Colunas

O equívoco da suspensão da ciclovia na Avenida Paulista

É preciso concluir a obra, a pior alternativa será judicializar uma das raras políticas públicas de caráter ecológico na maior cidade do país.

23 de março de 2015 · 6 anos atrás

Obra da ciclovia na Av. Paulista. Foto:
Obra da ciclovia na Av. Paulista. Foto:

O MP Estadual ajuizou na Justiça paulista uma ação civil pública para fins de paralisar as obras de implantação de ciclovias na cidade de São Paulo.O pedido era amplo e objetivava inclusive a paralisação das obras na Avenida Paulista. A liminar concedida não atendeu integralmente ao pedido (as obras na Paulista prosseguem). Ainda assim, pergunta-se: será que essa liminar contribui para a mobilidade urbana e para a redução da poluição atmosférica?

A implantação de ciclovias é medida que merece o aplauso de quem quer que esteja preocupado com o meio ambiente e a qualidade de vida – questão que passa pelo debate sobre a não-privatização das vias públicas por automóveis particulares, quase sempre carregando apenas seu próprio motorista. A poluição atmosférica causada pelos motores de veículos automotores (parados) é responsável por milhares de mortes e doenças cardiorrespiratórias em São Paulo.

A ciclovia é uma alternativa ecológica, saudável e barata de transporte. Evidentemente, há que se aguardar uma mudança de mentalidade para que um número cada vez maior de pessoas passe a se utilizar desse meio. Na periferia, a ideia começa a emplacar. Na Avenida Paulista, é preciso concluir a ciclovia.

A pior alternativa, porém, será judicializar uma das raras políticas públicas de caráter ecológico das últimas décadas na maior cidade do país. Não é demais ressaltar que, enquanto os contribuintes das mais elevadas faixas de IPVA de São Paulo criticam ferozmente esse projeto, no exterior ele é contemplado com o Sustainable Transport Award de 2014.

É evidente que ciclovias, apenas, não são suficientes para resolver esta verdadeira síndrome que é o trânsito paulistano – algo que há muitos anos já serviu de motivo para o romance “Não verás país nenhum”, do Ignácio de Loyolla Brandão, que tem início com um congestionamento definitivo. Em alguns percursos, pedalar é praticamente inviável – por exemplo, nas ladeiras da Vila Pompéia, do Jaraguá ou da Freguesia do Ó. Não é o que ocorre, porém, em longos trajetos como o do Jabaquara até a Estação Vila Madalena, sob o Minhocão, desde o Shopping Bourbon (na Pompéia) até a Estação Dom Pedro II e muito além. Ou mesmo em aclives mais suaves, como os das Avenidas Consolação ou Lins de Vasconcelos.

É claro que o poder público deve também implementar o sistema metroviário. Um percurso de menos de 12 km, do Itaú Cultural (Av.Paulista) ao Frangó (Largo Nossa Senhora do Ó), numa noite de sexta-feira, na melhor das hipóteses, não leva menos de uma hora e meia. Se as obras da Linha 6 do Metrô tivessem sido concluídas, esse mesmo trajeto levaria menos de meia hora. A promessa era de que fossem entregues em 2015 e, agora, a estimativa é de entrega por volta do bicentenário da independência do país.Da mesma forma, a ampliação de pistas exclusivas para ônibus é mais do que benvinda, merecendo estender-se até as cidades da Grande São Paulo.

Modificar um paradigma que teve início com Prestes Maia e se consolidou com Paulo Maluf, porém, não é algo fácil. Infelizmente, está ocorrendo mais uma vez (a exemplo de todo o debate nacional dos últimos oito meses), a PARTIDARIZAÇÃO de uma rara proposta urbanística com impacto ecológico positivo(veja).

Parado no trânsito da Avenida Paulista, na volta do trabalho, recebo pelo “Waze” mensagens de desconhecidos: “Maldita ciclovia! Maldito PT! Fora Dilma e Haddad!”. O que a prática de ciclismo tem a ver com o PT? Se a conversa segue por aí, não se vai a lugar nenhum. Como, aliás, já acontece com o tráfego de automóveis na cidade.

 

*Matéria editada em 23/03/15

 

Leia também
Em São Paulo, ciclovia do Rio Pinheiros é expandida
Ciclorrotas, ciclofaixas e ciclovias – SP começa a mudar
Em Vancouver, vá de bicicleta

 

 

 

Leia também

Análises
17 de maio de 2021

Opinião não é artigo científico

A utilização de espécies exóticas como a tilápia pode causar diversos impactos negativos no meio ambiente e isso é um fato. Fingir ter a chancela de uma respeitável revista científica não vai mudar isso

Salada Verde
17 de maio de 2021

Ex-Coordenador jurídico do PSL assume superintendência do Ibama no Ceará

A nomeação de Luiz Cesar Barbosa, advogado com atuação junto ao PSL, partido da base de apoio de Bolsonaro, reforça barganha política em cargos de chefia do Ibama

Reportagens
16 de maio de 2021

Proposta muda desenho de UCs no rio Negro, com nova reserva e redelimitação

O projeto de lei enviado à Assembleia Legislativa cria uma Reserva do Desenvolvimento Sustentável no Baixo Rio Negro, no Amazonas, e redelimita parque estadual e APA

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta