Caminho de Cora Coralina: entre a exuberância natural e construções históricas

Pedro da Cunha e Menezes
Pedro da Cunha e Menezes

Ex-chefe do Parque Nacional da Tijuca, diplomata de carreira e conselheiro de ((o))eco.

domingo, 22 julho 2018 20:04
Caminho de Cora Coralina. Foto: Paula Dinis.

Nos últimos anos, o ICMBio deu início a um projeto de estimular a implementação de  um Sistema Brasileiro de Trilhas de Longo Curso, seguindo os modelos norte-americano e europeu. Nesse contexto cada Trilha de Longo Curso Nacional, a exemplo da Trilha Oiapoque x Chuí, será o resultado da adição de uma série de trilhas regionais em que o final de uma coincide com o começo da seguinte. No total, uma trilha de longo curso nacional deve ser composta por um cardápio de opções que foi pensado para caber em férias de um mês, como a Trilha Transmantiqueira ou o Caminho das Araucárias (entre Canela e o Parque Nacional de São Joaquim), ou em um período de férias de duas semanas, tal como a Trilha Transcarioca (12 dias de caminhada) e a Rota dos Faróis (8 dias), ou ainda em um período inferior a uma semana, como a Rota Darwin, os Caminhos da Serra do Mar (4 dias) ou as voltas da Juatinga e da Ilha Grande. A mesma estratégia vale para o Caminho dos Goyases, composto pela soma de três trilhas regionais, cujo primeiro trecho, o Caminho de Cora Coralina, com 302 km entre Goiás Velho e Corumbá de Goiás, já foi totalmente implementado sob a liderança do Governo de Goiás.

Em seus estudos, James Barborak, um dos maiores especialistas em uso público no mundo, identificou que as trilhas que combinam atrativos naturais e cênicos com significado histórico/cultural são as mais procuradas pelo público montanhista. Com efeito, pesquisas feitas no Caminho de Santiago, na Espanha, e no Hadrians Wall, na Inglaterra, apontam para conclusões em que esse tipo de trajeto não só contribui para a conservação da natureza mas também ajuda a resgatar a história e a autoestima dos habitantes das cercanias da trilha.

Marca do caminho de Cora. Foto: Paula Dinis.

Aqui no Brasil, o Sistema Brasileiro de Trilhas, está fazendo grande esforço para conjugar os valores históricos/culturais e naturais/cênicos nos traçados escolhidos. No caso da Trilha de Longo Curso Nacional Caminho dos Goyases, que liga a Cidade de Goiás à Chapada dos Veadeiros, esse esforço está sendo particularmente bem sucedido.

O percurso, previsto para somar cerca de 850 km tem seu extremo sul em um Patrimônio Cultural da Humanidade, a cidade de Goiás Velho, outro no meio do caminho, Brasília, e um terceiro Patrimônio Mundial da Humanidade, dessa vez natural, no terminal norte da caminhada: o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Não fica por aí. O Caminho dos Goyases é dividido em três trilhas regionais. Todas elas revivem percursos históricos conhecidos através dos séculos por diferentes nomes como Estrada Geral do Sertão, Estrada dos Currais, Estrada do Sal ou Picada da Bahia. Essa última foi usada por meu antepassado Luís da Cunha e Menezes em 1778, quando demorou 44 dias para vencer a distância entre a vila de Cachoeira, no fundo da baía de Todos os Santos, e a então Vila Boa de Goiás, onde foi assumir o Governo daquela província do Brasil colonial.

Mais recentemente, em 1898, a Missão liderada por Gastão Cruls para delimitar o quadrilátero destinado ser o assento da capital de nosso o país esquadrinhou o atual Distrito Federal, enviando destacamentos à Chapada dos Veadeiros e ao topo dos Pireneus.

Esse mesmo pico é hoje o ponto de partida para a mais bela travessia de todo o Caminho de Cora, em um percurso de dois dias de quase contínua descida até a antiga vila de Meia Ponte, atual Pirenópolis, cujo belo e bem preservado casario histórico é tombado pelo IPHAN.

Próximo à região do Abade, metade da travessia dos Pireneus. Foto: Paula Dinis.

São 32 quilômetros que o bom senso recomenda serem percorridos em dois tranquilos dias. No primeiro, após as vistas panorâmicas do Pico dos Pireneus, o viajante caminha no coração do Parque Estadual da Serra dos Pireneus, paralelo ao Morro do Cabeludo em meio a coloridos campos de sempre vivas e a belíssimas veredas, que são a marca registrada do Planalto Central do Brasil. No meio da jornada é recomendado um banho nas águas cor de uísque da Cachoeira do Sonrisal ou, um pouco mais abaixo, no poço da Onça.

