Questões sobre o Trem Bala e o Porto Sul

Rui Rocha
terça-feira, 31 agosto 2010 13:51
 

A revista Exame de setembro coloca, em título gigantesco: quem precisa do Trem Bala ? A pergunta, aparentemente ingênua, põe o dedo na ferida em um tema tão caro à mídia – as debilidades da infraestrutura brasileira. A revista, conhecida por executivos e empresários, se coloca do lado de Maria dos Anjos, uma empregada doméstica que pega três ônibus para chegar ao trabalho, acordando as 4 horas da manhã, para chegar as 7 horas no bairro do Jardins. No final, o artigo questiona: para que uma obra como o trem bala, ao custo de 40 bilhões de reais, se as necessidades por transporte público, saneamento básico e moradia nas grandes cidades são tão gritantes?

Todos os dias lemos matérias na imprensa questionando a falta de investimentos em infra-estrutura, com ênfase em logística, no Brasil. Na Bahia, o custo do escoamento de commodities como soja e ferro, prejudicado por falta de ferrovias e portos, está sempre em destaque. De um modo aparentemente sábio, os Governos de Lula, Dilma e Jaques Wagner, os três irmãos de fé desta eleição aqui na Bahia, anunciam que a ferrovia Oeste Leste e o Porto Privativo da BAMIN farão um par perfeito, com investimentos previstos de quase 7,5 bilhões de reais, e ainda vão gerar dezenas de milhares de empregos.

Como o desemprego é um dos maiores problemas do Sul da Bahia, após a queda abrupta da economia cacaueira, a vinte anos atrás, este projeto chegou aqui com uma propaganda agressiva.

Como o desemprego é um dos maiores problemas do Sul da Bahia, após a queda abrupta da economia cacaueira, a vinte anos atrás, este projeto chegou aqui com uma propaganda agressiva. A BAMIN fez logo amizade com alguns blogueiros e radialistas, patrocinou o time de futebol dos ilheenses, divulgando diariamente na TV Globo baiana que o seu porto vai ampliar os peixes com as suas colunas de concreto no mar… e que por isso os pescadores sairão ganhando com esta obra prima do século XXI.

Ledo engano pensar que o porto da BAMIN e a Ferrovia Oeste Leste são nossas esperanças para a crise de emprego no Sul da Bahia e no semi-árido.

Portos privados são especialmente automatizados, gerando poucos empregos e com perfil diferenciado. Os desempregados do cacau no Sul da Bahia dificilmente trabalharão neste porto. Desfeito este mito, aponta-se uma siderúrgica como a salvação da lavoura, mesmo que esta ainda seja um pré-projeto de concepção indefinida, e também com empregos limitados. Além do mais, as atividades intensivas em emprego, como o cacau e o turismo, carecem de investimentos essenciais, como tecnologia para a produção descentralizada de chocolate, por cooperativas e associações rurais. Ilhéus e Itacaré, dois destinos importantes do turismo baiano, carecem de saneamento básico, aeroporto regional e estradas internas de acesso a destinos naturais, inclusive para a sua população. Com menos da metade dos investimentos do Porto Sul.

Assim como o trem bala, de 40 bilhões de reais, a Ferrovia Oeste Leste com o porto da BAMIN, de 7,5 bilhões, podem até ser importantes para alguns, mas não para Maria dos Anjos, na periferia de São Paulo, nem para Deraldo Rodrigues, mais conhecido como Soró, hoje um simpático pipoqueiro, e nas estatísticas, mais um desempregado na cidade histórica baiana.

*Rui Rocha, 44 anos, engenheiro agrônomo e ambientalista, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz. Fellow da Ashoka, é membro do Conselho de Meio Ambiente de Ilhéus, onde reside com sua familia. Diretor do Instituto Floresta Viva e membro da Rede Sul da Bahia Justa e Sustentável.

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