Bem-te-vi num dia de outono

Carlos Secchin
segunda-feira, 13 junho 2005 18:28

O que fazem aqui todos esses bem-te-vis pousados na areia molhada da praia?Depois que o vendaval e a chuva torrencial passaram, a praia ficou deserta de pombos, cachorros e gaivotas.

De uma ponta à outra, ninguém. Nem pivete acordando, nem ambulante nas barracas. É uma sensação tão boa poder girar a cabeça do Arpoador até o final do Leblon e não ver viva alma! Só um punhado de bem-te-vis.

Ao vê-los mais de perto, fiquei intrigado. Estavam zangados. Demonstravam irritação com o despejo repentino. Na praia toda, contei 48 deles.

Ao iniciar minha caminhada pela calçada, fiquei impressionado com a quantidade de galhos retorcidos e quebrados das amendoeiras e das palmas dos coqueiros espalhadas pelo chão. Alguns garis limpavam e desobstruíam o caminho. Naquela manhã de outono, o vento e a chuva, furiosos, atingiram 94km/h.

Quando voltei para casa, não resisti à tentação de caminhar pela beira do mar. Meus tênis já estavam encharcados. Além disso, teria que dar as costas para a incrível incivilidade dos motoristas, que sempre lançam sobre a calçada e quem estiver nela, a água empoçada da pista, junto ao meio-fio da ciclovia.

Na ida, com o jogo do corpo, podia pressentir a manobra deles e recuar, deixando o boçal do volante frustrado. Eu só via uma onda que se erguia como uma rajada negra de óleo com pó de asfalto solúvel, daquele tipo que as empreiteiras gostam de aplicar, e que as prefeituras teimam em aprovar.

Que saudade de Antônio Carlos Jobim e da sua canção Wave, de 1967! “Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar”…

Sem a agressividade gratuita do carioca, naquela manhã, Ipanema ficaria parecida com a que, num passeio a pé, o Maestro vira, com canções brotando no ar purificado pelo vento sudoeste.

Mas os bem-te-vis continuam no chão. Algo muito estranho, como se uma única cor escorresse para fora de um quadro. Eles, e os canudos que as máquinas de limpeza da areia não conseguem pegar. Ao me verem perto, fugiram em vôo curto. Os canudos de plástico, vermelhos e brancos, permaneceram cravados. E as balizas do vôlei de praia, sem as redes, ampliavam o clima de desolação…

O mar escuro, como de costume, recebeu a ofensa que escorre pelos bueiros do bairro. Naquela manhã, não tinha conversa nem para peixe, nem para maestro. Os bem-te-vis e o mar se arreganhavam ao vento e se crispavam, molhados pela água doce e fria da chuva. Os bem-te-vis, vi-os uma última vez. Continuavam zangados, como o mar.

Na semana seguinte, presenciei, como os jornais noticiaram, a saída dos garotos para fora do bueiro. Das galerias úmidas, brotaram na calçada baratas humanas despertadas do sono, segurando nas mãos o vidro de cola que as prendiam aos seus sonhos. O peso da luz envergava os estômagos vazios e os olhares tontos. Meninos saindo do chão e bem-te-vis aos montes, nas areias, me causam uma dúvida. Aprendi que pássaros deveriam voar e crianças brincar. Fazem parte da guerra cenas de fome e de desespero, mas em tempos de paz, como explicar? Muita coisa fica fora do lugar quando uma cidade já partida perde também o seu coração.

* Carlos Secchin é fotógrafo, mas para se proteger da chuva, da maresia e do medo de ser assaltado, deixou o equipamento em casa.

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