Yara de Melo Barros
Presidente da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil e Diretora Técnica do Parque das Aves

Zoos x Santuários: uma disputa sem futuro e sem utilidade

Yara de Melo Barros
segunda-feira, 2 fevereiro 2015 22:29

Parque das Aves. Foto:
Parque das Aves. Foto:

Quando comecei a trabalhar em um zoo, tinha a impressão que todos os argumentos contrários à existência destas instituições vinham de pessoas que eram contra manter animais em cativeiro. Após assumir a presidência da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB), há quase dois anos, percebi que o que incomoda mesmo é o fato de termos um público, o que para os críticos significa que estamos explorando economicamente os animais. É bem interessante, pois 56% das 124 instituições no Brasil não cobra entrada.

Ao demonizar os zoos pelo papel de vilões capitalistas, sobram os pretensos “santuários” (não existe esta designação na legislação), que mantém também animais em cativeiro, mas vestidos com essa roupagem que mais parece funcionar como uma capa de invisibilidade e os torna praticamente imunes a críticas. Afinal, estão salvando os animais de nós, porcos capitalistas.

O que mais me impressiona é que as pessoas não se revoltam se os animais estão mantidos em condições inadequadas em santuários. Parece que eles têm um salvo-conduto que lhes permite transitar pelo universo de cativeiro sem serem julgados ou avaliados, pois representam “o bem”. E o fato de que em santuários os animais também estão em cativeiro parece ser irrelevante para os que defendem sua existência.

Zoos custeiam conservação

“No mundo, zoos são o terceiro maior financiador de projetos de conservação.”

Zoos trabalham com reprodução para a conservação, da qual dependem muitas espécies criticamente ameaçadas ou extintas na natureza. Temos exemplos no Brasil de duas espécies extintas na natureza que podem ser salvas por reprodução em cativeiro: a ararinha-azul e o mutum-de-Alagoas. Hoje, não existem ararinhas em zoos brasileiros, apenas em um criador particular, mas por muitos anos o Zoo de São Paulo integrou o programa. O programa de conservação do mutum-de-Alagoas agora terá a participação inicial de três zoos: Parque das Aves, Sorocaba e Bauru. Isso é uma contribuição direta dos zoos para a recuperação de uma espécie extinta na natureza.

Trabalhos de recuperação de espécies e ambientes custam caro. Manter animais em boas condições custa caro. Apoiar técnica e financeiramente projetos de conservação em campo tem um custo altíssimo. O que os zoos arrecadam é importante para cobrir estes custos. No mundo, zoos são o terceiro maior financiador de projetos de conservação.

Acho interessante o discurso “libertário” de instituições que acham que zoos não devem existir e que devemos soltar todos os animais (há cerca de 50 mil animais nos zoos brasileiros). Políticos oportunistas vez por outra propõem projetos de lei para transformar zoos em santuários. Este tipo de projeto costuma não ter pé nem cabeça e faz você pensar em que planeta de natureza intocada a pessoa vive. Quando os leio, piscam na minha frente duas palavras em um letreiro cheio de luzes: populismo e oportunismo.

Considerando que milhares de animais são apreendidos diariamente oriundos do tráfico e montes de animais são resgatados vítimas de acidentes de caça, maus tratos e atropelamentos e que são destinados para zoológicos, eu sempre pergunto para estas pessoas: qual é o plano? Para onde estes animais seriam levados? Quem cuida? Com que recursos? Qual seria o projeto para espécies ameaçadas na natureza ou mesmo extintas — e que precisam ser reproduzidas em cativeiro — terem uma chance de sobrevivência? Adoraria ler o projeto deles para o gerenciamento da fauna no país. Mas a questão é esta: geralmente não há projeto, só discurso. Não há trabalho de educação, ou ações concretas para impedir a retirada de animais da natureza, por exemplo, para comércio ilegal.

Alternativa romântica

“Os pretensos santuários no Brasil (…) não trabalham com recuperação de espécies. O foco é apenas em indivíduos”

Ano passado os zoos do Brasil se engajaram em uma campanha para aumentar o número de usuários do Sistema Urubu, um aplicativo que pode ajudar a mapear os atropelamentos de fauna silvestre no Brasil e propor medidas mitigatórias de forma mais eficiente. Foi criado o Dia Nacional de Urubuzar, que teve a participação de cerca de 60 zoos, e que em um dia duplicou a quantidade de usuários do Sistema, de 5 mil para 10 mil pessoas.

Os pretensos santuários no Brasil, a não ser que eu esteja muito mal informada, não trabalham com recuperação de espécies. O foco é apenas em indivíduos, e não há nada que garanta que os animais por eles mantidos vivem melhor do que os animais de zoológicos. O conceito de santuário no Brasil só tem força porque tem como base a visão romântica e irreal que das pessoas que veem estes lugares como Shangri-lás, onde vivem felizes animais resgatados dos zoos. Por sua vez, esta visão só se sustenta porque não há público que possa avaliar as reais condições dos animais. Uma coisa meio no estilo “animais longe dos olhos, mas discurso apelativo perto do coração”.

