Encontro do bem

Suzana Pádua
quarta-feira, 11 agosto 2004 10:00

A AVINA, uma Fundação que vem apoiando o terceiro setor no Brasil há muitos anos, tem uma maneira muito peculiar de integrar as organizações não-governamentais e empreendedores socioambientais com o mundo empresarial. Para ser incorporado como um dos chamados ‘lideres AVINA’, o processo é muitas vezes longo, pois exige uma triagem criteriosa que leva em conta competência, perfil ético, credibilidade e seriedade dos empreendedores selecionados. Os ‘lideres AVINA’ passam a receber apoio aos seus respectivos projetos, mas parte dos recursos depende de uma condicionante interessante. Um dos modos de incentivar a ponte entre os dois pólos, empreendedorismo socioambiental e empresas, é criar um fundo no qual uma quantia previamente estipulada só é liberada se um valor equivalente for obtido junto a uma empresa brasileira. Trata-se de um processo educacional onde o aprendizado é contínuo e atinge todos os envolvidos. As organizações sem fins lucrativos, que em geral contam com pessoas altamente motivadas e comprometidas com causas diversas, passam a ter uma atribuição a mais no seu leque de afazeres: sensibilizar os empresários a se envolverem em causas de fins ideais. Por outro lado, muitos empresários que se mostram abertos a assumirem novas responsabilidades socioambientais, passam a conhecer profissionais cuja qualidade foi atestada ao passarem pelo crivo de exigência da AVINA.

É nessa junção que o empresário Stephan Schmidheiny vem apostando estar a chave para um caminho que leve a um mundo mais harmônico. Ex-dono entre outros negócios dos conhecidos relógios Swatch, que lhe asseguraram um patrimônio respeitável, o Sr. Schmidheiny fundou a AVINA com a intenção de apoiar projetos que considera estarem contribuindo para melhorias socioambientais nos mais diversos campos e em regiões variadas do país, da América Latinao e da Península Ibérica. Como adendo ao apoio direto que a AVINA oferece, criou o complemento que incentiva o diálogo entre o terceiro setor e os empresários.

De modo a refletir sobre os processos que incentivam a construção de pontes entre lideranças da sociedade civil e o empresariado, a AVINA está realizando uma reunião em São Paulo esta semana – precisamente, em 11 de agosto – com mais de 70 empresários brasileiros, cujos nomes foram sugeridos pelos próprios líderes, por terem demonstrado sensibilidade e por serem apoiadores de projetos em andamento. O “Encontro AVINA de Lideranças: Parcerias para o Desenvolvimento Sustentável” visa analisar como esta integração vem ocorrendo e quais os aspectos que podem ser incorporados para se atingir maior sinergia entre os diferentes setores.

Uma vez que a seleção dos participantes se deu a partir de empresários já envolvidos, um dos resultados do encontro pode ser demonstrar que a filantropia empresarial está em alta e que as relações de colaboração são cada vez mais profundas e produtivas. Juntos, líderes socioambientais e seus parceiros empresariais pretendem fazer um balanço do processo de integração, mantendo um olhar crítico sobre as conseqüências do engajamento do mundo dos negócios em questões que atingem a coletividade. O encontro poderá deflagrar, ainda, a importância desta sinergia frente às crescentes necessidades socioambientais que advém do próprio modelo de desenvolvimento insustentável que predomina na atualidade. É neste ambiente de crise que podem surgir novos caminhos mais alentadores. Como os orientais, com sua sabedoria milenar, já perceberam, as crises são compostas por problemas e oportunidades de mudanças. Este encontro representa, sem dúvida, uma oportunidade de se pensar em como transformar a realidade de modo a que todos ganhem e que a vida possa ser mais devidamente valorizada.

Alguns empreendedores socioambientais foram convidados a compartilhar suas experiências junto com os empresários que lhes vêm apoiando. Um dos exemplos é o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas com seu novo parceiro, as conhecidas “Havaianas”, que recentemente lançaram três modelos de sandálias estampadas com espécies da fauna brasileira. Parte da renda das vendas (7%) irá ser revertida para os projetos do IPÊ, permitindo que continuem a beneficiar a conservação destas espécies e a melhorar a vida das comunidades que vivem nas regiões onde elas habitam, por meio da introdução de alternativas sustentáveis de desenvolvimento. Para as Havaianas, estas sandálias representam um engajamento numa causa socioambiental digna, que lhes inclui dentre as empresas engajadas nas mudanças necessárias e, quem sabe, resultem também em um aumento em vendas e lucros, mesmo que esta não tenha sido a intenção inicial. A parceria IPÊ/Havaianas tem ainda o objetivo de disseminar as riquezas naturais do Brasil para um público amplo, o consumidor brasileiro e estrangeiro, que ao conhecê-las melhor, poderá se orgulhar e, consequentemente, se aliar à proteção do patrimônio natural do planeta.

O objetivo do encontro é, portanto, o reforço das alianças já firmadas e o aprofundamento do diálogo entre as lideranças da sociedade civil e do empresariado. Tomara que este exemplo promovido pelo Sr. Schmidheiny e por diversos empresários brasileiros seja contagiante. Em pouco tempo poderemos colher os frutos e evidenciar as transformações que advém quando o bem maior é priorizado.

Suzana Pádua é PhD em Educação Ambiental e presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê).

Nota da redação: O Eco recebeu financiamento da Fundação Avina. Saiba mais em Quem Somos.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.