Colunas

Baía de Guanabara: ecobarreiras reduzem vexame olímpico

Paliativo criado há 13 anos, estruturas capturam lixo de 17 rios que deságuam na Baía, para abrandar poluição durante competições de vela

1 de agosto de 2016 · 5 anos atrás
  • Emanuel Alencar

    Jornalista, editor de Conteúdo do Museu do Amanhã e mestre em Engenharia Ambiental. É autor do livro “Baía de Guanabara – Des...

Foto: Divulgação/Secretaria do Ambiente

 

RIO – Na língua tupi, Sarapuí significa “rio dos sarapós”, uma espécie de peixe que produz sinais elétricos. Há décadas, porém, neste rio de águas imundas, não há sinal de sarapós nem de outra espécie de peixe. O rio nasce na Serra de Bangu, Zona Oeste do Rio, e desemboca na Baía de Guanabara, depois de serpentear regiões pobres de seis municípios e receber uma tabela periódica de poluentes. O Sarapuí é um dos 17 rios que receberam o principal programa do governo do estado para evitar um vexame na Baía de Guanabara durante as competições olímpicas de vela: as ecobarreiras.

O paliativo, que consiste na captura do lixo flutuante antes que ele chegue ao espelho d’água da Guanabara, está longe de ser uma novidade: foi lançado há 13 anos, ainda quando Rosinha Garotinho era governadora do Rio e Lula, um presidente no início de mandato. De 2003 para cá, o programa sofreu dezenas de interrupções. Só foi plenamente restabelecido em meados de julho de 2016, quando 17 ecobarreiras passaram a capturar os resíduos –  eram 9 no início de 2015. O governo, sem dinheiro, não conseguiu ampliar o programa num prazo mais curto.

“De 2003 para cá, o programa sofreu dezenas de interrupções. Só foi plenamente restabelecido em meados de julho de 2016, quando 17 ecobarreiras passaram a capturar os resíduos”

A velha nova gambiarra tem pouco efeito prático. A Secretaria de Ambiente do Estado do Rio, responsável pelo projeto, diz que em seis meses de operação de dez ecobarreiras foram removidas 2.420 toneladas de resíduos sólidos – algo como 13 toneladas por dia. Isso representa 14% do total de lixo despejado diariamente em mais de cem rios e canais que drenam para a baía: 90 toneladas, segundo estimativa da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Urbana (Abrelpe). Mesmo que a eficiência aumente com as 17 ecobarreiras em operação, não há mágica para livrar a baía desse flagelo. Quebrados, os municípios do entorno da baía deixam a desejar na coleta de lixo. A população usa rios, ruas e sarjetas como lixeira. Sofás, geladeiras, fogões, pneus e até cadáveres são vistos com frequência na bacia hidrográfica da Guanabara.

Dessa vez, o governo estadual promete que as ecobarreiras estão fortalecidas, junto com 12 ecobarcos, que capturam a sujeirada já passeando pelos 377km2 da baía. A empresa Matos Teixeira ganhou a licitação de R$ 18.880.916,79 por 18 meses de serviço – até dezembro de 2017 – e botou retroescavadeiras para tirar os resíduos agarrados às barreiras. Somente no conjunto de favelas da Maré são seis barreiras.

Arte: Ana Dias
Arte: Ana Dias

As cooperativas de catadores saíram fora. Todo o lixo capturado vai para aterros sanitários licenciados. O secretário do Ambiente, André Corrêa, afirma que vai pensar num modelo de triagem dos recicláveis após os Jogos. Em tempos de cofres vazios, terá dificuldade para argumentar em favor do uso dos catadores. Segundo um ex-coordenador do projeto, apenas de 8% a 10% do lixo flutuante que era capturado anos atrás ia efetivamente para a indústria de reciclagem. Na divisão do bolo, sobravam migalhas para os catadores.

Quem viu o projeto das ecobarreiras nascer, quase artesanalmente, está cansado de ver mais do mesmo. É o caso da pedagoga Fátima Casarin, que coordenou um projeto de educação ambiental, de 2003 a 2007, paralelo à captura dos resíduos. “A gente nunca gostou das ecobarreiras, na essência ela é horrível. Era muito mais artesanal no passado, ficavam os catadores, com ecopontos ao lado. Para você resolver a questão do lixo tem que apostar um conjunto de atividades. Uma logística reversa decente, participação de supermercados, grandes empresas como Coca-Cola, coleta adequada e educação. Muita gente critica, mas também não sugere nada propositivo. Estou cansada”, diz.

 

*Emanuel Alencar é autor do livro “Baía de Guanabara – Descaso e Resistência”, cuja versão impressa pode ser comprada aqui, ou ter o seu PDF baixado aqui

 

 

Leia também

Baía de Guanabara: Livro-reportagem investiga fracasso na despoluição

Baía de Guanabara: vazamento da Petrobras completa 14 anos

Área de Proteção Ambiental Guapi-Mirim, caso bem-sucedido de integração com uso sustentável

 

 

 

Leia também

Reportagens
29 de julho de 2015

Área de Proteção Ambiental Guapi-Mirim, caso bem-sucedido de integração com uso sustentável

Integrada com a Estação Ecológica da Guanabara, esta área protegida mostra que é possível manejar pesca e reflorestar em parceria com pescadores.

Reportagens
18 de fevereiro de 2014

Baía de Guanabara: vazamento da Petrobras completa 14 anos

Incidente contaminou mangues e mudou o cenário da baía, onde pescadores convivem com lixo e óleo. Plano de despoluição do governo vence em 2016.

Reportagens
4 de julho de 2016

Baía de Guanabara: Livro-reportagem investiga fracasso na despoluição

Vexame da meta de entregar nas Olimpíadas baía com 80% do esgoto tratado é gancho para mostrar como retomar o caminho para resultados duradouros

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 2

  1. George diz:

    18 milhões para a empresa. Um milhão por mês. R$ 2,50 por kg de lixo retirado.

    Seria mais eficiente pagar R$ 1 por kg para os catadores e demitir a empresa!

    Isso ilustra o problema do RJ: nem para problemas críticos como a Baía de Guanabar consegue fazer uma licitação honesta. Roubam em TODAS – e nenhum projeto dá certo.


  2. JOSÉ JOÃO SÁ diz:

    Será que esses políticos não sentem vergonha de tanta incompetência, desmandos, falcatruas e desvio de verbas.
    Até quando nosso país- continente será visto como acolhedor de sub classes. O povo brasileiro merece Destino melhor, Educação melhor, Saúde melhor!