Tivemos recentemente circulando a notícia de que a justiça argentina teria aceito um pedido de habeas corpus para uma fêmea de orangotango que vive no Zoo de Buenos Aires há mais de 20 anos, sob o argumento de que ela sofre um “confinamento injustificado”….e que deveria ir para um esquema de “semi-liberdade”, em um suposto santuário no Brasil. Isso não é semi-liberdade….é cativeiro da mesma forma, muitas vezes com recintos mais pobres em estímulo do que os zoos e com manejo questionável, onde os animais são alimentados com guloseimas variadas, que vão de feijoada a maionese, passando por marshmallow, tudo facilmente disponível em vídeos no Youtube.

Uma coisa é clara: a ausência de público não transforma um depósito de animais em santuário, e o que garante o bem-estar dos animais não é o isolamento das pessoas, e sim um bom manejo. Independente da instituição.

A presença de público permite ainda que só no Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas por ano possam ser sensibilizadas para questões ambientais através do contato com animais.

Já vimos santuários questionarem a eficácia do enriquecimento ambiental feito pelos zoos. Imagino que precisam disso para manter vivo o “mito” do santuário, porque se eles aceitarem que técnicas de enriquecimento podem sim melhorar a vida de animais em zoos, eles desconstroem seu maior (e equivocado) argumento: viver em um zoo jamais pode ser bom para um animal.

Acredito que é necessária uma mudança de percepção: em vez de adotar uma postura pró ou contra zoos, que tal perceber que somos todos “pró-animais”, e tentarmos juntos construir soluções eficientes? Essa batalha sem fim não agrega, não muda as coisas e divide esforços de quem poderia estar trabalhando de forma integrada. Além disso, tira o foco do problema real: como vamos melhorar nossas instituições?

Quem se preocupa com animais deve lutar para que as instituições que os mantém sob cuidados humanos tenham excelência no manejo e priorizem o bem-estar animal, já que o nome “santuário” não garante a qualidade de vida de animal nenhum.

A única coisa que a ausência de público visitante certamente garante é que fiquem longe dos “olhos” dos fiscais mais exigentes que uma instituição pode ter: os visitantes.

 

 

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15 comentários em “Zoos x Santuários: uma disputa sem futuro e sem utilidade”

  1. "Os pretensos santuários no Brasil não trabalham com recuperação de espécies. O foco é apenas em indivíduos". Indivíduos estes que possuem sentimentos, assim como os humanos. Ninguém quer ir pra cadeia porque sabe que perderá a liberdade – punição a quem comete um crime. Pergunto: qual crime, os animais cometem pra serem merecedores de confinamento eterno? O que incomoda os ativistas nunca foi o fato dos zoológicos terem um público específico que faz visitas aos animais e o qual paga por isso. Arrogância é tomar, como linha de pensamento, esse ponto de vista. O que sempre desagradou é o fato de que animais são explorados em sua existência pra que o homem – e somente o homem – tenha benefícios diversos. A sociedade civil não quer zoológicos: quer conscientização. E até uma criança de 5 anos de idade sabe o significado de "cadeia".

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  2. Eu nem li tudo, sem tempo e sem paciência, mas tb discordo, pessoas que só enxergam sob a ótica que lhes convém, tendem a "cavar" justificativas e argumentos até onde Deus duvida…. dizer que os zoos e afins, contribuem com a perpetuidade das espécies, significa justificar o que causa a extinção…. e eu combato tanto um qto outro Emoticon wink ou seja, o que contribui para a extinção tem que ser combatido e assim sendo os zoos e afins serão/são totalmente inúteis…. um erro nunca justifica outro !!!

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  3. Presidente da associação dos Zoológicos, defendendo zoológicos. Existe algo mais óbvio do que isso?
    Não sou contra zoos, sou a favor da qualidade de vida de todas as espécies e de indivíduos (que por um motivo ou outro) enjaulamos, manejamos, etc. E ainda não visitei nenhum zoo, que eu pudesse dizer "esse aqui é ok".
    Animais estressados, em jaulas minúsculas, presas ao lado de predadores, animais de savana em "habitats" de floresta úmida, cobras, peixes, anuros e etc. em aquários minúsculos.
    A agregação de funções ao zoológico é fruto dessa "crise" ética, não venha me dizer que foi por livre e espontânea vontade. É óbvio que tem alguns zoos que se destacam em conservação e educação ambiental, mas a que preço para as demais espécies? E todo o resto? Se o objetivo é conservação e educação ambiental, porque valorizar tanto a fauna exótica? Se o objetivo é bem-estar, porque recintos tão pequenos, mal caracterizados, animais comendo uns aos outros por conta do abandono (Só o fato de ter ocorrido algo tão terrível em um zoo, mostra a má gestão destes espaços e que algo realmente precisa mudar)?
    Santuário, Zoo, não me importa o nome. O que me importa são as ações.

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  4. Descaradamente tendencioso. Defender zoos e aquários com aquele velho chavão de que "contribuem para a preservação das espécies" , francamente – soa como os caçadores se dizendo "ecologistas" porque querem preservar para poder continuar caçando.
    Nivelar por baixo dizendo que os ativistas querem "que se soltem todos os animais", sinceramente?! Quem em algum momento falou algo assim? Só no Twelve Monkeys mesmo….
    É só olhar as reais condições desses zoos e aquários, muito simples: os acidentes, os maus-tratos e abusos, animais definhado, solitários, deprimidos, explorados, vidas inteiras roubadas, ou morrendo de fome.
    Faça-me o favor….
    Santuários podem não ser o ideal nem perfeitos, mas pelo menos retiram os animais dessa situação de prisão perpétua, infelicidade e maus tratos.

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    • Mostre para nós esse Zoo onde ocorre "os acidentes, os maus-tratos e abusos, animais definhado, solitários, deprimidos, explorados, vidas inteiras roubadas, ou morrendo de fome", com as devidas provas, que ele será denunciado!

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  5. Se a sociedade que ela representa ajudasse a pressionar os governos federal e estaduais quanto a criação de unidades de conservação pelo país nesta unidades poderia ocorrer o manejo de fauna. Os zoológicos fazem reprodução controlada, pois não tem estrutura suficiente para uma população maior. Outra coisa interessante é porque alguns zoológicos do Brasil tem um exemplar de leão. O que ela defende neste artigo é a profissão de zootecnista.

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  6. Alguns falam em santuários baseados nas mentiras dos próprios Zoos que "os animais não tem condições de sobreviverem em seus respectivos habitats naturais." Mentira, a maioria não perde seus instintos naturais e pode-se perceber isso através da convivência com nossos cães e gatos, são domesticados com limitações, seus instintos de caça, sono, nomandismo, audição, visão e olfato não se extinguem com muros e cercas domiciliares. Evidente que expor animais diariamente à exposição de pessoas que costumam rirem e gritarem como histéricas diante de uma jaula e ainda cobrar ingresso é capitalismo sujo, covarde. Sou totalmente favorável ao retorno à vida no seu próprio habitat e é só tratarmos os animais como não humanos incapazes de interagir conosco no nosso ambiente, devolve-los às matas. Santuários seriam um estágio intermediário entre o inferno do cativeiro e a liberdade.

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    • Então, com base nesse teu argumento, você conseguiria viver numa selva amazônica, sem roupas e sem ferramentas, pois ainda possui alguns aspectos instintivos como o sono, nomadismo, audição, visão e olfato?

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  7. a visão desta presidente dos zoologicos, me fez voltar no tempo e lembrar que um dia neste pais os coroneis da escravatura dos negros , queriam justificar seus atos ,dizendo que se abolir -se a escravatura a economia do brasil quebrava. DOGMA FALSO nao quebrou! e a justiça foi feita.
    outra lembraça mais recente é da deputada katia abreu (MISS MOTO SERRA) que defende a bancada ruralista, dizendo que o brasileiro tem que comer alimento com agrotoxico sim, pois o custo da alimentaçao caiu depois da revoluçao verde que destroi ,polui e envenena pessoas.
    não ha argumentos para certas coisas, ta na cara que é uma tentativa de salvar seu emprego, mas não ha mais nada a se salvar ,o fim dos zoo com esta bem proximo .

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  8. Já que santuários e zoológicos não devem existir, é preciso discutir como viabilizar (técnica e economicamente) a reintrodução desses animais a natureza! Não vejo ninguém que é contra os cativeiros dar ideias de como bancar os santuários sem visitação, ou viabilizar a soltura dos animais que estão em cativeiros. A sociedade civil poderia focar em educação e combate a caça e ao tráfico, além de fiscalizar (controle social) os santuários, zoológicos, CETAS e demais instituições que lidam com manejo de fauna silvestre, afim de que cumpram seus papéis, enquanto a solução definitiva não vem! Talvez porque não exista uma única solução.
    Concordo com a Yara, não nos mesmos termos, de que se grita muito, bate-se no peito, fala-se de ser contra, mas nada de soluções concretas… Tenho os dois pés atrás com políticos, sem conhecimento técnico, que levantam bandeiras de “sou a favor dos animais”. Usam a boa vontade das pessoas para criarem redutos políticos… só isso.

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