Carlos Gabaglia Penna
Professor de Engenharia Ambiental da PUC-Rio, pós-graduado em Gerenciamento Ambiental pela Universidade de Tufts (EUA) e mestrando em Engenharia Urbana e Ambiental da Universidade de Braunschweig (Alemanha) e da PUC-Rio.

Impacto ambiental do conforto humano

Carlos Gabaglia Penna
quinta-feira, 28 agosto 2008 11:00
Os seres humanos criaram um padrão de consumo incompatível com a conservação da natureza. Foto: Wikipédia.

Impacto ambiental, por definição, é qualquer alteração significativa no meio ambiente – em um ou mais de seus componentes – provocada por ação humana. Obviamente, fenômenos naturais como erupção vulcânica, incêndio florestal espontâneo e terremoto causam igualmente impactos no meio ambiente. No entanto, pretendo tratar aqui apenas dos provocados pelos seres humanos.

Comumente, preocupamo-nos bastante com as consequências ambientais de grandes empreendimentos. Com certeza, exploração mineral, atividades agropecuárias, produção industrial, obras de infraestrutura e projetos de expansão urbana provocam grandes danos ao meio ambiente.

Nossa espécie movimenta, atualmente, mais materiais e faz circular mais elementos biogeoquímicos do que todos os processos naturais. A grande intervenção na paisagem e o uso intenso de recursos do planeta, destinados a satisfazer uma sociedade ávida de conforto material, têm, como todos sabem, efeitos danosos na qualidade do meio ambiente. O que as pessoas parecem não saber, ou preferem ignorar, é que o enorme catalisador de todos esses impactos é o padrão de vida da civilização do consumo.

“Nossa espécie movimenta, atualmente, mais materiais e faz circular mais elementos biogeoquímicos do que todos os processos naturais. A grande intervenção na paisagem e o uso intenso de recursos do planeta, destinados a satisfazer uma sociedade ávida de conforto material, têm, como todos sabem, efeitos danosos na qualidade do meio ambiente.”

A indústria, continuamente, inunda o mercado com toda sorte de produtos supérfluos. Uma parte desses bens, obviamente dispensáveis antes de sua invenção, passam então a ser essenciais para o comprador. Principalmente se ele for um símbolo de status…

John Kenneth Galbraith, um influente economista canadense-americano, manifestou sua perplexidade face a esse comportamento: “Podemos ficar pasmos com o fascínio exercido pelos artefatos de consumo e divertimentos frequentemente frívolos e dispensáveis da nossa época, mas a sua sedução derradeiramente determinante não pode ser posta em dúvida”.

O custo para se adquirir uma infinidade de novos objetos vai além do financeiro. Para a Economia, após a venda final ao consumidor, o produto não passa de mero dado estatístico, mas para o meio ambiente suas consequências persistem durante o seu uso e após o descarte final. A maioria desses bens, mesmo quando são equipamentos eletrônicos, tem vida cada vez mais efêmera, seja pela obsolescência programada por seus fabricantes, seja pelo desinteresse de seu proprietário, provavelmente atraído por um substitutivo mais moderno…

Impactos ambientais decorrentes do cotidiano das pessoas são, em geral, vistos como pouco expressivos ou totalmente desconsiderados. No entanto, as ações diárias de bilhões de pessoas e o consumo de um sem número de bens e serviços representam uma pressão sobre os recursos naturais, por vezes insuportáveis.

Todas as grandes atividades econômicas citadas anteriormente crescem em função da enorme demanda material da sociedade de consumo. O comércio internacional de mercadorias e serviços engordou 12 vezes entre 1975 e 2005, saltando de US$ 1,014 trilhão para US$ 12,539 trilhões (em dólares corrigidos). Nesse intervalo de tempo, a população global aumentou 1,6 vezes (ou 60%). Somente entre 2000 e 2005, o comércio global cresceu 59%!

Um exemplo bastante ilustrativo é o da utilização de papel e papelão em escala global. Apesar do fato de que produtos derivados da celulose são fabricados a partir de madeira de reflorestamento, enormes áreas de florestas nativas foram – e continuam sendo – desmatadas para dar lugar a essa matéria-prima.

“(…) a compatibilidade entre o funcionamento da sociedade e a conservação do meio ambiente passará, inevitavelmente, por uma redução do consumo material da nossa espécie.”

A fabricação de papel consome bastante energia e utiliza produtos químicos tóxicos, como soda cáustica. Entre 1975 e 2005, o comércio desses produtos cresceu 170% (lembrando que nesse período a população cresceu 60%). O advento do computador pessoal, no final dos anos 1980, prenunciava uma redução expressiva no uso de papel!

O comércio global das nossas principais fontes energéticas, os combustíveis fósseis, somente entre 1990 e 2003, cresceu 58%, versus um acréscimo populacional de 20%. A partir desses poucos exemplos, é possível ter uma ideia do grau de impacto ambiental da sociedade industrial. Não existem sistemas de transformação e produção de materiais e energia com impacto zero. Um princípio básico das ciências ambientais afirma que “não se pode fazer meramente uma coisa”. Qualquer atividade, por mais inocente que pareça, produz efeitos colaterais, danosos na sua grande maioria.

Obviamente, os avanços científico-tecnológicos, de sistemas de gestão e de legislação ambiental, somados à melhoria da educação em geral e a um aumento da consciência sobre as questões ambientais, são fundamentais para se minimizar os impactos causados pela civilização humana. No entanto, a compatibilidade entre o funcionamento da sociedade e a conservação do meio ambiente passará, inevitavelmente, por uma redução do consumo material da nossa espécie.

*Editado às 21h01, do dia 10/07/2018, para melhoria da diagramação e recorte de fotografias. O texto não foi alterado.

 

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