Após cinco horas de marcha desapressada, as pegadas amarelas do Caminho de Cora chegam às cercanias do Abade, onde há várias opções de pernoite em campings e pousadas. Uma delas é o Sítio Lavrinhas de Ciça e Bismarque Villa Real. Bismarque, que trabalhou anos com o historiador goiano Paulo Bertrand, é o idealizador do Caminho de Cora. Sua propriedade, como outras na área, dispõe de chalés com cozinha equipada com fogão, geladeira e loiça; chuveiro quente e cama macia. Também tem uma cascata onde é possível tomar um banho relaxante logo na chegada.

A posição estratégica dessa pequena coleção de pousadas torna possível cabritar o trecho do Caminho de Cora no melhor estilo slack-packing*. Bismarque coordena um serviço de carreto em que larga os caminhantes no Pico pela manhã e os espera com saboroso jantar à noite. No dia seguinte, leva o carro dos clientes até o centro histórico de Pirenópolis, onde a jornada chega a termo. Assim, é possível fazer todo o passeio bem leve, apenas com uma mochilinha de ataque às costas. Basta levar roupa de banho, telefone celular, duas ou três barras de cereal e uma lanterna para emergências.

Trecho na Serra dos Pireneus. Foto: Paula Dinis.

Quem tiver tempo pode, e deve, adicionar um dia intermediário à travessia. Vale a pena gastar tempo na Cachoeira do Abade. O ideal seria que o Caminho de Cora incorporasse a imponente queda d´água em seu traçado oficial, mas até o momento não foi possível entrar em acordo com os donos da propriedade. Ainda assim, ninguém vai se arrepender de passar um dia percorrendo sua trilha circular com paradas estratégicas para preguiçar em cada uma das suas várias cachoeiras e pocinhos.

O percurso do último dia de caminhada, entre a região do Abade e Pirenópolis é de cerca de 16 km palmilhados em meio à natureza exuberante da Área de Proteção Ambiental estadual dos Pireneus. A descida, mais ou menos constante, sempre seguindo a trilha bem sinalizada com as pegadas amarelas sobre fundo preto que são a marca registrada do Sistema Brasileiro de Trilhas, passa por trechos de cerrado e cerradão e vistas deslumbrantes, com direito a mais um delicioso banho de cachoeira pelo caminho.

Depois de visitar o Sítio Avalon, onde é possível saciar a fome com um delicioso almoço, o caminhante atravessa o asfalto e passa lateral a uma das pedreiras típicas da região. A pedra de Pirenópolis tem sido continuamente minerada nos últimos dois séculos. Apesar de darem à região sustento econômico, as pedreiras deixaram a Serra marcada por uma sequência de horrendas cicatrizes que maculam a paisagem.

Foto: Paula Dinis.

Felizmente não dura muito. Logo atravessamos uma ponte suspensa sobre o Rio das Almas. A partir daí o passeio avança em sua margem, dentro de frondosa floresta de galeria. Tudo fica mais verde e sombreado. Caminha-se ao som do farfalhar das águas que, aos poucos, disputa a atenção com os primeiros sons da cidade. Aqui e ali, ao lado esquerdo da trilha, começam a aparecer sinais de construções. Atravessamos uma rua, avançamos um pouco mais junto ao rio até que, finalmente, emergimos exatamente no meio do centro colonial de Pirenópolis, ou Arraial da Meia Ponte para os saudosos. É chegada majestosa. A transição da natureza exuberante para o conjunto de construções históricas é feita sem aviso ou preparação prévia. Em questão de segundos saímos de um mundo maravilhoso para entrar em outro, um natural, o outro fruto do suor humano.

Bem na chegada há uma variedade de restaurantes e lanchonetes que nos convidam a sentar, tomar um suco e repor as energias, dando tempo para digerir a beleza e as sensações especiais proporcionadas pelos belíssimos 32 km do trecho do Caminho de Cora que atravessa o Parque e a Área de Proteção Ambiental da Serra dos Pireneus. Recomendo!

 

*slack packing é um termo criado na África do Sul, berço do trekking. Significa fazer travessias sem carregar peso, dormindo em camas macias e comendo do bom e do melhor.

 

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5 comentários em “Caminho de Cora Coralina: entre a exuberância natural e construções históricas”

  1. Nós do Grupo Soul Trekking estamos ansiosos para que consigam entrar em acordo com os donos das terras e tirar aquele trecho da subida do Salto Corumbá, onde somos obrigados a caminhar sob estress pela rodovia sem acostamento e com carretas e carros descendo a mil por hora. Aquilo ali ainda vai dar merda

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  2. Boa tarde!
    Tem guias locais, agência acompanhando pessoas, grupos nesta caminhada?
    Meu nome é Marlene e tenho um grupo de amigos querendo ir pra lá pra fazer o caminho

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