Carlos Eduardo Young
Economista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Catástrofes, retrospectivas e promessas

Carlos Eduardo Young e Priscila Geha Steffen
sexta-feira, 6 janeiro 2006 12:38

Termina ano, começa ano e a tendência de fazer retrospectivas e promessas é irresistível. Começando pelas retrospectivas, o balanço de perdas e ganhos na área ambiental, mais uma vez ficou no vermelho. O ano de 2005 deixou claro que o revide do planeta pode ser mais violento do que o imaginado.

Tragédias climáticas dominaram as manchetes dos jornais ao longo de todo o ano que passou e logo nos primeiros dias de 2006 já estavam novamente estampadas na imprensa, para todo mundo ver e acreditar. São as nevascas nunca vistas na Europa e na Ásia, as queimadas gigantescas nos Estados Unidos, o “todo poderoso” da Califórnia, Schwarzenegger, decretando estado de emergência, chuvas no Brasil que se intensificam assim como a seca na Amazônia, que bateu recordes no ano passado, e por aí vai, a lista continua. Mas a estrela da temporada foi o furacão Katrina, que mostrou que nem a mais poderosa nação é capaz de competir com a natureza. E nos dá uma sensação de impotência, de que nada podemos fazer para evitar tais tragédias. Mas será mesmo que somos incapazes de evitar essas catástrofes?

É preciso ressaltar que temos uma percepção muito mais aguçada para eventos que ocorrem em períodos muito curtos, como enchentes, terremotos e tempestades, do que com catástrofes que ocorrem em prazos mais longos. Esses, mesmo parecendo longos sob o olhar humano, são brevíssimos numa escala de tempo geológica ou climatológica. E são estas catástrofes mais lentas que, geralmente causam as piores consequências para a sociedade, como a desertificação e o aquecimento global. No entanto, nossa capacidade de intervir também é maior nesses casos.

Hoje, embora não tão divulgado, a desertificação avança em grande parte do globo. Por ser um fenômeno que já dura décadas, passamos a percebê-lo como crônico – historicamente, não deixam de ser “recentes”. O caso mais dramático é o da África. Mesmo que existam causas naturais para o fenômeno, não há dúvida que a pecuária extensiva e cultivo de grãos geraram uma pressão excessiva sobre recursos naturais em áreas extremamente delicadas, como o Sahel, região ao Sul do Saara. O desequilíbrio resultou na perda de fertilidade do solo, eliminação da cobertura vegetal natural e alteração dos fluxos hidrológicos. A conseqüência é dramática e bastante conhecida: fome, miséria humana, biodiversidade empobrecida.

Infelizmente, fenômenos semelhantes ocorrem no Brasil e pouca atenção é dada ao problema. Quando o resultado de tantas agressões acumuladas se manifesta – grandes secas, por exemplo -, a “culpa” é da natureza. Não relacionamos a desertificação no Brasil com as suas possíveis causas antrópicas: remoção da vegetação nativa da caatinga, cerrado e florestas; excessiva exploração do solo por cultivos ou pastagens com práticas ecologicamente inadequadas; e o total descaso para a proteção dos sistemas hídricos. As soluções propostas não priorizam a correção das atitudes predatórias, muito pelo contrário. Muitas vezes são ainda mais interventoras apontando soluções “mágicas” como a transposição de rios, que causam riscos ambientais proporcionais ao tamanho da obra. Quem fica feliz mesmo são as empreiteiras.

Esse quadro não é novo no Brasil e não acaba por aí. Causa um efeito dominó afetando também a economia do país. “Catástrofes econômicas” causadas por abusos do ser humano em relação ao meio ambiente são muito mais freqüentes do que se imagina. Talvez o exemplo mais nítido seja o declínio da agricultura no Vale do Paraíba do Sul em meados do século XX, ocasionado pela “abrupta” queda de fertilidade dos solos e erosão em função da implementação predatória de cafezais e pastagens. Em poucas décadas, o que era a região mais próspera e maior produtora de café no Brasil transformou-se em uma área economicamente e socialmente decadente, com forte esvaziamento demográfico. As “cidades mortas” de Monteiro Lobato são mais uma evidência de que a natureza pode se vingar, uma vingança tão forte que até hoje a produção agrícola não se recuperou na região.

