendem.
    O manejo é o instrumento assim garantido para a conservação da espécie o que deixa claro o Art. 3º da lei nº11.428 de 12/2006 Consideram-se para os efeitos desta Lei: item – V – exploração sustentável: exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável

  8. Nas últimas colaborações podemos observar um encadeamento de argumentos que comprova a presença ativa de pessoas e instituições que se negam a admitir o óbvio. O manejo florestal (especialmente no Sul do Brasil) foi um instrumento para legalizar o desmatamento. Nunca existiu uma aplicação técnica capaz de manter a floresta sem impactos significativos. Essa é uma conversa fácil que não tem mais espaço. Como é possível se insistir numa falácia mesmo quando o "recurso" deixou já de existir como ativo capaz de ser explorado em escala significativa? A economia com madeiras oriundas de florestas nativas no sul do Brasil acabou faz décadas e o pessoal do "manejo" continua a insistir na necessidade de "explorar para conservar". É lamentável que ainda persistam esses posicionamentos, que nada mais representam do que o interesse de exploração até a última árvore. Não há, e nunca houve, qualquer compromisso de conservação desse pessoal. Portanto trata-se de letra morta tentar argumentar com esse público da necessidade de uma mudança de mentalidade que incorpore as pouquíssimas áreas remanescentes de FOM e de Campos Naturais como relictos de um Patrimônio Natural, exaurido de forma truculenta e irresponsável. E que merecem o nosso respeito e admiração como espaços a serem preservados, atrelado a novas formas de uso que perenizem uma amostra já quase insignificante deixada ainda de pé, a despeito da saga incontrolável da cultura madeireira.

  9. Infelizmente a invasão européia não trouxe com ela uma cultura de preservação para o Brasil. Ao contrário, a ordem era de "arraso" como consta em livros históricos escritos por pessoas sérias e conscientes do erro cometido no passado e que persiste até hoje. Sempre cito o livro A FERRO E FOGO, do incrível Warren Dean que documenta a triste realidade da devastação da Mata Atlântica brasileira. O próprio nome MATA ATLÂNTICA é incorretamente usado – na minha opinião – porque se trata de um complexo de diferentes florestas referido como se fosse apenas uma mancha de mata ou capoeira. Qualquer um pode aprender muito sobre a diversidade florestal brasileira na publicação do IBGE, 2012: Manual Técnico da Vegetação Brasileira. 2a ed. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros…. "As florestas não são feitas de árvores. Elas são um intrincado complexo de vidas e não-vidas, todos dependentes; desde bactérias invisíveis, passando por miríades de invertebrados ocultos e milhares de seres fixos e móveis. No entanto, todos parecem ser uma coisa só aos nossos olhos humanos, egoístas e imediatistas". (R. Rocha, 2016). Com toda a humildade….

  10. O texto de Joao de Deus tem total sentido e está baseado em muitos anos de estudo de vários pesquisadores. Quem quer desqualificá-lo age de má fé ou por ignorancia. Se possui argumentos científicos para faze-lo, que os apresente. Uma vez que nao há replantio da espécie e a seleçao para o abate era e ainda é feita com base nas características morfológicas mais adequadas a indústria, é óbvio e ululante que certas cepas ou sub-espécies já desapareceram ou estao praticamente extintas. Nao é preciso ser altamente instruído para entender isso. Isso funciona nao apenas com a flora mas também na fauna. Talvez pudesse-se arguir que ocorre inclusive na espécie humana, mas meus conhecimentos nao me permitem ir tao longe (neanderthais ?). Em termos de fiscalizaçao, e conservaçao, gostaria de saber se há alguma coisa que realmente funcione bem neste país. Seria novidade pra mim e muitos leitores. Negar a precariedade dos serviços públicos e a corrupçao encalacrada nos órgaos ambientais seria de uma alienaçao tremenda. Além disso, como empresário, sinto-me constrangido e lamento que meus colegas grandes empresários do agronegócio nao consigam enxergar outras possibilidades de enriquecimento. O turismo, a pesquisa científica realmente bem intencionada ou outros negócios que nao tenham conotaçao puramente extrativista parecem fantasia para essa classe que simplesmente busca fazer o que seus pais faziam, presos que estao ao mercado de commodities. Creio que o papel do Estado falha novamente aqui -bem como das associaçoes/federacoes empresariais- ao nao apontar novos rumos, nao promovendo nem inovaçoes nem a capacitaçao em novas searas.

  11. Nunca existiu? Já existem planos de manejo elaborados para florestas naturais. Basta aplicá-los. O que de fato o compromisso dos órgãos em realizá-lo até hoje não se concretizou, Por quê? Falta de aptidão. É mais fácil ficar na dialética entre o que pode ou não pode, em opiniões divergentes do que ação em uma sustentabilidade dos recursos?
    Não se trata da última árvore, nem tão pouco da última gota de recurso. Mas sim, cortar o recurso que a floresta produz, seja uma única árvore na floresta, ou um conjunto, deixando as demais para próximos ciclos de corte. Estimulando plantio, replantio, etc etc. E a continuidade de uso do recurso.
    Pelo que se sabe, vários países europeus e americanos exploram suas florestas naturais e as mantêm sem destruição por mais de séculos.
    Então porque aqui não pode? Essa é a lógica impossível de entrar na consciência (como falou o colega – desses neanderthais?).
    Como nunca houve manejo em FOM, não há argumentos que para falar que não pensamos em conservação, pelo contrário o que se quer é produção florestal por séculos e séculos.
    Então não se pode acusar que foi o manejo que extinguiu o recurso, sim o não manejo.
    A FOM está sem manejo há mais de 40 anos. Então como que com as leis conservacionistas ainda não ocorreu aumento de diversidade?
    O que foi feito? Será que usar outras técnicas se permitido não poderiam aumentar a eficiência.
    Medo do desconhecido?

  12. O texto do Dr. João de Deus aponta uma verdade que não tem como esconder; talvez faltaram muitas referências a estudos que comprovam a erosão genética da Araucaria angustifolia e de outras espécies citadas pelo artiulista. Ademais, estamos falando de Floresta Mista (FOM), ou mais especificamente ainda, florestas com araucárias, das quais restam meros três por cento da área original. Se restam três por cento e a IUCN recomenda que no mínimo 17% de cada bioma devem ser preservados, deixando 83% para o manejo e supressão para o uso humano, o que estamos discutindo? Não há o que discutir, temos que não apenas preservar o que resta mas também AMPLIAR drasticamente a área coberta por FOM por meio de regeneração natural ou induzida, tecnica e ecologicamente conduzida até atingir, no longo prazo (100 – 200 anos?) o mínimo de 17 % da área original. Se nem 17 % dos biomas originais conseguirmos deixar para sobrevivência de milhões de espécies enquanto reservamos 83 % para os interesses de uma única espécie, então isso é sinal eloquente de que, como espécie humana estamos, de fato, perpetrando uma das maiores e mais violentas extinções em massa já acontecidas em toda a história de vida no planeta, onde um século não é absolutamente nada diante da história da vida na Terra. Não se trata de visão de longo prazo humano, mas sim de visão de longo prazo geoecosférico.

  13. Vale retomar aqui os conceitos de manejo florestal definidos na legislação brasileira:
    “manejo sustentável: administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras ou não, de múltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e serviços” (BRASIL, 2012)”;

    “manejo: todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas (BRASIL,2000)”.

    Se o manejo é um procedimento que assegura a conservação, qual o motivo real de ser suspenso/proibido? Ou a legislação está errada?

    A verdade é que temos uma legislação atual permissiva ao corte total da vegetação para outras atividades, como agricultura e pecuária, que autoriza corte acima de 20% da área em qualquer bioma brasileiro. Já o manejo, por sua vez, preconiza a manutenção da cobertura florestal e da regeneração das espécies, além de manter 80% da estrutura inicial da floresta de árvores remanescentes.

