Caçada e atropelada, não tem harpia que resista

Aureo Banhos e outros*
segunda-feira, 13 abril 2015 23:47

Harpia no viveiro do Projeto Cereias. Foto: Leonardo Merçon
Harpia no viveiro do Projeto Cereias. Foto: Leonardo Merçon

Em menos de 10 meses, indivíduos de três espécies de grandes vertebrados ameaçados de extinção foram atropelados no trecho da rodovia BR-101 que corta as Reservas Biológica de Sooretama e Natural Vale, no Espírito Santo. Três antas (Tapirus terrestris), sendo uma prenhe, uma onça-parda (Puma concolor) e agora uma harpia (Harpia harpyja) morreram nessa estrada que intercepta duas das reservas de mata atlântica da Costa do Descobrimento, declaradas como Patrimônio Mundial da Humanidade, que formam o maior fragmento contínuo de floresta de tabuleiro do Corredor Central da Mata Atlântica.

Na manhã da última quarta-feira (08), durante o monitoramento de animais atropelados realizado pela equipe da Reserva Biológica de Sooretama, uma fêmea adulta de harpia foi encontrada na margem da BR-101, no canteiro próximo à mata. A ave foi resgatada ainda com vida, porém muito debilitada, e levada imediatamente para o Centro de Estudos e Reintrodução de Animais Selvagens (Projeto Cereias), em Aracruz. No final da tarde, foi conduzida pela equipe do Programa de Conservação do Gavião-real (PCGR) para o Hospital Veterinário da Universidade de Vila Velha. Devido à distância, o animal chegou ao Hospital Veterinário na parte da noite, onde foi imediatamente atendido por professores e médicos veterinários residentes, especialistas em Medicina de Animais Selvagens.

O animal estava bastante prostrado. Recebeu os primeiros socorros e foi colocado em observação para realização dos exames clínicos. Na manhã do dia 09 de abril, após exame físico minucioso, percebeu-se um grande edema na região abdominal, e as radiografias revelaram dois projéteis de chumbo alojados no corpo do animal. A ave foi medicada e colocada em observação novamente. Mesmo com todos os cuidados tomados, ela não resistiu e morreu no início da tarde.

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A equipe do laboratório de patologia do hospital realizou a necropsia logo após o óbito, e o laudo conclusivo sobre as causas da morte deve sair em 30 dias. Porém, a equipe adiantou que a harpia apresentava lesões indicativas de trauma, como presença de fraturas em quilha e sinsacro, além de hematomas em abdômen e cabeça e hemorragias em encéfalo e lateral do globo ocular, sendo todas as lesões encontradas no lado direito. Além disso, os projéteis de chumbo foram encontrados um em musculatura peitoral esquerda e outro dentro da cavidade celomática. Aparentemente, não havia correlação das balas com os traumas recentes.

No dia 10 de abril, uma equipe da Universidade Federal do Espírito Santo, que realiza pesquisas sobre os impactos da BR-101 na fauna da região, vistoriou o local que a ave foi encontrada. Vários pedaços de um retrovisor de caminhão Scania foram encontrados espalhados ao redor de onde o animal foi resgatado. A velocidade que os veículos passam no local de dia foi mensurada. A média é de 80 km/h, mas muitos passam acima de 100 km/h, no trecho em que o máximo permito é 60 km/h. O acidente ocorreu a menos de um quilômetro de um radar fixo de controle de velocidade.

A harpia é maior águia das Américas, pode atingir mais de dois metros de envergadura, possui taxa lenta de reprodução, cria um filhote a cada dois a três anos por casal, e pode viver mais de 40 anos na natureza. A remoção de uma fêmea adulta reduz a viabilidade de populações locais dessa espécie.

No Brasil, no final de 2014, a harpia passou a ser considerada espécie ameaçada de extinção, classificada como vulnerável, em todo território nacional. Na Mata Atlântica, restaram poucos indivíduos e a floresta das Reservas Biológica de Sooretama e Natural Vale é um dos últimos refúgios desta espécie no bioma. A população de harpia nas reservas é monitorada desde 2009 pelo PCGR. Entre os registros, um indivíduo foi avistado em 2011 com um macaco nas garras em uma árvore na margem da rodovia, no mesmo trecho deste atropelamento. As condições que o espécime atropelado foi encontrado retratam as ameaças que a espécie sofre na região, os indivíduos estão sendo caçados e impactados pela rodovia.

O que se pode fazer no curto prazo é aumentar a fiscalização da caça e da velocidade dos veículos na região e levar os animais acidentados imediatamente para um hospital veterinário. Quem sabe as harpias que restam nas reservas ainda resistam. 

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*Aureo Banhos, Biólogo e Professor da Universidade Federal do Espírito Santo  aureobs@gmail.com
João Rossi Júnior, Médico Veterinário e Professor da Universidade de Vila Velha  joao.rossi@uvv.br
Flaviana Lima Guião Leite, Médica Veterinária e Professora da Universidade de Vila Velha  flaviana.lima@uvv.br
Ayisa Rodrigues de Oliveira, Médica Veterinária Residente na Universidade Vila Velha  ayisa.rodrigues@gmail.com
Isabela Hardt, Médica Veterinária Residente na Universidade de Vila Velha  isabelahardt@yahoo.com.br
Maria Cristina Valdetaro Rangel, Médica Veterinária e Mestranda do Programa de pós graduação em Ciência Animal da Universidade de Vila Velha  cristina.valdetaro@gmail.com
Flávia Mara Machado, Médica Veterinária da Universidade de Vila Velha  flavia.machado@uvv.br
Tânia Margarete Sanaiotti, Bióloga e Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia  tania.sanaiotti@gmail.com

 

 

Saiba Mais
Ação em defesa da Reserva Biológica de Sooretama

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2 comentários em “Caçada e atropelada, não tem harpia que resista”

  1. o que faz alguém como ser humano caçar animais ainda hoje em dia??? só posso entender que são verdadeiras bestas humanas.
    À parte destas bestas, como pode se autorizar uma estrada a passar dentro de uma reserva??? como podemos eleger tão mal nossos representantes??? quanta corrupção!!! que desgosto!!! que tristeza!!! que raiva!!!

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