Outros tipos de estrago associados ao mesmo motivo são as crises “gêmeas” de inundações e desabamentos numa parte do ano, e secas e incêndios na outra. O desmatamento, principalmente em áreas de encosta e matas ciliares, reduz a capacidade de retenção da água pela vegetação, que desce em maior quantidade e velocidade, arrastando “os paus e pedras” que vê pela frente. O resultado é esse grande número de inundações e deslizamentos no verão. Por outro lado, como não houve tempo da água ser absorvida pelo solo, os lençóis freáticos não são reabastecidos. O déficit hídrico manifesta-se, então, quando cessam as chuvas, levando às secas, incêndios e eventuais racionamentos de eletricidade no inverno.

Pior ainda é quando se tenta mudar o curso da natureza para “regularizar a catástrofe” em áreas sujeitas a inundações sazonais causadas por fenômenos naturais. Sob o olhar de reformadores do mundo, uma das soluções é controlar esses processos naturais com obras de drenagem e alteração dos leitos naturais, para ampliar as áreas de uso agrícola, que rezam pelo fim das inundações periódicas. Isso, porém, acaba resultando na destruição de habitats de riquíssima biodiversidade, como o Pantanal e os Banhados gaúchos, que precisam dessas cheias.

Um lado positivo de tanta desgraça é que o aquecimento global começa a despertar atenção compatível com seu potencial de causar catástrofes. Não se trata apenas do aumento da temperatura média da Terra, mas também de sua variação, levando à maior freqüência de eventos extremos: estações muito mais quentes ou frias, ou mais secas ou mais úmidas, em relação às médias históricas. Por isso, à medida que a Terra esquenta, é esperado substancial aumento de problemas como estiagens, inundações, quebras de safra agrícola e até mesmo deslocamento forçado de populações. A incidência de doenças tropicais, como a malária, tende a se alastrar com um clima mais quente e mais chuvoso. Uma das previsões mais alarmantes é a elevação do nível do mar. A tsunami asiática já avisou e mostrou a gravidade desse problema nas áreas costeiras, matando centenas de milhares de pessoas. Ironicamente, o furacão Katrina mostrou que nem o país de George W. Bush sairá ileso se a temperatura da Terra continuar subindo.

Ainda mais grave é que os cenários projetados indicam que as conseqüências do aquecimento global não serão homogeneamente distribuídas pelo mundo. Nos países mais frios – ou seja, os mais desenvolvidos – estará concentrada a maioria dos eventuais benefícios que o aquecimento global poderá trazer – invernos menos rigorosos, aumento da área agricultável. Já os efeitos negativos deverão se concentrar mais fortemente nos países que hoje são mais quentes, ou seja nós, os não-desenvolvidos. E exatamente porque esses países possuem menos recursos, terão mais dificuldades para se adaptar às catástrofes que estão por vir, à tragédia anunciada. Apesar do enorme custo de vidas humanas que o Katrina causou, a despeito de toda infra-estrutura norte-americana, se um fenômeno de magnitude semelhante ocorresse em Bangladesh, que tem enorme população vivendo em áreas com topografia parecida com a da Louisiana, a tragédia seria muito pior.

É possível especular o que acontecerá com as populações do Terceiro Mundo afetadas por essas tragédias? Muitos tentarão migrar para os países desenvolvidos, apinhando ainda mais os cortiços de imigrantes de condições precárias, como os que pegaram fogo na França. Outra possível saída é apegar-se ao fanatismo étnico-religioso, outro barril de pólvora que pode gerar grandes tragédias, como a morte de 800 pessoas esta semana no Iraque, e acelerar o terrorismo.

Lutar contra as causas que levam ao aumento do aquecimento global, da desertificação e de outras catástrofes, não é apenas uma questão ambiental. É também lutar contra um mundo cada vez mais injusto. Boa sugestão para promessa de começo de ano, possível de ser cumprida a partir de agora.

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