    Portanto, deve-se haver uma defesa maior ao manejo, o qual não pode ser penalizado pela alteração do solo ou pela extração ilegal. Ele é a única alternativa econômica de manutenção da floresta em pé. O manejo deve ser visto como um aliado e não como causador do problema.

    A pergunta final aos que, de alguma forma, estão ligados ao setor florestal é: para que lado queremos ir? O uso constante da força da lei é realmente a nossa única alternativa possível para conservar as espécies e as áreas remanescentes? Possivelmente não….. mas, com certeza, é a mais fácil!

  14. Os últimos estudos que apontam a quantidade de remanescentes na FOM são de 2001, ou seja, há 15 anos atrás 0,8% da cobertura original encontrava-se em estágio avançado de regeneração, e 12,3 % em estágios médios e iniciais. Imagino que seguindo a tendência nacional de desmatamento o Paraná não ficou para trás e essa conta deve estar resultando em valores ainda menores.
    Se considerarmos 20.000.000 ha como área original de cobertura da FOM e quisermos desenvolver "manejo sustentável" em 12,3% temos a quantidade pífia de 246.000 ha com "possibilidade" de ser explorado.
    Agora pergunto aos Senhores detentores da cultura cientificista que assola o ocidente, isso é suficiente para alavancar a indústria madeireira que tenha como produto principal a Araucária? É óbvio que não. Os interesses são claramente setorizados e mais uma vez o benefício econômico será privatizado, enquanto ônus será socializado. O recurso que se deseja estudar já se acabou. Não existe mais área natural com araucária a ser explorada. O negócio agora é restaurar e realmente ir brigar por território com a soja.
    Se os pesquisadores querem chegar a um resultado que permita inferir estatisticamente qual o ciclo ideal para o "manejo sustentável" da Araucária, então que sigam o modelo europeu…iniciem hoje mesmo um plantio de araucárias em áreas degradadas, realizem cortes aos 35 e 50 anos. Na Europa, os ciclos chegam a atingir 120 anos, ou seja, pensamento de longo prazo que a nossa cultura imediatista de lucro financeiro não nos permite enxergar.
    Finalmente, admitir que as pesquisas estejam sendo financiadas e apoiadas por órgãos que tem interesses duvidosos é o primeiro passo para que o MPE possa investigar as licenças de corte.

  15. Percebe-se uma imensa distância entre os dois posicionamentos defendidos nos comentários acima. Aquele que defende a existência de novos mecanismos para garantir os últimos remanescentes de áreas naturais do planalto sul-brasileiro. E aquele que entende que esses últimos remanescentes devem ser usados como fonte de madeira para justificar sua existência. Aquele que percebe que a conservação da biodiversidade depende da manutenção de áreas mínimas e de processos ecológicos para a conservação da biodiversidade de ecossistemas naturais. E aquele que percebe a floreta como algo muito mais simples, uma área provedora de madeira e outros insumos, sem que a questão da efetiva proteção signifique algum valor agregado. Aquele que tem ciência da destruição impressionante imposta a essa região nas últimas décadas, em muito facilitada com a ilusória aplicação de planos de manejo florestais. E aquele que avalia essas práticas como um flagrante insucesso, pela óbvia não aplicação de preceitos mínimos para garantir a conservação, aliada a uma saga de abertura de frentes a outros usos dessas áreas, que se limitaram, em geral, a um manejo de apenas um ciclo e nada mais. Pena não existir um meio termo em que todos pudessem pressionar de maneira mais qualificada o poder público e o setor privado a reconhecer o que sobrou como um patrimônio de todos os brasileiros, que precisa ser adequadamente protegido e seus proprietários justamente recompensados. É esse tipo de artifício que poderia salvar o quase nada que ainda resta. O resto, reconheçamos, não está surtindo efeito algum a não ser mais destruição.

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